Obra dos Filhos da Ressurreição

Meditação do Capítulo Diário

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Capítulo 20 do Evangelho de São João

Entendo o Capítulo. O último quadro do final do Evangelho é composto de duas partes, que discorrem sobre a Ressurreição do Senhor. As partes são organizadas como um drama, com um intenso diálogo entre o céu e a terra. Nelas encontramos as figuras dos anjos, dos discípulos e do Senhor Ressuscitado. Com que propósito o Evangelista fez este esquema? João quer descrever como os discípulos de Jesus Cristo, depois da ventania e da paixão, chegaram a crer na sua ressurreição. São dois passos transcendentais: O primeiro é a aparição do Anjo e, depois, a manifestação do próprio Senhor. A cena vai crescendo até chegar a Tomé, quando há uma nova expressão de fé: “meu Senhor e meu Deus!”

 

  1. 3. O DIA DA RESSURREIÇÃO

20 O sepulcro encontrado vazio 1No primeiro dia da semana[1], Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e vê que a pedra fora retirada do sepulcro. 2Corre então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava, e lhes diz: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram”.

3Pedro saiu, então, com o outro discípulo e se dirigiram ao sepulcro. 4Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. 5Inclinando-se, viu as faixas de linho por terra, mas não entrou[2]. 6Então, chega também Simão Pedro, que o seguia, e entra no sepulcro; vê as faixas de linho por terra 7e o sudário que cobrira a cabeça de Jesus. O sudário não estava com os panos de linho no chão, mas enrolado em lugar, à parte. 8Então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: e viu e creu. 9Pois ainda não tinham compreendido que, conforme a Escritura[3], ele devia ressuscitar dos mortos. 10Os discípulos, então, voltaram para casa.

Aparição a Maria Madalena 11Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para o interior do sepulcro 12e viu dois anjos, vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus fora colocado, um à cabeceira e outro aos pés. 13Disseram-lhe então: “Mulher, por que choras?” Ela lhes diz: “Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram!” 14Dizendo isso, voltou-se e viu Jesus de pé. Mas não sabia que era Jesus. 15Jesus lhe diz: “Mulher, por que choras? A quem procuras?” Pensando ser o jardineiro, ela lhe diz: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar!” 16Diz-lhe Jesus: “Maria!” Voltando-se[4], ela lhe diz em hebraico: “Rabbuni!”[5], que quer dizer “Mestre”. 17Jesus lhe diz: “Não me toques[6], pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos[7] e dize-lhes: Subo a meu Pai[8] e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus”. 18Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Vi[9] o Senhor”, e as coisas que ele lhe disse.

Aparições aos discípulos 19À tarde desse mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas onde se achavam os discípulos, por medo dos judeus, Jesus veio e, pondo-se no meio deles, lhes disse: “A paz esteja convosco![10]20Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos, então, ficaram cheios de alegria por verem o Senhor. 21Ele lhes disse de novo: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

22Dizendo isso, soprou sobre eles[11] e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo. 23Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos”.

24Um dos Doze[12], Tomé, chamado Dídimo, não estava com eles, quando veio Jesus. 25Os outros discípulos, então, lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado, não crerei”. 26Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e Tomé com eles. Jesus veio, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco!” 27Disse depois a Tomé: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado[13] e não sejas incrédulo, mas crê!” 28Respondeu-lhe Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!”[14]

  1. 4. PRIMEIRA CONCLUSÃO

30Jesus fez ainda, diante de seus discípulos, muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. 31Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

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Medito o Capítulo. A leitura do texto deixa uma interrogação dentro de cada um de nós: Quem sou eu neste texto? Sou Maria Madalena, ou Pedro, ou João, ou Tomé etc? Mais do que isso, o autor deseja que cada leitor medite a sua fé na ressurreição do Senhor e na ressurreição pessoal. Quer que todos nós, no dia de hoje, recordemos a Profissão de Fé: Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Creio verdadeiramente nesta promessa do Senhor Jesus Cristo? De que forma esta minha fé se manifesta em minha vida cotidiana? Como a fé na ressurreição me tem feito enfrentar as dificuldades cotidianas? Há algo de novo em meu viver, em meu agir, nas respostas que formulo frente aos desafios? Para ajudar na meditação, posso afirmar que o evangelista quer que o seu leitor, no final do Evangelho, grite bem forte, para que o mundo ouça que Jesus Cristo é Deus e o Senhor de sua vida e vida em plenitude!

Vivo o Capítulo. Para viver o Capítulo de hoje, necessitamos recordar uma frase antiga do nosso convívio: “Ressuscitar é obra de cada dia.” O Capítulo de hoje é um convite expresso para que possamos responder de forma divina, diante dos acontecimentos. E o que significa responder de forma divina? Significa, responder da mesma forma que o Senhor respondeu, sendo fiel ao cumprimento da vontade de Deus. Para tal, é necessária uma decisão, nascida do fundo do coração, um desejo sincero de ser cristão, plena e verdadeiramente. Significa estar na vida de uma forma nova, com um novo olhar, com um novo sentimento, com uma nova racionalidade, com um novo código de leitura da realidade. Finalmente, posso dizer que seria estar no mundo com os mesmos sentimentos do coração de Jesus Cristo. Será que é desta forma que me encontro no mundo? Frente às situações, sou apenas um reagente e não um agente? Quanto à minha fé, tem me ajudado a viver de forma diferente?

[1] Esse dia tornou-se o “Dia do Senhor”, o domingo cristão (cf. Ap 1,10).

[2] O discípulo reconhece caber a Pedro certa preeminência (cf. 21,15-17).

[3] O evangelista não cita texto algum. Quer relevar que os discípulos não se achavam preparados para a revelação pascal, apesar das Escrituras (cf. Lc 24,27.32.44-45).

[4] Var.: “ela o reconheceu”.

[5] Tratamento mais solene que Rabi e, muitas vezes, usado quando se dirige a Deus. Ela se aproxima, portanto, da profissão de fé de Tomé (v. 28).

[6] Maria lançou-se aos pés de Jesus para abraçá-los (cf. Mt 28,9).

[7] Var.: “aos irmãos”.

[8] Essa afirmação não contradiz a narrativa de At 1,3s. A “partida” de Jesus para o Pai e sua entrada corporal na glória (Jo 3,13; 6,62; Ef 4,10; 1 Tm 3,16; Hb 4,14; 6,19s; 9,24; 1Pd 3,22; cf. At 2,33+36+) realizam-se ao mesmo dia da ressurreição (Jo 20,17; Lc 24,51), A cena da ascensão, quarenta dias depois (At 1,2s,9-11), significará que o período dos colóquios familiares com o Cristo cessou, que Jesus está agora “sentado” à direita de Deus e não mais voltará, até a Parusia.

[9] Este verbo “ver”, utilizado na forma ativa ou mais frequentemente na passiva, é regularmente empregado para falar das aparições de Cristo ressuscitado (20,18.25.29; Lc 24,34; At 9,17; 13,31; 1Cor 15,5-8). É o verbo usado para falar das aparições de Deus (Gn 12,7; 17,1; At 7,2), dos anjos (Ex 3,2; Lc 1,11; 22,43; At 7,30), e dos seres celestes (Mc 9,4; Lc 9,30). Cristo ressuscitado voltou ao mundo celeste (17,5+).

[10] Saudação ordinária dos judeus (cf. Jz 19,20; 2Sm 18,28; Lc 10,5). – Esta saudação é repetida o v. 21, índice talvez de inserção mais tardia dos vv. 20-21a, sob a influência do relato paralelo de Lucas.

[11] O sopro de Jesus simboliza o Espírito (em hebraico “sopro”), princípio de vida (6,63). Mesmo verbo raro como em Gn 2,7; cf. Sb 15,11: Cristo ressuscitado dá aos discípulos o Espírito que realiza uma espécie de recriação da humanidade. Possuindo desde já este princípio de vida, o homem passou da morte à vida (5,24), não morrerá jamais (8,51). É o princípio de uma escatologia já realizada. Para Paulo (ao menos em suas primeiras epístolas), esta “recriação” da humanidade só se produzirá por ocasião do retorno de Cristo (1Cor 15,45, que cita Gn 2,7).

[12] Esta segunda aparição de Cristo aos discípulos é calcada literalmente sobre a primeira. Nela Cristo repreende Tomé por não ter crido no testemunho dos outros discípulos e ter exigido “ver” para crer (vv. 24 e 29). Como 4,48+ (cf. v. 25b), este relato dirige-se aos cristãos da segunda geração.

[13] João, no fim do seu evangelho, faz o olhar do fiel, ainda uma vez, voltar-se para a chaga do lado (cf. 19,34+).

[14] Sobre o testemunho dos apóstolos (cf. At 1,8+).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 21 do Evangelho de São João

Entendo o Capítulo. O Capítulo vinte e um do Evangelho de São João me faz recordar o Capítulo dez, quando Jesus Cristo discorreu sobre o Bom Pastor. Nele encontramos as seguintes narrações: a pesca milagrosa; o encontro com Pedro; e o discípulo amado. Aos meus olhos, este Capítulo resume a mensagem do Evangelho. Nele podemos encontrar a revelação de Deus em seu Filho enviado ao mundo, que cumpre a sua missão e envia o Espírito Santo para continuar a sua obra pelos séculos afora. Como dissemos, esse Capítulo está construído sobre a imagem do Bom Pastor, missão confiada a Pedro e aos seus sucessores. Ao perdoar a Pedro e dar-lhe a missão de pastorear as ovelhas, Jesus Cristo deixa uma mensagem profundamente ligada ao seu mandamento de amor: os seus discípulos deverão testemunhar para o mundo a sua mensagem de amor a Deus e ao próximo.

 

EPÍLOGO

21 Aparição à margem do lago de Tiberíades[a]1Depois disso, Jesus manifestou-se novamente aos discípulos, às margens do mar de Tiberíades. Manifestou-se assim: 2Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros de seus discípulos. 3Simão Pedro lhes disse: “Vou pescar”. Eles lhe disseram: “Vamos nós também contigo”. Saíram e subiram ao barco e, naquela noite, nada apanharam.

4Já amanhecera. Jesus estava de pé, na praia, mas os discípulos não sabiam que era Jesus. 5Então Jesus lhes disse: “Jovens, acaso tendes algum peixe?” Responderam-lhe: “Não!” 6Disse-lhes: “Lançai a rede à direita do barco e achareis”. Lançaram, então, e já não tinham força para puxá-la, por causa da quantidade de peixes[b]. 7Aquele discípulo que Jesus amava disse então a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer “É o Senhor!”, vestiu sua roupa — porque estava nu — e atirou-se ao mar. 8Os outros discípulos, que não estavam longe da terra, mas cerca de duzentos côvados[c], vieram com o barco, arrastando a rede com os peixes.

9Quando saltaram em terra, viram brasas acesas, tendo por cima peixe e pão. 10Jesus lhes disse: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”. 11Simão Pedro subiu então ao barco e arrastou para a terra a rede, cheia de cento e cinquenta e três peixes grandes; e apesar de serem tantos, a rede não se rompeu[d]. 12Disse-lhes Jesus: “Vinde comer!” Nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: “Quem és tu?”, porque sabiam que era o Senhor. 13Jesus aproxima-se, toma o pão e o distribui entre eles; e faz o mesmo com o peixe. 14Foi esta a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos, depois de ressuscitado dos mortos.

15Depois de comerem, Jesus disse a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes”? Ele lhe respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta meus cordeiros”. 16Segunda vez disse-lhe: “Simão, filho de João, tu me amas?” — “Sim, Senhor”, disse ele, “tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta minhas ovelhas”. 17Pela terceira vez lhe disse: “Simão, filho de João, tu me amas?” Entristeceu-se[e] Pedro porque pela terceira vez lhe perguntara “Tu me amas?” e lhe disse: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”[f]. Jesus lhe disse: “Apascenta minhas ovelhas[g]. 18Em verdade, em verdade, te digo: quando eras jovem, tu te cingias e andavas por onde querias; quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres”.

19Disse isso para indicar com que espécie de morte[h] Pedro daria glória a Deus. Tendo falado assim, disse-lhe: “Segue-me”[i].

20Pedro, voltando-se, viu que o seguia o discípulo que Jesus amava, aquele que, na ceia, se reclinara sobre seu peito e perguntara: “Senhor, quem é que te vai entregar?” 21Pedro, vendo-o, disse a Jesus: “Senhor, e ele?” 22Jesus lhe disse: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha[j], que te importa? Quanto a ti, segue-me”. 23Divulgou-se, então, entre os irmãos, a notícia de que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não disse que ele não morreria, mas: “Se quero que ele permaneça até que eu venha[k]”.

Conclusão 24Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu; e sabemos[l] que o seu testemunho é verdadeiro.

25Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam.

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Medito o Capítulo. O Capítulo final aponta para o futuro da missão de Jesus Cristo, confiada aos seus discípulos. Jesus Cristo deixa claro que a sua comunidade enfrentará dificuldades, a exemplo da tempestade em alto mar, mas que ele sempre estará com eles. Revela que eles, a seu exemplo, deverão cuidar das ovelhas como um Bom Pastor, dando a vida por elas, com humildade e mansidão de coração. O serviço da caridade deve distinguir os seus discípulos em meio ao mundo. Quer que a sua Igreja seja uma chama de amor flamejante no meio da humanidade, capaz de reavivar a chama que apenas fumega. Diante do que foi exposto, devemos olhar para o nosso interior e buscar descobrir quais são as motivações que nos movem. Melhor, ainda, seria chegar à fonte da qual nascem todas elas. Quem encontrou o amor, encontrou a razão para viver a luz para fazer bem todas as coisas. E por isso, possui uma disponibilidade interior grande.

Vivo o Capítulo. O Capítulo meditado hoje exige de cada um de nós um compromisso com o futuro. Um compromisso de fazer memória de Jesus Cristo. Para isso, não podemos nos esquecer de suas palavras: “Nisto reconhecerão que vocês são os meus discípulos se vos amardes uns aos outros, como eu vos amei.” Sim, o amor universal consiste na marca que faz a diferença de um cristão no mundo. Amar sem medidas consiste na característica marcante dos discípulos de Jesus Cristo. Amor serviçal, amor sacrifical, amor oblativo, amor de graça e por isso capaz de transformar o nosso coração, de transformar a vida em suas diversas dimensões. Sim, o final da leitura do Evangelho de São João é um convite a crer que o amor vence na vida e vence na morte. Por isso, busquemos hoje ser mais amorosos em nossas interações com o próximo, ou seja, servir mais e sem distinção. Façamos um “descansar armas” e nos aproximemos dos que sofrem com desejo de curar as suas feridas e não de machucá-las ainda mais.

[a] Este relato funde dois episódios primitivamente distintos: uma pesca miraculosa (cf. Lc 5,4-10), e uma refeição pós-pascal (cf. Lc 24,41-43), que o v. 10 se esforça em ligar. Nos vv. 1 e 14, o verbo “manifestar”, dito de Cristo, é termo técnico herdado das tradições judaicas, para significar a manifestação de Cristo enquanto tal (1,31+; opor o verbo “ser visto” para as aparições de Cristo ressuscitado: 20,18+). Isso poderia ser indício de que, nas tradições joaninas, a pesca miraculosa estava na origem de acontecimento relativo ao início do ministério de Jesus, como em Lucas.

[b] Superabundância que lembra Caná (2,6), e a multidão dos pães (6,11s).

[c] Côvado foi uma medida de comprimento usada por diversas civilizações antigas. Era baseado no comprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo. Ninguém sabe quando esta medida entrou em uso. O côvado era usado regularmente por vários povos antigos, entre eles os babilônios, egípcios e hebreus. O côvado real dos antigos egípcios media 50 cm. O dos romanos media 45 cm. https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B4vado [consultado em 02-04-2020].

[d] Como Lc 5,10, João dá valor simbólico ao relato. Os peixes representam os futuros discípulos de Jesus. 153 é número triangular (gênero de computo bem conhecido na antiguidade) cuja base é 17, isto é, 10+7 que significam a multidão e a totalidade. A rede que não se rompe simboliza a Igreja da qual Pedro será o pastor (vv. 15-17).

[e] Ele vê nisso uma lembrança de sua tríplice negação (13,38; 18,17.25-27).

[f] “Amar” é expresso, no texto, por dois verbos diferentes, que correspondem, respectivamente, a amar e a ter amizade, gostar. Não é certo, porém, que essa alternância – como a alternância “cordeiros”/ “ovelhas” – seja mais do que questão de estilo.

[g] À tríplice profissão de amor de Pedro, Jesus responde por tríplice investidura. Ele confia a Pedro o encargo de, em seu nome, reger o rebanho (cf. Mt 16,18; Lc 22,31s). Pode ser que a tríplice repetição seja sinal de compromisso, contrato em boa e devida forma, conforme o costume semítico (cf. Gn 23,7-23).

[h] O martírio.

[i] Fórmula pela qual Jesus convida alguém a se tornar seu discípulo (1,43; Mt 8,22; 9,9; 19,21). Como em Lc 5,10-11, o relato da pesca miraculosa termina com um convite a seguir Jesus. Mas aqui, Pedro é chamado a segui-lo até na morte (v. 18; cf. 13,36).

[j] Isto é, até a Parusia (cf. 1Cor 11,26; 16,22; Ap 1,7; 22,7.12.17.20).

[k] Om.: “que te importa?”

[l] Talvez aqui fale um grupo de discípulos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

Hoje iniciamos a meditação do Livro dos Atos dos Apóstolos. Como todo livro bíblico, contém algo de divino, para inspirar a nossa vida, e para imitar em nosso cotidiano. Muitos estudiosos aludem a ele como um livro histórico, o que não deixa de ser uma verdade, mas o leitor não pode se aproximar dele com apenas com essa mentalidade. Ele é um livro de fé, divinamente inspirado e, por isso, traz em seu bojo a revelação divina. Nos entrega um querer de Deus para nós, que devemos descobrir. Apresento aqui a divisão proposta pela Bíblia de Jerusalém: Prólogo; a Igreja de Jerusalém; as primeiras missões; missão de Barnabé e de Paulo (O Concílio de Jerusalém); as missões de Paulo; fim das missões (o prisioneiro de Cristo). Inspiram-me os comentários da Bíblia de Jerusalém, de William S. Kurtz, SJ, e os estudos realizados durante o Curso de Teologia. O livro dos Atos dos Apóstolos narra a força da expansão espiritual do cristianismo.

 

AS VIAGENS MISSIONÁRIAS DE PAULO APÓSTOLO

[Consultado em https://www.lds.org/scriptures/bible-maps/map-13?lang=por, em 03-02-2019]

  1. GazaFilipe pregou a respeito de Cristo e batizou um eunuco etíope a caminho de Gaza (At 8,26–39).
  2. JerusalémVer o mapa 12 para os acontecimentos em Jerusalém.
  3. JopePedro recebeu uma visão de que Deus concedera o dom do arrependimento aos gentios (At 1011,5-18). Pedro levantou Tabita dos mortos (At 9,36-42).
  4. SamariaFilipe ministrou em Samaria (At 8,5-13), e Pedro e João posteriormente ensinaram aqui (At 8,14-25). Após terem eles conferido o dom do Espírito Santo, Simão, o mágico, tentou comprar deles esse dom (At 8,9-24).
  5. CesareiaNeste local, depois que um anjo ministrou a um centurião chamado Cornélio, Pedro permitiu que ele fosse batizado (At 10). Aqui, Paulo fez a sua defesa perante Agripa (At 25-26; ver também JS—H 1:24–25).
  6. DamascoJesus apareceu a Saulo (At 9,1-7). Depois que Ananias restaurou a visão de Saulo, este foi batizado e iniciou o seu ministério (At 9,10-27).
  7. Antioquia (na Síria)Aqui, os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez (At 11,26). Ágabo profetizou fome (At 11,27-28). Grande dissensão surgiu em Antioquia concernente à circuncisão (At 14,26-2815,1-9). Em Antioquia, Paulo iniciou a sua segunda missão, com Silas, Barnabé e Judas Barsabás (At 15,22.30.35).
  8. TarsoCidade natal de Paulo; ele foi enviado para cá pelos líderes da Igreja para proteger a vida dele (At 9,29-30).
  9. ChipreApós terem sido perseguidos, alguns dos santos fugiram para esta ilha (At 11,19). Paulo passou por Chipre em sua primeira viagem missionária (At 13,4-5), como o fizeram posteriormente Barnabé e Marcos (At 15,39).
  10. PafosPaulo amaldiçoou aqui um feiticeiro (At 13,6-11).
  11. DerbePaulo e Barnabé pregaram o evangelho nesta cidade (At 14,6-7; 20-21).
  12. ListraApós Paulo ter curado um paralítico, ele e Barnabé foram aclamados como deuses. Paulo foi apedrejado e dado como morto, mas reviveu e continuou a pregar (At 14,6-21). Lar de Timóteo (At 16,1-3).
  13. IcônioEm sua primeira missão, Paulo e Barnabé pregaram aqui e foram ameaçados de apedrejamento (At 13,51-14,7).
  14. Laodiceia e ColossosLaodiceia é um dos ramos da Igreja que Paulo visitou e do qual recebeu cartas (Cl 4,16). É também uma das sete cidades relacionadas no livro de Apocalipse (as outras são: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia; ver Ap 1,11). Colossos está a 18 quilômetros a leste de Laodiceia. Paulo escreveu aos santos que viviam aqui.
  15. Antioquia (da Pisídia)Em sua primeira viagem, Paulo e Barnabé ensinaram aos judeus que Cristo veio da semente de Davi. Paulo anunciou o evangelho a Israel, e depois aos gentios. Paulo e Barnabé foram perseguidos e expulsos (At 13,14-50).
  16. MiletoEnquanto estava aqui, em sua terceira missão, Paulo advertiu os líderes da Igreja de que “lobos cruéis” entrariam no rebanho (At 20,29-31).
  17. PatmosJoão era prisioneiro nesta ilha quando ele teve as visões atualmente contidas no livro de Apocalipse (Ap 1,9).
  18. ÉfesoApolo pregou aqui com poder (At 18,24-28). Paulo, em sua terceira missão, ensinou em Éfeso durante dois anos, tendo convertido muitas pessoas (At 19,10; 18). Aqui, ele conferiu o dom do Espírito Santo pela imposição das mãos (At 19,1-7) e realizou muitos milagres, inclusive a expulsão de espíritos malignos (At 19,8-21). Aqui, os adoradores de Diana provocaram um tumulto contra Paulo (At 19,22-41). Parte do livro de Apocalipse foi dirigido à Igreja de Éfeso (Ap 1,11).
  19. TrôadeEnquanto Paulo esteve aqui, em sua segunda viagem missionária, teve a visão de um homem da Macedônia pedindo ajuda (At 16,9-12). Durante a sua estada aqui, em sua terceira missão, Paulo levantou Êutico dos mortos (At 20,6-12).
  20. FiliposPaulo, Silas e Timóteo converteram uma mulher chamada Lídia, expulsaram um espírito maligno e foram açoitados (At 16,11-23). Eles receberam ajuda divina para escapar da prisão (At 16,23-26).
  21. AtenasDurante sua segunda missão em Atenas, Paulo pregou na Colina de Marte (Areópago) a respeito do “deus desconhecido” (At 17,22-34).
  22. CorintoPaulo foi para Corinto em sua segunda missão, onde se hospedou com Áquila e Priscila. Ali ele pregou o evangelho e batizou muitas pessoas (At 18,1-18). De Corinto, Paulo escreveu a sua epístola aos romanos.
  23. TessalônicaPaulo pregou aqui durante a sua segunda viagem missionária. Seu grupo missionário partiu para Bereia, depois que os judeus ameaçaram a sua segurança (At 17,1-10).
  24. BereiaPaulo, Silas e Timóteo encontraram nobres almas para ensinar durante a segunda viagem missionária de Paulo. Os judeus de Tessalônica os seguiram e perseguiram (At 17,10-13).
  25. MacedôniaPaulo ensinou aqui durante a sua segunda e terceira viagem (At 16,9-4019,21). Paulo elogiou a generosidade dos santos macedônios, que fizeram uma coleta para ele e para os santos pobres de Jerusalém (Rm 15,262 Cor 8,1-511,9).
  26. MaltaO barco de Paulo naufragou nesta ilha a caminho de Roma (At 26,3227,1. 41-44). Ele escapou ileso após ser picado por uma serpente e curou muitos que estavam enfermos em Malta (At 28,1-9).
  27. RomaPaulo pregou aqui por dois anos enquanto estava em prisão domiciliar (At 28,16-31). Ele também escreveu epístolas, ou cartas, aos efésios, filipenses e colossenses, e a Timóteo e Filemon, enquanto esteve prisioneiro em Roma. Pedro escreveu a sua primeira epístola da “Babilônia,” que era provavelmente Roma, logo depois das perseguições de Nero aos cristãos em 64 d.C. Acredita-se que Pedro e Paulo tenham sido mortos aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 01 dos Atos dos Apóstolos

Entendo o Capítulo. No primeiro Capítulo constam o prólogo; a ascensão do Senhor; o grupo dos Apóstolos; e a substituição de Judas. A sua leitura nos faz perceber que ele é uma continuação do Evangelho escrito por São Lucas e que retrata o tempo do Espírito na vida da Igreja.

 

ATOS DOS APÓSTOLOS

1 Prólogo 1Fiz meu primeiro relato[1], ó Teófilo, a respeito de todas as coisas que Jesus fez e ensinou desde o começo, 2até o dia em que foi arrebatado ao céu[2], depois de ter dado instruções aos apóstolos que escolhera sob a ação do Espírito Santo[3]. 3Ainda a eles, apresentou-se vivo depois de sua paixão, com muitas provas incontestáveis: durante quarenta dias apareceu-lhes e lhes falou do que concerne ao Reino de Deus[4]. 4Então, no decurso de uma refeição com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém[5], mas que aguardassem a promessa do Pai, “a qual, disse ele, ouvistes de minha boca: 5pois João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo[6] dentro de poucos dias”.

A Ascensão 6Estando, pois, reunidos[7], eles assim o interrogaram: “Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?[8]7E ele respondeu-lhes: “Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos[9] que o Pai fixou com sua própria autoridade. 8Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo[10] que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas[11] em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra[12]”.

9Dito isto, foi elevado à vista deles, e uma nuvem[13] o ocultou a seus olhos. 10Estando a olhar atentamente para o céu, enquanto ele se ia, dois homens vestidos de branco encontraram-se junto deles e lhes disseram: “Homens da Galileia, por que estais aí a olhar para o céu? Este Jesus, que foi arrebatado dentre vós para o céu, assim virá[14], do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.

  1. A Igreja de Jerusalém

O grupo dos apóstolos 12Então, do monte chamado das Oliveiras, voltaram a Jerusalém. A distância é pequena: a de uma caminhada de sábado. 13Tendo entrado na cidade, subiram à sala de cima, onde costumavam ficar. Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o Zelota; e Judas, filho de Tiago[15]. 14Todos estes, unânimes, perseveravam na oração[16] com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos[17].

Substituição de Judas 15Naqueles dias, Pedro levantou-se no meio dos irmãos[18] — o número das pessoas reunidas era de mais ou menos cento e vinte — e disse: 16“Irmãos, era preciso que se cumprisse a Escritura em que, por boca de Davi, o Espírito Santo havia de antemão falado a respeito de Judas, que se tornou o guia daqueles que prenderam a Jesus. 17Ele era contado entre os nossos e recebera sua parte neste ministério. 18Ora, este homem adquiriu um terreno com o salário da iniquidade e, caindo de cabeça para baixo, arrebentou pelo meio, derramando-se todas as suas entranhas. 19O fato foi tão conhecido de todos os habitantes de Jerusalém que esse terreno foi denominado, na língua deles, Hacéldama, isto é, ‘Campo do Sangue’.[19] 20Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua morada e não haja quem nela habite. E ainda: Outro receba o seu encargo.

21É necessário, pois, que, dentre estes homens que nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu em nosso meio, 22a começar do batismo de João até o dia em que dentre nós foi arrebatado, um destes se torne conosco testemunha da sua ressurreição”.

23Apresentaram[20] então dois: José, chamado Barsabás e cognominado Justo, e Matias. 24E fizeram esta oração: “Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, mostra-nos qual destes dois escolheste 25a fim de ocupar, no ministério do apostolado, o lugar que Judas abandonou, para dirigir-se ao lugar que era o seu”. 26Lançaram sortes sobre eles[21], e a sorte veio a cair em Matias, que foi então associado aos doze apóstolos[22].

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Medito o Capítulo. Neste capítulo, São Lucas deixa claro que será dado aos discípulos de Cristo o mesmo Espírito do qual Jesus estava pleno ao iniciar a sua missão (cf. Lc 4,18). Jesus cumpre a sua promessa de que não os deixaria órfãos diante do dragão do mundo. Eles receberão o Espírito poderoso, que fez o Senhor realizar todos os sinais e prodígios e o maior deles, que foi vencer a morte. Logo, eles teriam a graça e o poder para continuar a obra de Jesus Cristo. De outro lado, há uma verdade transcendente que se faz ver: o cristianismo, ou melhor, as ações dos cristãos não são ações apenas humanas, mas ações de Deus, pois elas vêm diretamente de Deus. Penso que aqui temos muito que meditar. Por primeiro, penso que, neste assunto, a nossa fé é fraca. E o que é pior, não cremos que o Espírito Santo está conosco e nos oferece as suas moções e a sua força para levarmos adiante a missão de Jesus Cristo. Devido a isso, vamos procurar segurança no conhecimento humano, nos bens materiais ou afetivos. Desta forma, muitas vezes as nossas obras, mesmo dentro do agir religioso, são obras humanas e não divinas.

Vivo o Capítulo. Penso que São Lucas, ao escrever os Atos dos Apóstolos, responde uma questão que parou no coração de todos os discípulos do tempo de Jesus e se encontra presente em muitos corações até o momento atual. Depois da morte eles se perguntavam: “E agora?” Também nós nos perguntamos, diante da grandiosidade da missão. Muitas vezes, por desconhecermos o dom do Espírito Santo, ficamos paralisados ou começamos a agir, contando com a força humana, com o saber humano, com a esperteza humana, com o jeito humano. Porém, infelizmente caímos na tentação de acharmos que o tudo é obra de nossas mãos, tudo é fruto de nossa engenhosidade, de nossa capacidade, de nossa inteligência etc. As coisas de Deus são feitas por pessoas de Deus – este é o grande princípio da ação pastoral, da educação dos filhos, da manutenção da santidade da família etc –. Penso que quando se trata do fazer religioso especificamente, as pessoas se bloqueiam porque vão percebendo que apenas com os meios humanos não dá. Existem outras que nem iniciam a sua missão, vivem sempre dando desculpas para não iniciar, mas na verdade a sensação de impotência habita no interior dessas pessoas. Este capítulo nos responde o porquê muitos e muitos fracassam sem mesmo iniciar; o porquê muitos se encontram estatizados ou desanimados. Para viver este capítulo, necessito saber qual é a missão que Deus me confiou – ou à comunidade que participo – e assumi-la com o poder do Espírito Santo. Ou será que o Espírito deverá procurar outra pessoa, para que os dons que a mim foram confiados não se percam?

[1] O evangelho de Lucas.

[2] O texto oc. não menciona a Ascensão aqui.

[3] A ação do Espírito é acentuada nos inícios da missão dos apóstolos (vv. 5.8 e c. 2), como o fora nos inícios do ministério de Jesus (Mt 4,1+; Lc 4,1+).

[4] O Reino de Deus (Mt 4,17+) continuará a ser o grande tema da pregação dos apóstolos (cf. 8,12; 19,8; 20,25; 28,23.31), como fora o da pregação de Jesus (cf. Mt 3,2+; Mc 1,1+).

[5] Para Lucas, Jerusalém é o centro predestinado da obra da salvação (Lc 2,22+.38+), o ponto final da missão terrestre de Jesus (Lc 24,33s) e o ponto de partida da missão universal dos apóstolos (Lc 24,47; At 1,8.12; 6,7; 8,1; 11,19; 15,30.36 etc).

[6] O batismo no Espírito Santo (ou com o Espírito), já anunciado por João Batista (Mt 3,11p) e aqui prometido por Jesus, será inaugurado pela efusão de Pentecostes (2,1-4). A seguir, segundo o mandato de Cristo (Mt 28,19), os apóstolos continuarão a administrar o batismo com água (At 2,41; 8,12.38; 9,18; 10,48; 16,15.33; 18,8; 19,5) como rito de iniciação ao reino messiânico (cf. Mt 3,6+), mas conferindo-o “em nome de Jesus” (At 2,38+). Por isso, pela fé na obra realizada por Cristo (cf. Rm 6,4+), o batismo terá doravante o poder eficaz de perdoar os pecados e conceder o Espírito Santo (At 2,38). De outro lado vê-se aparecer, em conexão com esse batismo cristão com água, outro rito de imposição das mãos (1Tm 4,14+) destinado a uma comunicação visível e carismática do Espírito, análoga à do Pentecostes (8,16-19; 9,17-18; 19,5-6; mas cf. 10,44-48), rito que está na origem do sacramento da confirmação. Ao lado destes sacramentos cristãos, o batismo de João continuou a ser praticado durante certo tempo por alguns fiéis insuficientemente instruídos (19,3).

[7] At 1,6 reata o fio da narrativa, interrompido em Lc 24,29.

[8] O estabelecimento do reino messiânico ainda parece aos apóstolos uma restauração temporal da realeza davídica. Cf. Mt 4,17+.

[9] Inserindo seu plano de salvação na história humana, Deus preparou, desde toda a eternidade (Rm 16,25+; 1Cor 2,7; Ef 1,4; 3,9.11; Cl 1,26; 2Tm 1,9; cf. Mt 25,34) os “tempos e momentos” (cf. Dn 2,21; 1Ts 5,1): 1º, de início, o tempo da preparação (Hb 1,2; 9,9; 1Pd 1,11) e da paciência (Rm 3,26; At 17,30); 2º, na “plenitude dos tempos” (Gl 4,4+), o momento escolhido para a vinda de Cristo, inaugurando a era da salvação (Rm 3,26+); 3º, o tempo que decorre até a Parusia (2Cor 6,2+); enfim, 4º, o tempo dos “últimos dias” (1Tm 4,1+), o “Dia” escatológico (1Cor 1,8+) e o Juízo final (Rm 2,6+).

[10] O Espírito, tema especialmente caro a Lc (Lc 4,1+), aparece antes de tudo como um Poder (Lc 1,35; 24,49; At 1,8; 10,38; Rm 15,13.19; 1Cor 2,4-5; 1Ts 1,5; Hb 2,4), enviado de junto de Deus por Cristo (At 2,33) para a difusão da boa nova. O Espírito outorga os carismas (1Cor 12,4s) que autenticam a pregação: dons das línguas (At 2,4+), dos milagres (10,38), da profecia (11,27+; 20,23; 21,11), da sabedoria (6,3.5.10); dá a força de anunciar Jesus Cristo, apesar das perseguições (4,8.31; 5,32; 6,10; cf. Fl 1,19), e de dar testemunho dele (Mt 10,20p; Jo 15,26; At 1,8; 2Tm 1,7s; cf. nota seguinte); intervém, enfim, nas decisões capitais: admissão dos gentios na Igreja (8,29.30; 10,19.44-47; 11,12-16; 15,8), abolição, para eles, das observâncias legais (15,28), missão de Paulo no mundo gentio (13,2s; 16,6-7; 19,1 [T. oc.], cf. Mt 3,16+). Mas os Atos conhecem também o dom do Espírito recebido no batismo e outorgando a remissão dos pecados (2,38; cf. Rm 5,5+).

[11] Os apóstolos têm por missão essencial dar testemunho da ressurreição de Jesus (Lc 24,48; At 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 13,31; 22,15), e mesmo de toda a sua vida pública (Lc 1,2; Jo 15,27; At 1,22; 10,39s). Cf. Rm 1,1+.

[12] A missão dos apóstolos estende-se ao universo (Is 45,14+). As etapas aqui assinaladas traçam em linhas gerais o esquema geográfico dos Atos: Jerusalém, que era o ponto de chegada do evangelho, é agora o ponto de partida (cf. Lc 2,38+).

[13] A nuvem faz parte do quadro das teofanias do AT (Ex 13,22+) e do NT (Lc 9,34-35p). Ela caracteriza (Dn 7,13) a Parusia do Filho do Homem (Mt 24,30+; aqui v. 11; cf. 1Ts 4,17; Ap 1,7; 14,14-16).

[14] A vinda gloriosa da Parusia (cf. Mt 16,27p; 24,30p+; 25,31; 1Ts 4,16; 2Ts 1,7s).

[15] Acrescentamos “filho” (de Alfeu, de Tiago). – O apóstolo Judas é distinto de Judas, irmão de Jesus (cf. Mt 13,55; Mc 6,3) e irmão de Tiago (Judas 1). Não se deve também, parece, identificar o apóstolo Tiago, filho de Alfeu, com Tiago, irmão do Senhor (At 12,17; 15,13 etc).

[16] Os Atos contêm numerosos exemplos de oração assídua, recomendada (Mt 6,5+) e praticada (Mt 14,23+) por Jesus. Oração comunitária presidida pelos apóstolos (4,24-30; 6,4) e centralizada na fração do pão (2,42.46; 20,7-11). Oração nas ocasiões importantes: eleições e ordenações para encargos na Igreja (1,24; 6,6; 13,3; 14,23), confirmação dos samaritanos (8,15), período de perseguições (4,24-31; 12,5.12). Notam-se também pessoas individuais em oração: Estêvão, orando por si mesmo e por seus algozes (7,59-60); Paulo, após a visão que teve de Cristo (9,11); Pedro e Paulo antes dos milagres (9,40; 28,8); Pedro, quando Deus o chama para ir ter com Cornélio (10,9; 11,5); o próprio Cornélio, homem de oração (10,2.4.30-31); Paulo e Silas na prisão (16,25); Paulo, ao deixar seus amigos em Mileto (20,36) e em Tiro (21,5). Oração de súplica na maioria destes casos, também (8,22-24) para obter o perdão; oração de louvor (16,25) e de ação de graças (28,15); enfim, testemunho de fé: “invocar o nome de Jesus Cristo” é a característica do cristão (2,21.38; 9,14.21; 22,16).

[17] Cf. Mt 12,46+.

[18] Ao lado do sentido estrito, a palavra “irmão” toma amiúde na Bíblia sentido mais lato, visando ao parente mais ou menos afastado (Gn 9,25; 13,8), ao compatriota (Gn 16,12; Ex 2,11; Dt 2,4; 15,2; Sl 22,23). Daí, passa para parentesco mais profundo pela comunhão na aliança. No NT designa muitas vezes os cristãos, discípulos de Cristo (Mt 28,10; Jo 20,17; At 6,3; 9,30; 11,1; 12,17; Rm 1,13 etc), que fazem como ele a vontade do Pai (Mt 12,50p); filhos do mesmo Pai, do qual ele é o primogênito (Mt 25,40ç Rm 8,29; Hb 2,11.17), e entre os quais reina o amor fraterno (Rm 12,10; 1Ts 4,9; 1Pd 1,22; 1Jo 3,14 etc).

[19] Esta apresentação da morte de Judas difere da apresentada por Mt 27,3-10. Ele também não morre enforcado como Aquitofel (2Sm 17,23) mas por uma queda (?), como os ímpios de Sb 4,19, e por derramamento das entranhas, como numerosos criminosos das lendas folclóricas. O “sangue do campo” não é mais o de Jesus, mas o de Judas. Através dessas divergências de tradições populares, pressente-se o fato real de morte súbita e vergonhosa do traidor, ligada bem ou mal a um lugar mal-afamado e conhecido de Jerusalém, o Hacéldama.

[20] Var.: “Apresentou dois deles” (v. 23) e “fez esta oração” (v. 24): para pôr em relevo o papel de Pedro.

[21] Este modo arcaico de eleição (Ex 33,7+; 1Sm 14,41+; Lc 1,9) cederá lugar sem demora, na comunidade primitiva, a um procedimento menos mecânico (cf. 6,3-6; 13,2-3).

[22] Texto oc.: “foi contado entre os doze apóstolos” (cf. Mc 3,14+).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

As grandes linhas da vida de Jesus que encontramos em são Marcos se encontram no evangelho de são Mateus, mas o acento é posto de modo diferente. O plano em primeiro lugar é outro. Relatos e discursos se alternam: 1-4, relato: infância e início do ministério; 5-7, discurso: sermão sobre a montanha (bem-aventuranças, entrada no Reino); 8-9, relato: dez milagres mostrando a autoridade de Jesus, convite aos discípulos, 10, discurso missionário; 11-12, relato: Jesus rejeitado por “esta geração”; 13, discurso: sete parábolas sobre o Reino; 14-17, relato: Jesus reconhecido pelos discípulos; 18, discurso: a vida comunitária na Igreja; 19-22, relato: autoridade de Jesus último convite; 23-25, discurso apocalíptico: desgraças, vinda do Reino; 26-28, relato: morte e ressurreição. Devemos notar a correspondência dos relatos (natividade e vida nova, autoridade e convite, rejeição e reconhecimento), e a relação entre o primeiro e o quinto discurso, e entre o segundo e o quarto; o terceiro discurso forma o centro da composição. Como, por outro lado, Mateus reproduz muito mais completamente que Marcos o ensinamento de jesus (que ele tem em grande parte em comum com Lucas) e insiste sobre o tema do “Reino dos Céus” (3,2; 4,17+) pode-se caracterizar seu evangelho como uma instrução narrativa sobre a vinda do Reino dos Céus.

 

MEDITAÇÃO DO CAPÍTULO DIÁRIO

Evangelho de São Mateus

Este Evangelho, transmitido em grego pela Igreja, deve ter sido escrito originariamente em aramaico, a língua falada por Jesus. O texto atual reflete tradições hebraicas, mas ao mesmo tempo testemunha uma redação grega. O vocabulário e as tradições fazem pensar em crentes ligados ao ambiente judaico; apesar disso, não se pode afirmar a sua origem palestina. Geralmente pensa-se que foi escrito na Síria, talvez em Antioquia ou na Fenícia, onde viviam muitos judeus, por deixar entrever uma polêmica declarada contra o judaísmo farisaico. Atendendo a elementos internos e externos ao livro, o atual texto pode datar-se dos anos 80-90, ou seja, algum tempo após a destruição de Jerusalém.

AUTOR

Do seu autor, este livro nada diz; mas a mais antiga tradição eclesiástica atribui-o ao apóstolo Mateus, um dos Doze, identificado com Levi, cobrador de impostos (9,9-13; 10,3). Pelo conhecimento que mostra das Escrituras e das tradições judaicas, pela força interpelativa da mensagem sobre os chefes religiosos do seu povo, pelo perfil de Jesus apresentado como Mestre, o autor deste Evangelho era, com certeza, um letrado judeu tornado cristão, um mestre na arte de ensinar e de fazer compreender o mistério do Reino do Céu, o tesouro da Boa-Nova anunciada por Jesus, o Messias, Filho de Deus.

COMPOSIÇÃO LITERÁRIA

Mateus recorre a fontes comuns a Mc e Lc, mas apresenta uma narração muito diferente, quer pela amplitude dos elementos próprios, quer pela liberdade com que trata materiais comuns. O conhecimento dos processos e os modos próprios de escrever de Mateus são de grande importância para a compreensão do livro atual: compilação de palavras e de fatos, de “discursos” e de milagres; recurso a certos números (7, 3, 2); paralelismo sinonímico[1] e antitético[2]; estilo hierático[3] e catequético; citações da Escritura etc.

DIVISÃO E CONTEÚDO

Apesar dos característicos agrupamentos de narrações, não é fácil determinar o plano ou estabelecer as grandes divisões do livro. Dos tipos de distribuição propostos pelos críticos, podemos referir três:

  1. Segundo o plano geográfico: o ministério de Jesus na Galileia (4,12b-13,58), a sua atividade nas regiões limítrofes da Galileia e a caminho de Jerusalém (14,1-20,34), ensinamentos, Paixão, Morte e Ressurreição em Jerusalém (21,1-28,20).
  2. Segundo os cinco “discursos”, subordinando a estes as outras narrações: resulta daí um destaque para a dimensão doutrinal e histórica da existência cristã.
  3. Segundo o objetivo de referir o drama da existência de Jesus: Mateus apresenta o Messias em quem o povo judeu recusa acreditar (3,1-13,58) e que, percorrendo o caminho da cruz, chega à glória da Ressurreição (14-28).

Aqui, limitamo-nos a destacar:

  1. Evangelho da Infância de Jesus(1,1-2,23);
  2. Anúncio do Reino do Céu(3,1-25,46);
  • Paixão e Ressurreição de Jesus(26,1-28,20).

TEOLOGIA

Escrevendo entre judeus e para judeus, Mateus procura mostrar como na pessoa e na obra de Jesus se cumpriram as Escrituras, que falavam profeticamente da vinda do Messias. A partir do exemplo do Senhor, reflete a praxe[4] eclesial de explicar o mistério messiânico mediante o recurso aos textos da Escritura e de interpretar a Escritura à luz de Cristo. Esta característica marcante contribui para compreender o significado do cumprimento da Lei e dos Profetas: Cristo realiza as Escrituras, não só cumprindo o que elas anunciam, mas aperfeiçoando o que elas significam (5,17-20). Assim, os textos da Escritura neste Evangelho confirmam a fidelidade aos desígnios divinos e, simultaneamente, a novidade da Aliança em Cristo.

Nele ressaltam cinco blocos de palavras ou “discursos” de Jesus: 5,1-7,28; 8,1-10,42; 11,1-13,52; 13,53-18,35; 19,1-25,46. Ocupam um importante lugar na trama do livro, tendo a encerrá-los as mesmas palavras (7,28), e apresentam sucessivamente: “a justiça do Reino” (5-7), os arautos do Reino (10), os mistérios do Reino (13), os filhos do Reino (18) e a necessária vigilância na expectativa da manifestação última do Reino (24-25).

Desde o séc. II, o Evangelho de Mateus foi considerado como o “Evangelho da Igreja”, em virtude das tradições que lhe dizem respeito e da riqueza e ordenação do seu conteúdo, que o tornavam privilegiado na catequese e na liturgia. O Reino proclamado por Jesus como juízo iminente é, antes de mais nada, presença misteriosa de salvação já atuante no mundo. Na sua condição de peregrina, a Igreja é “o verdadeiro Israel” onde o discípulo é convidado à conversão e à missão, lugar de tensão ética e penitente, mas também realidade sacramental e presença de salvação. Não identificando a Igreja com o Reino do Céu, Mateus continua hoje a recordar-lhe o seu verdadeiro rosto: uma instituição necessária e uma comunidade provisória, na perspectiva do Reino de Deus.

Como os outros Evangelhos, o de Mateus refere a vida e os ensinamentos de Jesus, mas de um modo próprio, explicitando a cristologia primitiva: em Jesus de Nazaré cumprem-se as profecias; Ele é o Salvador esperado, o Emanuel, o «Deus conosco» (1,23) até à consumação da História (28,20); é o Mestre por excelência que ensina com autoridade e interpreta o que a Lei e os Profetas afirmam acerca do Reino do Céu (= Reino de Deus); é o Messias, no qual converge o passado, o presente e o futuro e que, inaugurando o Reino de Deus, investe a comunidade dos discípulos a Igreja do seu poder salvífico.

Assim, no coração deste Evangelho o discípulo descobre Cristo ressuscitado, identificado com Jesus de Nazaré, o Filho de David e o Messias esperado, vivo e presente na comunidade eclesial.

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Texto retirado do site: http://www.capuchinhos.org/biblia/index.php?

[1] si·no·ní·mi·co (.sinônimo + -ico) adjetivo Relativo à sinonímia ou aos .sinônimos. “sinonímico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/sinon%C3%ADmico [consultado em 31-03-2016].

[2] an·ti·té·ti·co adjetivo 1. Que encerra antítese. 2. Pé métrico inverso do tético. “antitético”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/antit%C3%A9tico [consultado em 31-03-2016].

[3] hi·e·rá·ti·co adjetivo 1. Relativo às coisas sagradas, à Igreja, aos sacerdotes. 2. Diz-se de uma escrita de que se serviam os sacerdotes egípcios, como abreviatura dos hieróglifos. “hierático”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/hier%C3%A1tico [consultado em 31-03-2016].

[4] pra·xe |ch| (grego prâksis, -eos, ação, transação, negócio) substantivo feminino 1. Uso estabelecido; prática habitual (ex.: nestes casos, manda a praxe que se exija documentos comprovativos da compra do imóvel). = COSTUME, ROTINA 2. Sistema ou conjunto de formalidades ou normas de conduta (ex.: o chá foi servido a meio da tarde, como é da praxe). = ETIQUETA, PRAGMÁTICA 3. [Portugal] Conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações acadêmicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica (ex.: praxe universitária). (Equivalente no português do Brasil: trote.) da praxe Que é habitual, usual (ex.: os noivos ainda não tiraram as fotografias da praxe). praxe acadêmica [Portugal] Conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações acadêmicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica (ex.: a universidade promoveu um debate sobre a praxe acadêmica). (Equivalente no português do Brasil: trote estudantil.) = PRAXE “praxe”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/praxe [consultado em 31-03-2016].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 01 do Evangelho de Mateus

As grandes linhas da vida de Jesus que encontramos em são Marcos se encontram no evangelho de são Mateus, mas o acento é posto de modo diferente. O plano em primeiro lugar é outro. Relatos e discursos se alternam: 1-4, relato: infância e início do ministério; 5-7, discurso: sermão sobre a montanha (bem-aventuranças, entrada no Reino); 8-9, relato: dez milagres mostrando a autoridade de Jesus, convite aos discípulos, 10, discurso missionário; 11-12, relato: Jesus rejeitado por “esta geração”; 13, discurso: sete parábolas sobre o Reino; 14-17, relato: Jesus reconhecido pelos discípulos; 18, discurso: a vida comunitária na Igreja; 19-22, relato: autoridade de Jesus último convite; 23-25, discurso apocalíptico: desgraças, vinda do Reino; 26-28, relato: morte e ressurreição. Devemos notar a correspondência dos relatos (natividade e vida nova, autoridade e convite, rejeição e reconhecimento), e a relação entre o primeiro e o quinto discurso, e entre o segundo e o quarto; o terceiro discurso forma o centro da composição. Como, por outro lado, Mateus reproduz muito mais completamente que Marcos o ensinamento de jesus (que ele tem em grande parte em comum com Lucas) e insiste sobre o tema do “Reino dos Céus” (3,2; 4,17+) pode-se caracterizar seu evangelho como uma instrução narrativa sobre a vinda do Reino dos Céus.

 

MEDITAÇÃO DO CAPÍTULO DIÁRIO

Evangelho de São Mateus

Este Evangelho, transmitido em grego pela Igreja, deve ter sido escrito originariamente em aramaico, a língua falada por Jesus. O texto atual reflete tradições hebraicas, mas ao mesmo tempo testemunha uma redação grega. O vocabulário e as tradições fazem pensar em crentes ligados ao ambiente judaico; apesar disso, não se pode afirmar a sua origem palestina. Geralmente pensa-se que foi escrito na Síria, talvez em Antioquia ou na Fenícia, onde viviam muitos judeus, por deixar entrever uma polêmica declarada contra o judaísmo farisaico. Atendendo a elementos internos e externos ao livro, o atual texto pode datar-se dos anos 80-90, ou seja, algum tempo após a destruição de Jerusalém.

AUTOR

Do seu autor, este livro nada diz; mas a mais antiga tradição eclesiástica atribui-o ao apóstolo Mateus, um dos Doze, identificado com Levi, cobrador de impostos (9,9-13; 10,3). Pelo conhecimento que mostra das Escrituras e das tradições judaicas, pela força interpelativa da mensagem sobre os chefes religiosos do seu povo, pelo perfil de Jesus apresentado como Mestre, o autor deste Evangelho era, com certeza, um letrado judeu tornado cristão, um mestre na arte de ensinar e de fazer compreender o mistério do Reino do Céu, o tesouro da Boa-Nova anunciada por Jesus, o Messias, Filho de Deus.

COMPOSIÇÃO LITERÁRIA

Mateus recorre a fontes comuns a Mc e Lc, mas apresenta uma narração muito diferente, quer pela amplitude dos elementos próprios, quer pela liberdade com que trata materiais comuns. O conhecimento dos processos e os modos próprios de escrever de Mateus são de grande importância para a compreensão do livro atual: compilação de palavras e de fatos, de “discursos” e de milagres; recurso a certos números (7, 3, 2); paralelismo sinonímico[1] e antitético[2]; estilo hierático[3] e catequético; citações da Escritura etc.

DIVISÃO E CONTEÚDO

Apesar dos característicos agrupamentos de narrações, não é fácil determinar o plano ou estabelecer as grandes divisões do livro. Dos tipos de distribuição propostos pelos críticos, podemos referir três:

  1. Segundo o plano geográfico: o ministério de Jesus na Galileia (4,12b-13,58), a sua atividade nas regiões limítrofes da Galileia e a caminho de Jerusalém (14,1-20,34), ensinamentos, Paixão, Morte e Ressurreição em Jerusalém (21,1-28,20).
  2. Segundo os cinco “discursos”, subordinando a estes as outras narrações: resulta daí um destaque para a dimensão doutrinal e histórica da existência cristã.
  3. Segundo o objetivo de referir o drama da existência de Jesus: Mateus apresenta o Messias em quem o povo judeu recusa acreditar (3,1-13,58) e que, percorrendo o caminho da cruz, chega à glória da Ressurreição (14-28).

Aqui, limitamo-nos a destacar:

  1. Evangelho da Infância de Jesus(1,1-2,23);
  2. Anúncio do Reino do Céu(3,1-25,46);
  • Paixão e Ressurreição de Jesus(26,1-28,20).

TEOLOGIA

Escrevendo entre judeus e para judeus, Mateus procura mostrar como na pessoa e na obra de Jesus se cumpriram as Escrituras, que falavam profeticamente da vinda do Messias. A partir do exemplo do Senhor, reflete a praxe[4] eclesial de explicar o mistério messiânico mediante o recurso aos textos da Escritura e de interpretar a Escritura à luz de Cristo. Esta característica marcante contribui para compreender o significado do cumprimento da Lei e dos Profetas: Cristo realiza as Escrituras, não só cumprindo o que elas anunciam, mas aperfeiçoando o que elas significam (5,17-20). Assim, os textos da Escritura neste Evangelho confirmam a fidelidade aos desígnios divinos e, simultaneamente, a novidade da Aliança em Cristo.

Nele ressaltam cinco blocos de palavras ou “discursos” de Jesus: 5,1-7,28; 8,1-10,42; 11,1-13,52; 13,53-18,35; 19,1-25,46. Ocupam um importante lugar na trama do livro, tendo a encerrá-los as mesmas palavras (7,28), e apresentam sucessivamente: “a justiça do Reino” (5-7), os arautos do Reino (10), os mistérios do Reino (13), os filhos do Reino (18) e a necessária vigilância na expectativa da manifestação última do Reino (24-25).

Desde o séc. II, o Evangelho de Mateus foi considerado como o “Evangelho da Igreja”, em virtude das tradições que lhe dizem respeito e da riqueza e ordenação do seu conteúdo, que o tornavam privilegiado na catequese e na liturgia. O Reino proclamado por Jesus como juízo iminente é, antes de mais nada, presença misteriosa de salvação já atuante no mundo. Na sua condição de peregrina, a Igreja é “o verdadeiro Israel” onde o discípulo é convidado à conversão e à missão, lugar de tensão ética e penitente, mas também realidade sacramental e presença de salvação. Não identificando a Igreja com o Reino do Céu, Mateus continua hoje a recordar-lhe o seu verdadeiro rosto: uma instituição necessária e uma comunidade provisória, na perspectiva do Reino de Deus.

Como os outros Evangelhos, o de Mateus refere a vida e os ensinamentos de Jesus, mas de um modo próprio, explicitando a cristologia primitiva: em Jesus de Nazaré cumprem-se as profecias; Ele é o Salvador esperado, o Emanuel, o «Deus conosco» (1,23) até à consumação da História (28,20); é o Mestre por excelência que ensina com autoridade e interpreta o que a Lei e os Profetas afirmam acerca do Reino do Céu (= Reino de Deus); é o Messias, no qual converge o passado, o presente e o futuro e que, inaugurando o Reino de Deus, investe a comunidade dos discípulos a Igreja do seu poder salvífico.

Assim, no coração deste Evangelho o discípulo descobre Cristo ressuscitado, identificado com Jesus de Nazaré, o Filho de David e o Messias esperado, vivo e presente na comunidade eclesial.

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Texto retirado do site: http://www.capuchinhos.org/biblia/index.php?

[1] si·no·ní·mi·co (.sinônimo + -ico) adjetivo Relativo à sinonímia ou aos .sinônimos. “sinonímico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/sinon%C3%ADmico [consultado em 31-03-2016].

[2] an·ti·té·ti·co adjetivo 1. Que encerra antítese. 2. Pé métrico inverso do tético. “antitético”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/antit%C3%A9tico [consultado em 31-03-2016].

[3] hi·e·rá·ti·co adjetivo 1. Relativo às coisas sagradas, à Igreja, aos sacerdotes. 2. Diz-se de uma escrita de que se serviam os sacerdotes egípcios, como abreviatura dos hieróglifos. “hierático”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/hier%C3%A1tico [consultado em 31-03-2016].

[4] pra·xe |ch| (grego prâksis, -eos, ação, transação, negócio) substantivo feminino 1. Uso estabelecido; prática habitual (ex.: nestes casos, manda a praxe que se exija documentos comprovativos da compra do imóvel). = COSTUME, ROTINA 2. Sistema ou conjunto de formalidades ou normas de conduta (ex.: o chá foi servido a meio da tarde, como é da praxe). = ETIQUETA, PRAGMÁTICA 3. [Portugal] Conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações acadêmicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica (ex.: praxe universitária). (Equivalente no português do Brasil: trote.) da praxe Que é habitual, usual (ex.: os noivos ainda não tiraram as fotografias da praxe). praxe acadêmica [Portugal] Conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações acadêmicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica (ex.: a universidade promoveu um debate sobre a praxe acadêmica). (Equivalente no português do Brasil: trote estudantil.) = PRAXE “praxe”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/praxe [consultado em 31-03-2016].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 02 do Evangelho de Mateus

Entendo o Capítulo: A nossa meditação de hoje tem por pano de fundo o 2º Capítulo do Evangelho de Mateus. O seu conteúdo é o seguinte: a adoração dos Magos; a fuga para o Egito; o massacre dos inocentes; e Nazaré, lugar seguro para o crescimento do Messias. No quadro dos magos há uma infinidade de ensinamentos, dos quais o mais importante, e que eles necessitam aprender: a Sagrada Escritura para encontrar a Deus, pois o simples sentimento religioso não basta. Já a fuga para o Egito rememora o chamado para a fundação de um novo povo de Deus e que Jesus é o princípio da continuidade entre a antiga e a nova aliança. O massacre dos inocentes nos faz ver que se o povo de Deus não permanecer fiel, pode tornar-se um povo pagão e realizar barbaridades tais quais fez o Egito. Sua residência em Nazaré reafirma o princípio de posse da terra prometida, pois Jesus nela nasce, cresce, trabalha e morre.

 

A visita dos magos[1]1Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes[2], eis que vieram magos do Oriente[3] a Jerusalém, 2perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela no seu surgir[4] e viemos homenageá-lo”. 3Ouvindo isso, o rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém. 4E, convocando todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo[5], procurou saber deles onde havia de nascer o Cristo. 5Eles responderam: “Em Belém da Judeia, pois é isto que foi escrito pelo profeta: 6E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”.

7Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. 8E, enviando-os a Belém, disse-lhes: “Ide e procurai obter informações exatas a respeito do menino e, ao encontrá-lo, avisai-me, para que também eu vá homenageá-lo”. 9A essas palavras do rei, eles partiram. E eis que a estrela que tinham visto no céu surgir ia à frente deles até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino[6]. 10Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente. 11Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra[7]. 12Avisados em sonho que não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho para a sua região.

Fuga para o Egito e massacre dos inocentes 13Após sua partida, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes procurará o menino para o matar”. 14Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: “Do Egito chamei o meu filho”[8].

16Então Herodes, percebendo que fora enganado pelos magos, ficou enfurecido e mandou matar, em Belém e em todo seu território, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo de que havia se certificado com os magos.[9] 17Então cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias[10]: 18Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação: Raquel chora seus filhos; e não quer consolação, porque eles já não existem.

Retorno do Egito e estabelecimento em Nazaré 19Quando Herodes morreu, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José, no Egito, 20e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, pois os que buscavam tirar a vida ao menino já morreram”. 21Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e entrou na terra de Israel. 22Mas, ouvindo que Arquelau[11] era rei da Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido um aviso em sonho, partiu para a região da Galileia[12] 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazoreu[13].

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Medito o Capítulo: Escolhi o versículo 13 para meditar, simplesmente porque ele sintetiza a missão de salvador vivida por Jesus Cristo, sendo marcada desde o seu início pelo sofrimento no seio de seu próprio povo. Os magos o adoram, os egípcios o acolhem e o povo de Deus o rejeita com sofrimentos, até depois de sua morte. A esta experiência o Senhor chamou de cruz. Afirmou que nenhum de seus discípulos poderia segui-lo, sem que antes tomasse a sua própria cruz. Levar a cruz assume, desta forma, outro significado do que aquele popularmente conhecido, de dor ou sofrimento. Carregar a cruz significa suportar a contradição feita pelas pessoas, muitas vezes religiosas, por desejar conformar a nossa vida à vida de Jesus Cristo.

Vivo o Capítulo: Da palavra para a vida, o Capítulo de hoje nos ensina duas virtudes cristãs, muito esquecidas pelos cristãos de nossos tempos: a paciência e a perseverança. Nossa cultura está fundada na mudança. “Tudo muda ou tudo flui”, como dizia o filósofo Heráclito[14]. E aquilo que não muda, está fadado a cair no ostracismo. Todos nos sentimos inquietados, por não poder acompanhar as mudanças desta época de transformações. Isso tem o seu lado positivo, bem como o negativo. Pois há valores que não se modificam, mesmo com a mudança de uma época. Para conservá-los, requer das pessoas renúncias, sofrimentos e dores. Por isso que na cultura atual, mais do que nunca as virtudes da perseverança e da paciência são urgentes e imprescindíveis para o seguimento de Jesus Cristo. É preciso perseverar na vivência dos valores cristãos e ter paciência com a demora exigida, para que eles sejam vividos por aqueles que vivem uma religião de cerimônia. Viver a cruz significa viver, trabalhar e morrer, com todas as dimensões que isso comporta, pela salvação da humanidade.

 

 

[1] Depois de ter apresentado no cap. 1 a pessoa de Jesus, filho de Davi e filho de Deus, Mt, no Cap. 2, define a sua missão como salvação oferecida aos pagãos, cujos sábios ele atrai para a sua luz (vv. 1-12), e como sofrimento no seio do seu próprio povo, cujas experiências dolorosas revive: o primeiro exílio no Egito (13-15), o segundo cativeiro (16-18), a volta humilde do pequeno “Resto”, naçur (19-23; cf. v. 23+). Essas narrativas de caráter hagádico (*) ensinam, por meio de acontecimentos, aquilo que Lc 2,30-34 ensina pelas palavras proféticas de Simeão (cf. Lc 2,34+).

(*) hagádico: O Talmude (**) contém um material vasto, que aborda assuntos de naturezas muito diversas. Tradicionalmente, as declarações talmúdicas podem ser classificadas em duas categorias amplas, as declarações haláquicas e hagádicas. As declarações haláquicas são aquelas que se relacionam diretamente com as questões da prática e lei judaica (Halachá), enquanto as declarações agádicas são aquelas que não tem qualquer conteúdo legal, sendo de natureza mais exegética, homilética, ética ou histórica. https://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude#Halach%C3%A1_e_Hagad%C3%A1 [consultado em 12-04-2020].

(**) Talmude: O Talmude (em hebraico: תַּלְמוּד, transl. Talmud significa estudo) é uma coletânea de livros sagrados dos judeus, um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo. É um texto central para o judaísmo rabínico. https://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude#Halach%C3%A1_e_Hagad%C3%A1 [consultado em 12-04-2020].

[2] Por volta do ano 5 ou 4 a.C. Por um erro antigo, a era cristã começa alguns anos depois do nascimento de Cristo (cf. Lc 2,2+; 3,1+). Herodes reinou de 37 a 4 a.C. O seu reino acabou por abranger a Judeia, a Idumeia, a Samaria, a Galileia, a Pereia e outras regiões para o lado de Aurã.

[3] Semelhante narrativa exige essa designação vaga e muito geral. A região por excelência dos sábios astrólogos, como são os “magos”. Pode-se pensar na Pérsia, na Babilônia ou na Arábia do Sul.

[4] Outra tradução (Vulg.): “no Oriente”. O mesmo no v. 9.

[5] Também chamados “doutores da Lei” (Lc 5,17; At 5,34), ou ainda “legistas” (Lc 7,30; 10,25 etc.), os escribas tinham a função de intérpretes das Escrituras, particularmente da Lei mosaica, para tirar daí as regras de comportamento da vida judaica (cf. Esd 7,6+.11; Eclo 39,2+). Esse papel lhes assegurava prestígio e influência no seio do povo. Eram recrutados sobretudo, embora não exclusivamente, dentre os fariseus (3,7+). Juntamente com os chefes dos sacerdotes e com os anciãos, constituíam o Grande Sinédrio.

[6] Evidentemente, o evangelista pensa num astro miraculoso, para o qual é inútil buscar uma explicação natural.

[7] Riquezas e perfumes da Arábia (Jr 6,20; Ez 27,22). Para os Padres da Igreja simbolizam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (a mirra) de Cristo. A adoração dos magos era o cumprimento dos oráculos messiânicos a respeito da homenagem que as nações prestariam ao Deus de Israel (Nm 24,17; Is 49,23; 60,5s; Sl 72,10-15). [Bíblia de Jerusalém, 4ª impressão 2006, nota de rodapé da página 1705]

[8] Israel, o “filho”, do texto profético, era, pois, uma figura do Messias.

[9] Essa narrativa tem um paralelo anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições rabínicas: segundo esta, quando o nascimento da criança foi anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos, o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas.

[10] No sentido primitivo do texto, trata-se dos homens de Efraim, Manassés e Benjamim, chacinados ou exilados pelos assírios, os quais Raquel, sua avó, chora. A aplicação feita aqui por Mt poderia ter sido sugerida por uma tradição que localizava o túmulo de Raquel no território de Belém (Gn 35,19s).

[11] Arquelau, filho de Herodes e de Maltace (como Herodes Antipas), foi etnarca da Judeia de 4 a.C. a 6 d.C.

[12] Governada por Herodes Antipas (cf. Lc 3,1+).

[13] “Nazoreu” (nazôraios forma usada por Mt, Jo e At) e o seu sinônimo “nazareno” (nazarênos, forma usa por Mc; Lc tem as duas formas) são duas transcrições correntes do mesmo adjetivo aramaico (nasraya), derivado do nome da cidade de Nazaré (Nasrath). Aplicado primeiro a Jesus – indicando sua origem (26,69.71) – e depois aos seus sequazes (At 24,5), esse termo ficou como designativo dos discípulos de Jesus no mundo semítico, enquanto no mundo greco-romano prevaleceu o nome “cristão” (At 11,26). – Não se percebe claramente a que oráculos proféticos Mt alude aqui; pode-se pensar em nazir (Jz 13,5.7) ou em neçer, i.é.; “rebento” (Is 11,1), ou de preferência em naçar, “guardar” (Is 42,6; 49,8), de onde naçur = o Resto.

[14] Heraclito ou Heráclito de Éfeso (Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος, Éfeso, aproximadamente 500 a.C. – 450 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o “Pai da dialética”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%A1clito [consultado em 07-01-2020].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 03 do Evangelho de Mateus

Entendo o Capítulo: Com o terceiro Capítulo, iniciamos o segundo ato do drama da vida de Cristo: a promulgação do Reino dos Céus (vv. 3-8). Iniciando a parte narrativa (vv. 3-4), apresenta o precursor: João Batista e o batismo de Jesus. Nestes dois episódios, as duas figuras – João Batista e Jesus Cristo – são densas de conteúdo para a fé cristã. Os fatos narrados trazem dados significativos para a vida cristã. Na primeira cena, temos João Batista, com sua vida muito próxima do profeta Elias e a sua pregação. Na pregação notam-se dois assuntos: a necessidade de conversão e a subordinação de João a Jesus. No segundo tema, o batismo de Jesus, fica patente que o propósito principal do autor é deixar claro que desde o início de seu ministério, Jesus Cristo é reconhecido como Filho de Deus. Logo, um novo tempo sob o poder de Deus havia iniciado e sua finalidade é a concretização do plano de Deus.

 

  1. A promulgação do Reino dos Céus
  2. PARTE NARRATIVA

3 Pregação de João Batista 1Naqueles dias[1], apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia[2] 2e dizendo: “Arrependei-vos[3], por que o Reino dos Céus[4] está próximo”. 3Pois foi dele que falou o profeta Isaías, ao dizer: Voz do que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas.

4João usava uma roupa de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins. Seu alimento consistia em gafanhotos e mel silvestre. 5Então vieram até ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a região vizinha ao Jordão. 6E eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os pecados[5]. 7Como visse muitos fariseus[6] e saduceus[7] que vinham ao batismo, disse-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir[8]? 8Produzi, então, fruto digno de arrependimento 9e não penseis que basta dizer: ‘Temos por pai a Abraão’. Pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo. 11Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo[9]. 12A pá está na sua mão: limpará sua eira e recolherá seu trigo no celeiro: mas, quanto à palha, a queimará num fogo inextinguível[10]”.

Batismo de Jesus 13Nesse tempo, veio Jesus da Galileia ao Jordão até João, a fim de ser batizado por ele. 14Mas João tentava dissuadi-lo, dizendo: “Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?” 15Jesus, porém, respondeu-lhe: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça[11]”. E João consentiu.[12]

16Batizado, Jesus subiu imediatamente da água e logo os céus se abriram[13] e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele[14]. 17Ao mesmo tempo, uma voz vinda dos céus dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo[15]”.

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Medito o Capítulo: Dentre tantos ensinamentos contidos neste Capítulo, ficaremos com o do versículo dois, sobre a conversão. O próprio Jesus também lançou mão dessa figura no início de sua ação missionária. A palavra conversão significa mudança de mentalidade interna. Na conversão realizam-se dois movimentos: um de aproximação e outro de afastamento. Nos aproximamos de Deus por meio da obediência aos seus mandamentos, pela confiança nele, renunciando à ajuda terrestre e humana e do próximo pela prática da caridade. Nela, nos afasta do pecado e de todo mal. As exigências de conversão são feitas em virtude da proximidade do Reino de Deus ou de seu começo. Logo, a conversão consiste numa exigência para participar do Reino de Deus.

Vivo o Capítulo: Da meditação para a vida, quando a atitude exigida é conversão, devemos ter consciência de que ela é radical, ou seja: acontecida uma só vez. Somos convidados a voltar o nosso coração para Deus à maneira das crianças, que imitam os seus pais, deixando-se guiar inocentemente e despreocupadamente. Significa que não confiamos mais em nós mesmos, mas em Deus; que não olhamos para nós mesmos, mas para Jesus Cristo; e aprendemos com ele a docilidade ao Pai. A leitura de hoje nos questiona sobre nossa docilidade em viver radicalmente as consequências de Jesus Cristo, assim como o fazemos sem murmurações ou sem vontade de voltar atrás.

 

 

[1] Expressão estereotipada, que tem simples valor de transição.

[2] Região montanhosa e deserta que se estende entre a cadeia central da Palestina e a depressão do Jordão e do mar Morto.

[3] A metanoia (*), etm., mudança de sentimentos, designa a renúncia ao pecado, o “arrependimento”. Esse pesar, que se refere ao passado, vem normalmente acompanhado de uma “conversão” (verbo grego epistrephein), pela qual o homem se volta para Deus e empreende uma vida nova. Esses dois aspectos complementares de um mesmo impulso da alma não se distinguem sempre no vocabulário (cf. At 2,38+; 3,19+). Arrependimento e conversão constituem a condição necessária para receber a salvação trazida pelo Reino de Deus. O apelo ao arrependimento, proclamado por João Batista (cf. ainda At 13,24; 19,4), foi retomado por Jesus (Mt 4,17p; Lc 5,32; 13,3.5), pelos seus discípulos (Mc 6,12; Lc 24,47) e por Paulo (At 20,21; 26,20).

(*) Metanoia. me·ta·noi·a (grego metánoia, -as) substantivo feminino 1. Mudança no pensamento ou no sentimento. 2. Arrependimento ou penitência. “metanoia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/metanoia [consultado em 14-04-2020].

[4] O mesmo que “Reino de Deus” (cf. 4,17+): a expressão é própria de Mt; em sua origem está a preocupação judaica de substituir o Nome terrível por uma metáfora.

[5] O rito da imersão, símbolo de purificação e de renovação, era conhecido das religiões antigas e do judaísmo (batismo dos prosélitos e dos essênios). Embora se inspirasse nesses precedentes, o batismo de João distinguia-se por três traços importantes: tinha um objetivo já não ritual, porém moral (3,2.6.8.11; Lc 3,10-14); não se repetia, o que lhe dava o caráter de iniciação; finalmente, tinha caráter escatológico, introduzindo o batizado no grupo dos que professava a espera diligente do Messias, que estava por vir, e que constituíam, por antecipação, sua comunidade (3,2.11; Jo 1,19-34). Sua eficácia era real, mas não sacramental, pois dependia do julgamento de Deus, que ainda estava por vir na pessoa do Messias, cujo fogo havia de purificar ou de consumir, segundo a atitude de acolhimento ou de resistência de cada um, e que seria o único a batizar “com o Espírito Santo” (3,7.10-12; Jo 1,33+). O batismo de João foi também praticado pelos discípulos de Cristo (Jo 4,1-2) até o dia em que foi absorvido no novo rito instituído por Cristo ressuscitado (Mt 28,19; At 1,5+; Rm 6,4+).

[6] Seita judaica constituída por observantes zelosos da Lei, muito apegados à tradição oral dos seus doutores, o que levava a uma casuística cheia da excessos e afetação. A liberdade de Jesus no que dizia respeito à Lei e a sua convivência com os pecadores não podiam deixar de despertar entre eles a oposição de que os evangelhos, sobretudo Mt, conservaram muitos vestígios (cf. Mt 9,11p; 12,2p.14p.24; 15,1p; 16,1p; 19,3p; 21,45; 22,15p.34.41; 23p; Lc 5,21; 6,7; 15,2; 16,14s; 18,10s; Jo 7,32; 8,13; 9,13s; 11,47s). A polêmica lançada por Mt contra os sucessores dos fariseus influenciou muito negativamente o julgamento contra eles, Jesus teve, contudo, relações amistosas com certos fariseus (Lc 7,36+; Jo 3,1+), e os discípulos encontraram neles aliados contra os saduceus (At 23,6-10). Não se pode negar o seu zelo (cf. Rm 10,2) e mesmo a sua integridade (At 5,34s). O próprio Paulo se gloriava do seu passado como fariseu (At 23,6; 26,5; Fl 3,5).

[7] Estes, em contraposição aos fariseus, rejeitavam toda tradição, exceto a lei escrita (cf. At 23,8+). Menos piedosos do que aqueles e mais preocupados com a política, recrutavam-se principalmente dentre as grandes famílias sacerdotais (cf. 21,23). O partido dos sumos sacerdotes era composto sobretudo de saduceus; também eles entraram em choque com Jesus (Mt 16,1.6; 22,23p) e com os seus discípulos (At 4,1+; 5,17).

[8] A ira (Nm 11,1+) do Dia de Iahweh (Am 5,18+), que devia inaugurar a era messiânica (cf. Rm 1,18).

[9] O fogo, instrumento de purificação menos material e mais eficaz do que a água, simboliza já no AT (cf. Is 1,25; Zc 13,9; Ml 3,2.3; Eclo 2,5 etc.) a intervenção soberana de Deus e do seu Espírito, que purifica as consciências.

[10] O fogo da geena (18,9+), que consome para sempre o que não pode ser purificado (Is 66,24; Jt 16,17; Eclo 7,17; Sf 1,18; Sl 21,10 etc.).

[11] A igreja nascente depressa se convenceu de que Jesus era sem pecado (Jo 8,46; Hb 4,15). Queria explicar por que Jesus havia se submetido ao batismo de João (em que Jesus reconhece uma etapa querida por Deus, cf. Lc 7,29-30, preparação última da era messiânica, cf. Mt 3,6+). De forma concisa, Mt 3,15 diz: a) que, por seu batismo, Jesus satisfazia a justiça salvífica de Deus que preside o plano da salvação, b) que ele próprio era justo agindo assim, c) que era preciso que ele se identificasse com os pecadores (cf. 2Cor 5,21), d) que ele preparasse assim o futuro batismo dos cristãos (28,19), apresentando-se como modelo deles (notar o plural “nós”).

[12] Aqui uma lenda apócrifa infiltrou-se em dois mss da Vet. Lat.: “Enquanto ele era batizado, uma luz intensa se espalhou fora da água, a ponto de encher de medo todos os presentes”.

[13] Ad,: “para ele”, isto é, aos seus olhos.

[14] O Espírito que pairava sobre as águas da primeira criação (Gn 1,2) aparece aqui no prelúdio da nova criação. Por um lado, ele unge Jesus para a sua missão messiânica (At 10,38), que de ora em diante há de dirigir (Mt 4,1p; Lc 4,14.18; 10,21; Mt 12,18.28); por outro lado, como o entenderam os Padres da Igreja, santifica a água e prepara o batismo cristão (cf. At 1,5+).

[15] Essa visão interpretativa designa, antes de tudo, Jesus como o verdadeiro Servo anunciado por Isaías. Entretanto, o termo “Filho”, que acaba por substituir o termo “Servo” (graças ao duplo sentido da palavra grega pais), salienta o caráter messiânico e propriamente filial da sua relação com o Pai (cf. 4,3+).