Obra dos Filhos da Ressurreição

Capítulo Diário

Tenho sido interrogado por muitos do porquê da leitura do Capítulo Diário. Por diversas vezes já respondi a esta inquietação afirmando ser ela, junto com a tradição e o magistério da Igreja, a única fonte segura de chegar ao conhecimento de Cristo. O Concílio Vaticano II, na constituição dogmática Dei Verbum, afirma o seguinte: “exorto igualmente o Santo Sínodo e todos os fiéis cristãos, com veemência e de modo peculiar, a que, pela frequente leitura da divinas escrituras aprendam ‘a eminente ciência de Jesus Cristo’Fl 3,8. Porquanto ignorar as escrituras é ignorar o próprio Cristo.” Acheguem-se, pois, de boa mente ao próprio texto sagrado, quer pela sagrada liturgia, repleta da palavra de Deus, quer pela leitura piedosa. Lembrem-se de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça um colóquio entre Deus e o Homem, pois a Ele falamos quando rezamos, a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos.

Quando o Espírito Santo nos chamou e nos entregou este carisma da conformidade com Cristo, também nos ofereceu os meios de alcançá-lo. E um desses meios é a meditação do Capítulo Diário do Novo Testamento. O carisma não acontece para aqueles que ignoram o Cristo, por ignorar a Escritura Sagrada. Como crescer em graça se não sabemos o que Deus quer de nós? Nas coisas de Deus devemos ser sérios e objetivos. Uma pessoa que durante muitos anos foi apenas batizada e fez a 1a Eucaristia, um cristão, digamos razoável, pouco conhece de Cristo que diz ser seu Mestre. Pouco sabe de sua missão, seus sentimentos e seus valores. Creio ser mais difícil ainda àqueles que nem isso possuem.

O Concílio afirma ser a meditação da Sagrada Escritura uma escuta de Deus. É bom lembrar que escuta exige silêncio exterior e interior. Escutar é uma forma de oração do discípulo que ouve para aprender e pôr em prática. Orar que dizer estar diante de Deus para escutá-Lo. Esta frase esconde a afirmação que orar é encontrar-se com Deus, deixar que Deus venha ao nosso encontro com aquela palavra que nos perscruta, nos conhece e revela o que somos, palavras que nos chamam à comunhão divina. A leitura do Capítulo Diário é colocar-se sob o olhar de quem nos ama e nos conhece intimamente, em diálogo que é sobretudo uma escuta confiante de sua palavra.

Por isso, o Capítulo Diário é regra fundamental de nossa Obra. Por quê? É a própria Palavra que nos responde quando nos fala: “tua palavra é lâmpada para meus pés”Sl 118,105 e “quem guarda a minha palavra, este me ama”Lc 11,28.

A palavra torna-se luz quando pela leitura diária, como palavra sempre nova e imprevisível, mas concreta e circunstanciada, vem iluminar meus passos e minha vida. Não de forma repentina e definitiva, de tal modo que possa julgar-me pronto e concluído. A palavra a cada dia revela-me o caminho que Deus traçou para mim e, por contraste, desmascara aquele caminho que me obstino a seguir.

O Capítulo Diário é o deserto onde Deus nos oferece, cotidianamente, o nosso maná. Pão preparado para cada um de nós pela providência do Pai, que sabe do que precisamos todos os dias. Nele há um projeto sobre cada um, aquela palavra que me levará hoje à conformidade com Cristo. Creio, irmãos, que se queremos realmente progredir em nossa vida espiritual, se verdadeiramente queremos saborear a vida de intimidade com Deus, se não estamos em busca de refresco para nossa consciência, devemos fazer da leitura do Capítulo Diário o ponto único de referência que tenha poder de abranger meu coração, minha mente e vontade e, em torno dele, viver o meu compromisso. A palavra assim meditada torna-se um centro de atração e de tração de todo o meu ser. Do confronto com a palavra de Deus, sempre tirarei uma luz nova que sacudirá minha inércia e me fará descobrir a distância entre mim e Jesus.

Assim posto, posso afirmar-lhes que jamais se chegará ao pleno conhecimento do Cristo, longe da meditação diária da Sagrada Escritura. Muitos, de freqüente audição do Evangelho tiram pouco proveito por não terem o espírito de Cristo. Sei que para o principiante requer-se um esforço muito grande, até que entre no mundo bíblico. Depois de algum tempo somos tentados a abandonar a meditação. A mesma tentação que ocorreu com o povo de Deus no deserto, quando murmurou contra Deus, reclamando do maná. Como foi dito anteriormente, este momento de escuta de Deus deve ser realizado com reverência, buscando iluminar minha vida e encontrar a palavra que hoje devo fazer carne. Relembrando que é neste momento que o Espírito Santo grava em nossas almas as características de Jesus, de forma que com o passar dos tempos Deus contemplará em nossos corações a face de seu Divino Filho.
Para nós a palavra de Deus é o primeiro alimento da alma. Sempre aconselhei a todos a invocação ao Espírito Santo antes da leitura. Para que nela Deus se revele aos nossos corações. Como São Gerônimo afirma: “o desconhecimento das escrituras é desconhecimento de Cristo”. A meditação do capítulo diário é um colóquio com Deus: “Com Ele falamos quando rezamos, e a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos” (Santo Agostinho). A palavra de Deus é poder de Deus para salvação de todos os crentes (Rm 1,16). Este poder apresenta-se de maneira especial nos escritos do Novo Testamento e neles manifestam seu vigor (Gl 4,4). O Novo Testamento é Cristo, Ele é o único que tem palavras de vida eterna (Jo 6,68). O Novo Testamento é o anúncio da verdade eterna (Jo 1,2-3).

Em um segundo momento, quero renovar o meu pedido de se habituar as crianças à prática do capítulo diário. Assim já desde a mais tenra idade já se alimentam de Deus e iluminam suas almas. Encontraram mais facilidades no caminho da conformidade com Cristo. Terão maior disponibilidade no serviço ao próximo, a Igreja e a sociedade. Tudo isso fará com que uma profunda identificação, de modo que os que conviverem com eles perceberão uma coerente conduta cristã, uma vida cristificada. Isto se faz despertando neles a fome pela Sagrada Escritura. Tudo isso não será acolhido se os pais, primeiros evangelizadores, não fizerem progresso espiritual.

Outros dois aspectos da fidelidade à leitura do capítulo diário e ao exercício da comunhão entre nós membros desse discipulado, é sempre o bom pensar. Hoje todos que estão comigo nesta conquista se alimentam da mesma palavra, crescemos juntos. Procuramos pôr em prática a mesma atitude de Jesus. Não sou uma única andorinha, somos muitas e o verão do espírito se realiza plenamente. Como filhos de um mesmo pai nos alimentamos de um mesmo alimento numa mesma mesa. É sempre bom lembrar da exortação do mestre: quem é fiel no pouco no muito o será. O Senhor se encontra nas palavras da Sagrada Escritura, a ela devemos acorrer nos momentos de tentação, pois os demônios não podem tolerar essa presença. Aqueles que sempre contra argumentam a impossibilidade desta prática, devido a muitos afazeres, respondo: “Quem deseja o fim abraça os meios, tempo é questão de preferência e questão de amor”. Desconheço um namorado tão ocupado que não encontre tempo para estar junto à pessoa amada. Corres muito, vê se não é atrás de vento. Voltando ao conselho, falo de minha experiência. Se suas atividades são muitas procure levantar 15 minutos mais cedo. O que são 15 minutos? Mais um exercício.

Uma boa Bíblia é a de Jerusalém. Aconselho que você se habitue a ler a introdução de cada livro e as notas de rodapé para uma melhor compreensão do texto bíblico.