Obra dos Filhos da Ressurreição

Meditação do Capítulo Diário

Agendinha Bíblica 2026, acesse AQUI

Capítulo 16 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. O Capítulo meditado consiste numa aula magna de Jesus Cristo aos discípulos. O Senhor ensina sobre o que é necessário para ganhar o Reino do Céu, e o faz, iniciando com a parábola do administrador prudente; apresenta os critérios para o discernimento; e termina com outra parábola sobre o mau rico e o pobre Lázaro. Dentro do contexto da parte por nós meditada, o Senhor instrui os seus discípulos para que possam fugir das armadilhas existentes, ou melhor, colocadas pelo demônio em seu seguimento. O primeiro ensinamento é a respeito do perigo da apatia[1], o segundo será o discernimento sobre o apego aos bens materiais e, finalmente, o fim dos bens materiais. A caminhada de uma pessoa desanimada com a conquista do Reino de Deus é muito nítida. Ela começa pelo apego ao dinheiro, segue pela via da aparência e termina na objetivação da pessoa humana.

 

16[2] O administrador infiel 1Dizia ainda a seus discípulos: “Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por dissipar os seus bens. 2Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isso que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não podes ser administrador!’ 3O administrador então refletiu: ‘Que farei, uma vez que meu senhor me retire a administração? Cavar? Não tenho força. Mendigar? Tenho vergonha… 4Já sei o que farei para que, uma vez afastado da administração, tenha quem me receba na própria casa’.

5Convocou então os devedores do seu senhor um a um, e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’ 6‘Cem barris de óleo’, respondeu ele. Disse então: ‘Toma tua conta, senta e escreve depressa cinquenta’. 7Depois, disse a outro: ‘E tu, quanto deves?’ — ‘Cem medidas de trigo’, respondeu. Ele disse: ‘Toma tua conta e escreve oitenta’.

8E o senhor louvou o administrador desonesto por ter agido com prudência[3]. Pois os filhos deste século são mais prudentes com sua geração do que os filhos da luz.

O bom emprego do dinheiro 9E eu vos digo: fazei amigos com o Dinheiro da iniquidade[4], a fim de que, no dia em que faltar o dinheiro, estes vos recebam nas tendas eternas. 10Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo[5] no mínimo, é iníquo também no muito. 11Portanto, se não fostes fiéis quanto ao Dinheiro iníquo, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12Se não fostes fiéis em relação ao bem alheio[6], quem vos dará o vosso[7]?

13Ninguém pode servir a dois senhores: com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”.

Contra os fariseus, amigos do dinheiro 14Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam dele. 15Jesus lhes disse: “Vós sois os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus.

Assalto ao Reino 16A Lei e os Profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus, e todos se esforçam para entrar nele, com violência.

Perenidade da Lei 17É mais fácil passar céu e terra do que uma só vírgula cair da lei.

Indissolubilidade do matrimônio 18Todo aquele que repudiar sua mulher e desposar outra comete adultério, e quem desposar uma repudiada por seu marido comete adultério.

O homem rico e o pobre Lázaro[8]19Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e cada dia se banqueteava com requinte. 20Um pobre, chamado Lázaro, jazia à sua porta, coberto de úlceras. 21Desejava saciar-se do que caía da mesa do rico…[9] E até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. 22Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão[10]. Morreu também o rico e foi sepultado[11].

23Na mansão dos mortos, em meio a tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro em seu seio. 24Então exclamou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou atormentado nesta chama’. 25Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante tua vida, e Lázaro por sua vez os males; agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26E além do mais, entre nós e vós existe um grande abismo[12], a fim de que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o possam, nem tampouco atravessem de lá até nós’.

27Ele replicou: ‘Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até a casa de meu pai, 28pois tenho cinco irmãos; que leve a eles seu testemunho, para que não venham eles também para este lugar de tormento’.

29Abraão, porém, respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos’. 30Disse ele: ‘Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se arrependerão’. 31Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão’”.

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Por isso, o Senhor apresenta aos seus discípulos os critérios para discernirem se perseveram no caminho certo, ou se estão sendo arrastados interiormente para longe do Reino de Deus. O primeiro critério é o da fidelidade no pouco. Às vezes, queremos fazer grandes obras para Deus e nos esquecemos de que toda grande obra começa com pequenos gestos e, por isso, acabamos não fazendo nada. O segundo critério é o do olhar que importa: os dos homens ou o de Deus? Muitas vezes nos encontramos preocupados com o olhar do outro, o que ele vai pensar ou vai dizer, e nem percebemos que o olhar que decide é o olhar de Deus. E o último critério consiste em fazer violência para entrar no Reino de Deus. Muitas vezes vemos pessoas que querem ser agradadas para entrar no Reino de Deus, ficam à espera do bombom de Deus. Enquanto o Reino exige violência para conquistá-lo. Somos violentos apenas por aquilo que nos é vital e nos encontramos na iminência de perdê-lo. Quantas vezes, no seguimento de Jesus Cristo, vamos caminhando de uma maneira indiferente, sem senso do sagrado ou até mesmo com uma ligeira desconfiança de que tudo poderá ser descartado?

Vivo o Capítulo. O tema do Capítulo requer de seu leitor uma avaliação de seu seguimento de Jesus Cristo. Isso se faz com uma pergunta sobre os critérios apresentados por Jesus Cristo para segui-lo: Estou vivendo esses critérios? Ou, ainda, penso serem eles muito exagerados e exigentes e não quero colocar-me esta questão? Qual o uso que faço do dinheiro? Qual o lugar que o dinheiro ocupa em minha vida? Os bens que possuo estão a serviço da vida ou apenas a serviço de meus prazeres? Ao adquiri-los, penso muito mais em saciar um prazer ou tenho uma real necessidade? Recordo-me de um filme infantil[13] onde dois personagens cantam: O necessário, somente, o necessário, pois o extraordinário é demais… Contudo, em nosso caso o necessário é Deus. Imagino que neste dia devemos fazer uma avaliação de nossas necessidades, para que possamos ser prudentes em nosso agir e não nos deixar levar pela propaganda e nem mesmo pela ilusão do poder, propiciados pelo consumo. Penso um pouco na forma com a qual o Senhor termina o Capítulo: ter bens para ajudar e não para guardar para si mesmo.

 

 

[1] a·pa·ti·a (grego apátheia, insensibilidade, apatia) substantivo feminino 1. Ausência de interesse ou de resposta a um estímulo. = ATARAXIA, INDIFERENÇA 2. Falta de energia ou de ânimo. = INDOLÊNCIA, LASSIDÃO, MOLEZA Antônimo Geral: ENTREGA, ENTUSIASMO, PAIXÃO “apatia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/apatia [consultado em 05-03-2020].

[2] Esse capítulo reúne duas parábolas e vários logia de Jesus concernentes ao bom e ao mau uso do dinheiro. Os vv. 16=18, que se referem a três assuntos diferentes, estorvam a composição desse capítulo.

[3] Segundo o costume tolerado na Palestina naquela época, o administrador tinha o direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor. E, como não era remunerado, ele se indenizava aumentando, no recibo, a importância dos empréstimos. Assim, na hora do reembolso, ficava com a diferença como um acréscimo que era o seu juro. No presente caso, não havia emprestado, na realidade, senão cinquenta barris de óleo e oitenta medidas de trigo. Pondo no recibo a quantia real, privava-se apenas do benefício – para dizer a verdade, usurário – que havia subtraído. Sua “desonestidade” (v. 8) não consiste, pois, na redução dos recibos – o que não é senão um sacrifício de seus interesses imediatos, manobra hábil que o senhor pode louvar – mas antes de malversações anteriores que motivaram a sua demissão (v. 1). [Bíblia de Jerusalém, Ed. 2002, em 13-02-2019].

[4] O vosso, evidentemente. O dinheiro é chamado “da iniquidade” não só porque aquele que o possui o adquiriu mal, mas ainda, de maneira mais geral, porque na origem de quase todas as fortunas há alguma desonestidade.

[5] i·ní·quo (latim iniquus, -a, -um, desigual, acidentado, desfavorável) adjetivo 1. Contrário à equidade. = INJUSTO ≠ JUSTO 2. Mal julgado. 3. Que tem mau caráter ou revela crueldade. = MALÉVOLO, MALVADO, PERVERSO ≠ BENÉVOLO “iníquo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/in%C3%ADquo [consultado em 05-03-2020].

[6] Quer dizer, um bem exterior ao homem: a riqueza.

[7] “o vosso”; var.: “o nosso”. – Trata-se de bens espirituais que podem pertencer ao homem.

[8] História-parábola, sem qualquer nexo histórico.

[9] Ad.: “mas ninguém lho dava” (cf. 15,16).

[10] Expressão judaica que corresponde à antiga locução bíblica “reunir-se a seus pais”, isto é, aos patriarcas (Jz 2,10; cf. Gn 15,15; 47,30; Dt 31,16). A imagem exprime intimamente (Jo 1,18) e proximidade com Abraão no banquete messiânico (cf. Jo 13,23; Mt 8,11+).

[11] Vulg.: “foi sepultado no inferno”.

[12] O abismo simboliza a impossibilidade, tanto para os eleitos como para os condenados, de modificar o próprio destino.

[13] Mogli, o menino lobo (Disney®)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 17 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. Com palavras e exemplo, Jesus Cristo continua a ensinar os seus discípulos sobre a vida no Reino de Deus. Neste Capítulo veremos quatro ensinamentos básicos: os escândalos; o servo inútil; a gratidão; e a vinda do Filho do Homem. Nesses quatro episódios encontramos tantos ensinamentos, que nem temos tempo para esclarecê-los. O primeiro deles é sobre os escândalos. Jesus Cristo diz que são inevitáveis. Contudo, afirma que para diminuir o escândalo devemos estar empenhados em corrigir aqueles que erram. Esta disposição é decorrente de uma fé robusta, que sustenta a nossa convicção de que as pessoas são passíveis de mudanças. Não podemos esquecer que somos pecadores arrependidos e perdoados, mas sempre pecadores. O segundo ensinamento consiste na humildade em servir. Muitas vezes assistimos pessoas que servindo a Igreja se afastam, porque não foram reconhecidas. No fundo, falta a consciência de que ser discípulo de Jesus Cristo não é privilégio, mas, acima de tudo, uma graça. O terceiro ensinamento consiste em ser grato. Tudo que recebemos de graça deve gerar em nosso coração a gratidão, que por sua vez gera a gratuidade. Não é possível estar ao lado de Jesus Cristo e não descobrir que tudo é graça. Finalmente, o último ensinamento consiste na vinda do Filho do Homem. Jesus Cristo deixa claro que ninguém sabe quando e como ele voltará. Por isso, devemos estar atentos.

 

17 O escândalo 1Depois, disse a seus discípulos: “É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causar! 2Melhor lhe fora ser lançado ao mar com uma pedra de moinho enfiada no pescoço do que escandalizar um só destes pequeninos. 3Acautelai-vos!

Correção fraterna[1] — Se teu irmão pecar, repreende-o, e se ele se arrepender, perdoa-lhe. 4E caso ele peque contra ti sete vezes por dia e sete vezes retornar, dizendo ‘Estou arrependido’, tu lhe perdoarás”.

A fé do servidor[2]5Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta em nós a fé!” 6O Senhor respondeu: “Com a fé que tendes, como um grão de mostarda, se dissésseis a esta amoreira: ‘Arranca-te e replanta-te no mar’, e ela vos obedeceria[3].

Servir com humildade 7Quem de vós, tendo um servo que trabalha a terra ou guarda os animais, lhe dirá quando volta do campo: ‘Tão logo chegues, vem para a mesa’? 8Ou, ao contrário, não lhe dirá: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, até que eu tenha comido e bebido; depois, comerás e beberás por tua vez’?[4] 9Acaso se sentirá obrigado para com esse servo por ter feito o que lhe fora mandado?[5] 10Assim também vós, quando tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: Somos simples servos[6], fizemos apenas o que devíamos fazer”.

Os dez leprosos 11Como ele se encaminhasse para Jerusalém, passava através da Samaria e da Galileia[7]. 12Ao entrar num povoado, dez leprosos vieram-lhe ao encontro. Pararam à distância 13e clamaram: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” 14Vendo-os, ele lhes disse: ‘Ide mostrar-vos aos sacerdotes”. E aconteceu que, enquanto iam, ficaram purificados. 15Um dentre eles, vendo-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, 16e lançou-se aos pés de Jesus com o rosto por terra, agradecendo-lhe. Pois bem, era samaritano. 17Tomando a palavra, Jesus lhe disse: “Os dez não ficaram purificados? Onde estão os outros nove? 18Não houve, acaso, quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?” 19Em seguida, disse-lhe: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”.

A vinda do Reino de Deus 20Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: “A vinda do Reino de Deus não é observável. 21Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós[8]”.

O Dia do Filho do Homem[9]22Disse ainda a seus discípulos: “Dias virão em que desejareis ver apenas um dos dias do Filho do Homem[10], mas não o vereis. 23E vos dirão: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’ — não saiais, não sigais. 24De fato, como o relâmpago relampeja de um ponto do céu e fulgura até o outro, assim acontecerá com o Filho do Homem em seu Dia. 25Mas será preciso primeiro que ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.

26Como aconteceu nos dias de Noé, assim também ocorrerá nos dias do Filho do Homem[11]. 27Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento até o dia em que Noé entrou na arca; então veio o dilúvio, que os fez perecer a todos. 28Do mesmo modo como aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam, 29mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, Deus fez chover do céu fogo e enxofre, eliminando a todos. 30Será desse modo o Dia em que o Filho do Homem for revelado.

31Naquele Dia, quem estiver no terraço e tiver utensílios em casa, não desça para pegá-los; igualmente quem estiver no campo, não volte atrás. 32Lembrai-vos da mulher de Ló. 33Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la. 34Digo-vos, naquela noite dois estarão num leito; um será tomado e o outro deixado; 35duas mulheres estarão moendo juntas; uma será tomada e a outra deixada”. [36[12]] 37Tomando a palavra, perguntaram-lhe então: “Onde, Senhor?” Jesus lhes respondeu: “Onde estiver o corpo, aí também se reunirão os abutres”.

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Diante dos ensinamentos apresentados no Capítulo de hoje, acredito que podemos meditar sobre a necessidade de corrigir aqueles que erram. A correção se tornou algo muito difícil nos dias atuais. E isso se deve à ausência de um fim último, comum para as pessoas. Com outras palavras, o personalismo reinante faz com que cada pessoa veja a vida como sua e independente dos outros, sem necessidade de dar satisfação ao demais, o que não é verdade. O racionalismo[13], com o seu ideal de liberdade, coloca mais um ponto nesta dificuldade, quando afirma que a pessoa é livre para fazer o que quiser com a sua vida. E assim, uma enormidade de educadores se vêem tolhidos em suas ações. E, por isso, as pessoas vão sem eira e nem beira pela vida. Jesus Cristo afirma a necessidade de corrigir as pessoas para que não caiam no escândalo, para que sejam firmes na fé e para que aprendam a servir com humildade, que fará brotar na pessoa um coração humilde e manso. Por que devemos corrigir o outro? Pelo simples fato de esperarmos o reino de Deus, a vinda do Filho do Homem. Pois a expectativa do final do mundo e a consciência de um juízo final faz com que queiramos que as pessoas estejam prontas para enfrentá-lo. Por isso devemos corrigir e aceitar a correção.

Vivo o Capítulo. O texto por nós meditado propõe duas atitudes para serem trabalhadas no dia de hoje: Primeiro, ele nos chama para aceitar as correções que poderão ocorrer neste dia. A palavra de Deus nos recorda que toda correção no início é dolorida, mas que devemos lembrar que ela é para o nosso bem. Por querer nos ver bem, a pessoa nos corrige. E entre cristãos pode-se afirmar: porque querem nos ver nos céus, os nossos irmãos na fé nos corrigem. Uma outra atitude é a de corrigir. O mundo oferece tantos ensinamentos sobre o tema, mas não gostaria de entrar nos detalhes e na forma, pois são coisas que vamos aprendendo com o passar do tempo. Penso que hoje é preciso ter a coragem de corrigir. No final de seu dia você perceberá tantas atitudes que foram prejudiciais ao Reino de Deus e que você não corrigiu, não chamou a atenção. Como não dizer quantos pecados de omissão, quantos favorecimentos ao mal e pouca oportunidade ao bem. Corrigir é uma atitude daqueles que querem ver a todos nos céus. Pois corrigem ou aceitam a correção não porque gostam ou por fazê-la bem, mas pelo objetivo de suas vidas: com Jesus Cristo lá no céu.

 

 

[1] Lc parece visar a ofensa entre dois irmãos, enquanto Mt trata de falta mais geral. Lc omite o recurso à comunidade.

[2] Este conjunto segue um raciocínio a fortiori. Se, com o pouco de fé de que vos queixais, podeis obter o impensável, com muito mais razão podeis realizar vossa tarefa de simples servidores, encontrando nela toda a vossa satisfação, sem exigir garantias especiais do Mestre.

[3] Lit.: “Se tendes a fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Desenraiza-te e replanta-te no mar’, e ela vos obedeceria.” Lc visa não à fé ideal, que se deveria ter (como em Mt e Mc), mas àquela que os apóstolos têm realmente.

[4] Comparar com essa regra humana o paradoxo evangélico (12,37; 22,27; Jo 13,1-16).

[5] A questão de Jesus permanece aberta, criando uma ambiguidade que faz pensar mais do que num direito ao reconhecimento do Senhor: sua benevolência não se adquiriria com a realização da tarefa? Ou ela acompanha desde o início?

[6] Mais do que “servos inúteis”, o adjetivo qualifica o estatuto de servos, e não suas disposições morais; cf. 2Sm 6,22 LXX.

[7] Para alcançar o vale do Jordão e descer até Jericó (18,35), de onde subirá a Jerusalém.

[8] Como uma realidade já atuante. Costuma-se traduzir também: “Dentro de vós”, o que não parece diretamente indicado pelo contexto.

[9] Esse discurso é peculiar a Lc, que distinguiu nitidamente nas predições de Jesus o que concerne à ruína de Jerusalém (21,6-24) e o que se refere à volta gloriosa de Jesus no fim dos tempos (17,22-37). – Certas passagens encontram-se no grande discurso escatológico de Mt 24,5-41, que combinou aqui, como em outros lugares (cf. Lc 10,1+; 11,39+), duas fontes, distintas em Lc (cf. Mt 24,1+). – “Dia” é mais bíblico (“Dia de Iahweh”, cf. Am 5,18+) do que o termo de Mt 24,3 “Parusia” (Vinda), tributário do vocabulário helenístico (cf. 1Cor 1,8+).

[10] Os discípulos não desejarão rever um dos dias de sua existência terrestre ou contemplar o primeiro dia de sua manifestação gloriosa, mas gozar de um só dos dias que a seguirão.

[11] Na época da sua manifestação gloriosa.

[12] Ad. V. 36: “Dois estarão num campo; um será tomado, o outro deixado” (cf. Mt 24,40).

[13] ra·ci·o·na·lis·mo substantivo masculino 1. Modo de considerar as coisas, sobretudo as intangíveis ou abstratas, só pelos dados da razão, fazendo abstração de qualquer suposta autoridade. 2. Sistema que pretende fundar os princípios religiosos nos dados fornecidos pela razão. “racionalismo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/racionalismo [consultado em 14-02-2019].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 18 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. O Capítulo dezoito é outra pérola do Evangelho de São Lucas. Os quadros que o compõem são: O juiz iníquo e a viúva importuna; o fariseu e o publicano; Jesus Cristo e as crianças; o homem rico; conselhos aos discípulos; somente a fé faz ver; o terceiro anúncio da paixão; e a cura do cego. Estas cenas trazem um assunto muito importante: o progresso na conformidade com Jesus Cristo. De um lado encontramos aquilo que contribui para esse progresso e, de outro, aquilo que o obstaculiza. Vemos Jesus Cristo falar da necessidade de orar sempre, sem desanimar, de confiar, mesmo em meio a tribulação ou a demora de Deus, sobre a necessidade de humildade, da docilidade, do desapego e do dom da fé. Também nos adverte quanto aos perigos: o orgulho sempre presente, a soberba reinante, a dúvida frequente, o apego aos bens materiais e o seu resultado – a cegueira final.

 

18 O juiz iníquo e a viúva importuna 1Contou-lhes ainda uma parábola para mostrar a necessidade de orar sempre, sem jamais esmorecer[1]. 2“Havia numa cidade um juiz que não temia a Deus e não tinha consideração para com os homens. 3Nessa mesma cidade, existia uma viúva que vinha a ele, dizendo: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário!’ 4Durante muito tempo ele se recusou. Depois pensou consigo mesmo: ‘Embora eu não tema a Deus, nem respeite os homens, 5contudo, já que essa viúva está me dando fastio, vou fazer-lhe justiça, para que não venha por fim esbofetear-me’”.

6E o Senhor acrescentou: “Escutai o que diz esse juiz iníquo. 7E Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite, mesmo que os faça esperar? 8Digo-vos que lhes fará justiça muito em breve. Mas quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?”

O fariseu e o publicano 9Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros: 10“Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; 12jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. 13O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!’ 14Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”.

Jesus e as criancinhas[2]15Traziam-lhe até mesmo as criancinhas para que as tocasse; vendo isso, os discípulos as reprovavam. 16Jesus, porém chamou-as, dizendo: “Deixai as criancinhas virem a mim e não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus. 17Em verdade vos digo, aquele que não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele”.

O rico notável 18Certo homem de posição lhe perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” 19Jesus respondeu: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus! 20Conheces os mandamentos: Não cometas adultério, não mates, não roubes, não levantes falso testemunho; honra teu pai e tua mãe”. 21Ele disse: “Tudo isso tenho guardado desde a minha juventude”. 22Ouvindo, Jesus disse-lhe: “Uma coisa ainda te falta. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me”. 23Ele, porém, ouvindo isso, ficou cheio de tristeza, pois era muito rico.

O perigo das riquezas 24Vendo-o assim, Jesus disse: “Como é difícil aos que têm riquezas entrar no Reino de Deus! 25Com efeito, é mais fácil o camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus!” 26Os ouvintes disseram: “Mas então, quem poderá salvar-se?” 27Jesus respondeu: “As coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus”.

Recompensa prometida ao desapego 28Disse, então, Pedro: “Eis que deixamos nossos bens e te seguimos!” 29Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo, não há quem tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do Reino de Deus, 30sem que receba[3] muito mais neste tempo e, no mundo futuro, a vida eterna”.

Terceiro anúncio da paixão 31Tomando consigo os Doze, disse-lhes: “Eis que subimos a Jerusalém e se cumprirá tudo o que foi escrito pelos Profetas[4] a respeito do Filho do Homem. 32De fato, ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros; 33depois de o açoitar, eles o matarão. E no terceiro dia ressuscitará”. 34Mas eles não entenderam nada. Essa palavra era obscura para eles e não compreendiam o que ele dizia.

O cego na entrada de Jericó 35Quando ele se aproximava de Jericó, havia um cego, mendigando, sentado à beira do caminho. 36Ouvindo os passos da multidão que transitava, perguntou o que era. 37Informaram-no de que Jesus, o Nazoreu, passava. 38E ele pôs-se a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” 39Os que estavam à frente repreendiam-no, para que ficasse em silêncio; ele, porém, gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” 40Jesus se deteve e mandou que lho trouxessem. Quando chegou perto, perguntou-lhe: 41“Que queres que eu faça?” Ele respondeu: “Senhor, que possa ver novamente!” 42Jesus lhe disse: “Vê de novo; tua fé te salvou”. 43No mesmo instante, recuperou a vista, e seguia a Jesus, glorificando a Deus. E, vendo o acontecido, todo o povo celebrou os louvores de Deus.

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Quando uma pessoa se decide a se conformar[5] com Jesus Cristo, o primeiro embate que ela trava é o da oração. Geralmente as dificuldades se tornam motivos para que deixe de rezar. Na verdade, o que lhe falta é um coração de criança, a humildade, o desapego, a docilidade e uma fé firme nas promessas de Deus. No fundo, age um inimigo silencioso, que é o orgulho. É ele que mina as bases do seu projeto de conformidade com Jesus Cristo. É preciso estar atento para detectar qualquer movimento desse inimigo. Muitas vezes, ele se manifesta usando trajes religiosos; outras vezes, se sabe que é bom cristão, pois cumpre com todas as suas obrigações ou faz mais do que a maioria dos batizados. Muitas vezes demonstra a sua independência ao dizer: tenho um relacionamento adulto e independente com Deus. Ainda, o inimigo coloca argumentos que lhe impedem de dar passos mais profundos na direção da intimidade divina. Esse inimigo necessita de uma ação de Deus, pois ele vai fazendo crescer uma catarata sobre os olhos da fé e, deste modo, a pessoa enxerga pouco ou quase nada e se afunda na solidão eterna.

Vivo o Capítulo. Hoje é dia de olhar para si mesmo e vasculhar o interior para encontrar as marcas deixadas pelo orgulho, para descobrir o estrago causado por esse inimigo em nossas vidas. Hoje, o Senhor nos chama a fazer um verdadeiro exame de consciência sobre o combate ao inimigo de nosso crescimento espiritual. Hoje o Senhor faz uma aula magna sobre a necessidade de atenção no combate a esse inimigo de nossa salvação. Para tanto, nos exorta a uma vida constante de oração, a buscar por uma virtude da humildade forte e tenaz, a termos um coração que se deixa moldar com felicidade, a um desapego concreto ao serviço da caridade e à procura de uma fé lúcida e robusta. Isso não se dá sem intimidade divina, sem espiritualidade, sem o exercício perseverante do compromisso. Tudo isso vai fortalecer o nosso desejo de conformidade com Jesus Cristo, fazendo com que possamos progredir com perseverança perseverante no certame que nos é proposto. O Senhor nos chama a fazer uma grande faxina, no que tange os nossos bens, e colocá-los a serviço da vida. Chama a uma vida intensa de oração para iluminar os nossos olhos na escolha daquilo que decide nossa vida e a define eternamente.

 

 

[1] Pensamento e vocabulário paulinos (cf. Rm 1,10; 12,12; 1Ts 5,17+).

[2] Aqui Lc reassume a narrativa de Mc que abandonara em 9,50 (cf. 9, 51+).

[3] Ad.: “em troca”.

[4] Lc afirma muitas vezes ter sido a paixão predita pelos profetas: Lc 24,25.27.44; At 2,23+; 3,18.24+; 8,32-35; 13,27; 26,22s.

[5] con·for·mar – (latim conformo, -are, dar forma) verbo transitivo 1. Dar conformação a. 2. Tornar conforme. 3. Conciliar. 4. Ajustar, amoldar. Verbo intransitivo 5. Ser conforme. = CONDIZER verbo pronominal 6. Resignar-se. “conformar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/conformar [consultado em 06-03-2015].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 19 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. Com Jesus Cristo, chegamos a Jerusalém. Este é o grande tema do Capítulo de hoje. Nele encontramos Zaqueu; a parábola das minas; a entrada messiânica em Jerusalém; a lamentação sobre a cidade e a purificação; e o ensino no templo. Embora os biblistas sejam concordes em afirmar que na metade deste Capítulo inicia-se outra etapa do ministério de Jesus Cristo, gostaria de continuar demonstrando o ensinamento de Jesus Cristo a seus discípulos. No início do Capítulo encontramos o caso de Zaqueu, uma joia. Neste evento aprendemos muito sobre o discipulado. Por sua vez, a parábola da mina não fica a dever. Na chegada de Jesus Cristo a Jerusalém, novos ensinamentos se somam.

 

19 Zaqueu 1E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. 2Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe dos publicanos. 3Procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, pois era de baixa estatura. 4Correu então à frente e subiu num sicômoro[1] para ver Jesus que passaria por ali. 5Quando Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. 6Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. 7À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de pecador!” 8Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, eis que eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo”[2]. 9Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão[3]. 10Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Parábola das minas[4]11Como eles ouviam isso, Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém, e eles pensavam que o Reino de Deus se manifestaria imediatamente. 12Disse então: “Um homem de nobre origem partiu para uma região longínqua a fim de ser investido na realeza e voltar[5]. 13Chamando dez de seus servos, deu-lhes dez minas e disse-lhes: ‘Fazei-as render até que eu volte’. 14Ora, seus cidadãos o odiavam. E enviaram atrás dele uma embaixada para dizer: ‘Não queremos que este reine sobre nós’.

15Quando ele regressou, após ter recebido a realeza, mandou chamar aqueles servos aos quais havia confiado dinheiro, para saber o que cada um tinha feito render. 16Apresentou-se o primeiro e disse: ‘Senhor, tua mina rendeu dez minas’. 17‘Muito bem, servo bom’, disse ele, ‘uma vez que te mostraste fiel no pouco, recebe autoridade sobre dez cidades’. 18Veio o segundo e disse: ‘Senhor, tua mina produziu cinco minas’. 19Também a este ele disse: ‘Tu também, fica à frente de cinco cidades’.

20Veio o outro e disse: ‘Senhor, eis aqui a tua mina, que depositei num lenço, 21pois tive medo de ti, porque és homem severo, tomas o que não depositaste e colhes o que não semeaste’. 22Então ele disse: ‘Servo mau, julgo-te pela tua própria boca. Sabias que sou homem severo, que tomo o que não depositei e colho o que não semeei. 23Por que, então, não confiaste o meu dinheiro ao banco? À minha volta eu o teria recuperado com juros’. 24E disse aos que lá estavam: ‘Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem dez minas’. 25Responderam-lhe: ‘Senhor, ele já tem dez minas…’ 26‘Digo-vos, a quem tem, será dado; mas àquele que não tem, será tirado até mesmo o que tem.

27Quanto a esses meus inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e trucidai-os em minha presença’”.

  1. Ministério de Jesus em Jerusalém

Entrada messiânica em Jerusalém 28E, dizendo tais coisas, Jesus caminhava à frente, subindo para Jerusalém. 29Ao se aproximar de Betfagé e de Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois discípulos, 30dizendo: “Ide ao povoado da frente e, ao entrardes, encontrareis um jumentinho amarrado que ninguém ainda montou: soltando-o, trazei-o. 31E se alguém vos perguntar ‘Por que o soltais?’, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’”. 32Tendo partido, os enviados encontraram as coisas como ele lhes dissera. 33Enquanto desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que soltais o jumentinho?” 34Responderam: “O Senhor precisa dele”.

35Levaram-no então a Jesus e, estendendo as suas vestes sobre o jumentinho, fizeram com que Jesus montasse. 36Enquanto ele avançava, o povo estendia suas próprias vestes no caminho. 37Já estava perto da descida do monte das Oliveiras, quando toda a multidão dos discípulos começou, alegremente, a louvar a Deus com voz forte por todos os milagres que eles tinham visto. 38Diziam: “Bendito aquele que vem, o Rei, em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto dos céus!”

Jesus aprova as aclamações de seus discípulos 39Alguns fariseus da multidão lhe disseram: “Mestre, repreende teus discípulos”. 40Ele, porém, respondeu: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão”.

Lamentação sobre Jerusalém 41E, como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela, 42dizendo: “Ah! Se neste dia também tu conhecesses a mensagem de paz![6] Agora, porém, isso está escondido a teus olhos. 43Pois dias virão sobre ti, e os teus inimigos te cercarão com trincheiras, te rodearão e te apertarão por todos os lados. 44Deitarão por terra a ti e a teus filhos no meio de ti, e não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada!”[7]

Os vendedores expulsos do Templo 45E, entrando no Templo, começou a expulsar os vendedores, 46dizendo-lhes: “Está escrito: Minha casa será uma casa de oração. Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões!”

Ensinamento no Templo 47E ensinava diariamente no Templo. Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam fazê-lo perecer, bem como os chefes do povo. 48Mas não encontravam o que fazer, pois o povo todo o ouvia, enlevado.

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Ao lermos o texto da conversão de Zaqueu, percebemos uma qualidade essencial ao discípulo de Jesus Cristo, a sinceridade. Ele não escondeu a sua condição de ladrão; apresentou-se diante do Senhor sem falsa modéstia; e não usou de máscaras para parecer bom; não queria impressionar Jesus Cristo, muito menos os discípulos que o acompanhavam; muito menos se preocupava com a forma com que suas ações eram interpretadas. Zaqueu era o que era, diante de Deus e dos homens. Em seguida, nos deparamos com a parábola das minas. Penso que o Senhor, ao contar esta parábola, quer deixar uma interrogação aos discípulos sobre: onde e como vocês investem os seus dons? Eis a grande questão: os dons não nos pertencem e por isso devemos trabalhar com firmeza e constância, para que eles possam multiplicar a serviço do Reino de Deus. O texto deixa uma pergunta: Como me apresento diante de Deus? Seguindo o texto, posso afirmar que a expulsão dos vendilhões do Templo faz uma alusão à necessidade de purificação de nossa vontade para acolher Jesus Cristo de maneira digna, ou seja, com o coração sincero.

Vivo o Capítulo. Como poderemos viver esta mensagem? Com certeza, fazendo uma varredura em nosso coração de todo narcisismo que ali possamos encontrar. Seria bom iniciar revisando a nossa apresentação diante de Deus. Deixando de lado tudo aquilo que cheira a vanglória. Sendo mais preciso: sinceridade. Talvez pudéssemos fazer isso na Confissão, sendo totalmente sinceros. Pois quantas vezes vamos a este Sacramento com meias verdades? Quantas vezes vamos a este Sacramento com justificativa para os nossos pecados? Procure o seu confessor hoje e faça uma confissão geral de todos os pecados de sua vida sem fazer qualquer explicação. Uma segunda face deste quadro consiste no relacionamento com o próximo. A sinceridade deve ser a mesma para com o próximo que tivemos para com Deus. Zaqueu disse a Deus tudo aquilo que todos sabiam e o odiavam por isso. Nós devemos dizer aos outros tudo aquilo que dizemos a Deus e não dizemos ao próximo com medo de que nossa imagem seja maculada. Finalmente, devemos lembrar que sinceridade é ser o que se é, diante de Deus e dos homens.

 

 

[1] si·cô·mo·ro (grego sukomoros, -ou) substantivo masculino 1. [Botânica] Árvore da família das moráceas (Ficus sycomorus), cujo fruto é um figo comestível. 2. [Botânica] Árvore da família das aceráceas (Acer pseudoplatanus). “sicômoro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/sic%C3%B4moro [consultado em 21-02-2016].

[2] A lei judaica (Ex 21,37) só previa a restituição ao quádruplo para um caso; a lei romana a impunha para todos os furtos manifestos. Zaqueu amplia para si mesmo essa obrigação a todos os prejuízos que tenha podido causar. [Bíblia de Jerusalém, Ed. 2002, consultado em 17-02-2019].

[3] Apesar da profissão desprezada que exerce. Nenhum estado é incompatível com a “salvação” (cf. 3,12-14). – A qualidade de “filho de Abraão” é que conferia aos judeus todos os privilégios (cf. 3,8; Rm4,11s; Gl3,7s). [Bíblia de Jerusalém, Ed. 2002, consultado em 17-02-2019].

[4] Apesar das divergências consideráveis que separam a parábola das minas da parábola dos talentos (Mt 25,14-30), a maioria dos exegetas conclui em favor da identidade, tendo cada evangelista livremente modificado e desenvolvido o tema inicial. Além disso, parece necessário distinguir em Lc duas parábolas fundidas numa só, a das minas (vv. 12-13.15-26) e a do pretendente à realeza (vv. 12.14.17.19.27).

[5] Alusão provável à viagem de Arquelau a Roma, no ano 4 a.C., para consolidar em seu favor o testamento de Herodes Magno. Seguiram-no alguns judeus, com o fito de fazerem malograr os trâmites (cf. 14).

[6] Trata-se aqui da paz messiânica (cf. Is 11,6+; Os 2,20+). [Bíblia de Jerusalém, Ed. 2002, consultado em 17-02-2019].

[7] Este oráculo, inteiramente tecido de reminiscências bíblicas (perceptíveis sobretudo no texto grego, v. 43: cf. Is 29,3; 37,33; Jr 52,4-5; Ez 4,1-3; 21,27[22]; v. 44: Os 10,14; 14,1; Na 3,10; Sl 137,9), evoca a ruína de Jerusalém em 587 a.C., tanto e mais ainda que a de 70 d.C., da qual não descreve nenhum traço característico. Não é possível concluir desse texto, portanto, que esta já se tenha realizado (cf. 17,22+; 21,20+). [Bíblia de Jerusalém, Ed. 2002, consultado em 17-02-2019].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 20 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. Jesus Cristo se encontra em Jerusalém. Nesse momento o ensino aos discípulos fica em segundo plano. A atenção está centrada nas autoridades religiosas de Israel. Por isso o Capítulo marca, muito claramente, as funções daqueles que interrogam Jesus Cristo: os sacerdotes, os saduceus e os escribas. A cada questão colocada há uma resposta de Jesus Cristo: aos sacerdotes, à parábola dos vinhateiros homicidas e aos saduceus, o ensinamento sobre a ressurreição. Não podemos deixar de falar sobre a reação destes grupos: os sacerdotes procuravam prendê-lo e, por isso, mandaram espiões para pegá-lo em contradição, enquanto os escribas se sentem ofendidos com a verdade. Jesus Cristo não se deixa intimidar. O evangelista conclui o Capítulo com uma condenação ao modo de existir das autoridades religiosas de Israel. Jesus Cristo não se intimida frente ao mal, pelo simples fato de andar na direção da Verdade, enquanto os demais se sentem intimidados, porque andam na vida da mentira.

 

20[1] Questão dos judeus sobre a autoridade de Jesus 1Aconteceu que, certo dia, enquanto ele ensinava o povo no Templo, anunciando a Boa Nova, os chefes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos se apresentaram, 2dizendo-lhe: “Dize-nos com que autoridade fazes estas coisas, ou quem é que te concedeu esta autoridade?” 3Ele respondeu: “Também eu vos proporei uma questão. Dizei-me: 4O batismo de João era do Céu ou dos homens?” 5Eles, porém, raciocinavam entre si, dizendo: “Se respondermos ‘Do Céu’, ele dirá: ‘Por que não crestes nele?’ 6Se respondermos ‘Dos homens’, o povo todo nos apedrejará, porque está convicto de que João é profeta”. 7E responderam que não sabiam de onde era. 8Jesus lhes disse: “Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas”.

Parábola dos vinhateiros homicidas 9E começou a contar ao povo esta parábola: “Um homem plantou uma vinha, depois arrendou-a a vinhateiros e partiu para o estrangeiro por muito tempo.

10No tempo oportuno, enviou um servo aos vinhateiros, para que lhe entregassem uma parte do fruto da vinha; os vinhateiros, porém, o despediram sem nada, depois de o terem espancado. 11Enviou de novo outro servo; e a este também espancaram, insultaram e despediram sem nada. 12Enviou ainda terceiro; a este igualmente feriram e o lançaram fora. 13Disse então o dono da vinha: ‘Que vou fazer?… Enviarei o meu filho amado. Quem sabe vão poupá-lo’. 14Ao vê-lo, porém, os vinhateiros raciocinavam: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança fique para nós’. 15E, lançando-o para fora da vinha, o mataram.

Pois bem, que lhes fará o dono da vinha? 16Virá e destruirá esses vinhateiros, e dará a vinha a outros”. Ouvindo isso, disseram: “Que isso não aconteça!” 17Jesus, porém, fixando neles o olhar, disse: “Que significa então o que está escrito: A pedra que os edificadores tinham rejeitado tornou-se a pedra angular?

18Aquele que cair sobre essa pedra se quebrará todo, e aquele sobre quem ela cair, o esmagará”.

19Os escribas e os chefes dos sacerdotes procuravam deitar a mão sobre ele naquela hora. Tinham percebido que ele contara essa parábola a respeito deles. Mas ficaram com medo do povo.

O tributo a César 20E ficaram de espreita. Enviaram espiões que se fingiram de justos, para surpreendê-lo em alguma palavra sua, a fim de entregá-lo ao poder e à autoridade do governador. 21E o interrogaram: “Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão, e, sem levar em conta a posição das pessoas, ensinas de fato o caminho de Deus. 22É lícito a nós pagar o tributo a César ou não?” 23Ele, porém, penetrando-lhes a astúcia, disse: 24“Mostrai-me um denário[2]. De quem traz a imagem e a inscrição?” Responderam: “De César”. 25Ele disse então: “Entregai, pois, o que é de César a César, e o que é de Deus a Deus”.

26E foram incapazes de surpreendê-lo em alguma palavra diante do povo e, espantados com sua resposta, ficaram em silêncio.

A ressurreição dos mortos 27Aproximando-se alguns dos saduceus — que negam existir ressurreição — 28interrogaram-no: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: Se alguém tiver um irmão casado e este morrer sem filhos, tomará a viúva e suscitará descendência para seu irmão. 29Ora, havia sete irmãos. O primeiro tomou mulher e morreu sem filhos. 30Também o segundo, 31e depois o terceiro a tomaram; e assim os sete morreram sem deixar filhos. 32Por fim, também a mulher morreu. 33Essa mulher, na ressurreição, de qual deles vai se tornar mulher? Pois todos os sete a tiveram por mulher”.

34Jesus lhes respondeu: “Os filhos deste mundo[3] casam-se e dão-se em casamento; 35mas os que forem julgados dignos de ter parte no outro mundo e na ressurreição dos mortos[4], não tomam nem mulher nem marido; 36como também não podem morrer[5]: são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição[6]. 37Ora, que os mortos ressuscitam, também Moisés o indicou na passagem da sarça, quando diz: o Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó. 38Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos; todos, com efeito, vivem para ele”.

39Tomando então a palavra, alguns escribas[7] disseram-lhe: “Mestre, falaste bem”. 40E já ninguém ousava interrogá-lo sobre coisa alguma.

Cristo, filho e Senhor de Davi 41Disse-lhes então: “Como se pode dizer que o Cristo é filho de Davi? 42Se o próprio Davi diz no livro dos Salmos: O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, 43até que eu ponha teus inimigos como escabelo[8] para teus pés. 44Davi, portanto, o chama Senhor; então, como pode ser seu filho?”

Jesus julga os escribas 45Como todo o povo o escutava, ele disse aos discípulos: 46“Cuidado com os escribas que sentem prazer em circular com togas, gostam de saudações nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e de lugares de honra nos banquetes, 47que devoram as casas das viúvas e simulam fazer longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa!”

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Pode-se afirmar que o Capítulo de hoje, de uma maneira indireta, possui um grande ensinamento aos discípulos de todos os tempos: Com as reações provocadas por seu ensinamento no templo, os discípulos aprenderam que nas coisas de Deus devemos seguir a Verdade, nunca a nossa comodidade, depois que aqueles que buscam seguir a direção da Verdade incomodarão os acomodados. Penso que esses acomodados se levantarão para buscar o motivo pelo qual se vive diferente. Será lógico que não se contentarão com uma resposta tão simples: a Verdade. Instantaneamente, colocarão a questão da autoridade, pois o comodismo é, na verdade, um poder que se apresenta com uma autoridade absoluta e infalível. Absoluta, pelo simples fato de produzir a sensação de segurança, e infalível, pelo conforto e bem-estar que proporciona. Mas não é verdadeiro, pois tudo isso está sujeito ao tempo e não entra na eternidade. Por isso, quando alguém toca nestes pilares, tem a certeza de complicar a sua vida. O seu olhar, no dia de hoje, deve voltar para si mesmo e ver se você não se encontra assentado sobre a confortável poltrona do comodismo ou desejando nela assentar.

Vivo o Capítulo. É chegado o momento de deixar de lado o comodismo e renascer para uma vida de comprometimento com a Causa do Reino de Deus. Isso se faz por meio da decisão de caminhar seguindo o caminho da Verdade. Não é uma caminhada fácil, pois nesta estrada será o primeiro a ser desnudado e a perder todas as certezas. Em seguida, devemos lidar com a nossa impaciência com o crescimento dos frutos da Verdade. Caminhar sem abrigo e sem certezas não é nada fácil, mas a isso se agregam os sofrimentos decorrentes do preconceito dos acomodados. Nesta situação, se sofre por um duplo motivo: É necessário coragem de perder a vida, mas não a salvação oferecida por Deus àqueles que deixaram tudo, para seguir no encalço da Verdade. Os discípulos começam a se confrontar com uma nova dimensão da estrada da Verdade: Antes se encontravam fascinados pelos efeitos terapêuticos, libertadores e sapienciais, produzidos em nossa vida pela Verdade, mas, nesse momento, assistiriam o martírio pela Verdade. O Capítulo é uma proposta para quebrarmos a nossa zona de conforto e partirmos por amor à Verdade. Creio que é chegada a hora de fazer uma opção: a de partir, ou de permanecer no comodismo e pagar para ver o que acontece.

 

 

[1] De 20,1 a 21,5 Lc segue muito de perto Mc. Omite a ação simbólica da figueira seca (Mc 11,12-14.20-25), que ele substitui pela parábola da figueira estéril (Lc 13,6-9); omite também a discussão sobre o primeiro mandamento (Mc 12,28-34), que já hauriu de outra fonte (Lc 10,25-28).

[2] de·ná·ri·o adjetivo 1. Que se compõe de dez. substantivo masculino 2. Moeda romana. 3. Antigo peso de farmácia. “denário”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/denário [consultado em 07-03-2015].

[3] Semitismo: aqueles que pertencem a este mundo.

[4] Aqui é questão somente da ressurreição dos justos.

[5] Var.: “nem mesmo devem”.

[6] Semitismo: ressuscitados.

[7] Os escribas, na maioria fariseus, acreditavam na ressurreição dos mortos (cf. At 23,6-9).

[8] es·ca·be·lo |ê| (latim scabellum, -i) substantivo masculino 1. Banco comprido e largo, constituindo ao mesmo tempo uma caixa, e com uma tábua de encosto a todo o comprimento. 2. Pequeno banco para descanso dos pés. PEANHA, SUPEDÂNEO “escabelo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/escabelo [consultado em 07-03-2015].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 21 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. Jesus Cristo continuava ensinando no templo e permanecia atraindo a multidão, que madrugava para ouvi-lo. Neste Capítulo, Jesus Cristo ensina sobre a verdadeira beleza e o que é necessário para não a perder. Encontramos no Capítulo 21: a oferta da viúva; o discurso sobre a ruína de Jerusalém; e a exortação sobre a vigilância. O discurso de Jesus Cristo evidencia a fraqueza dos motivos de nossa felicidade, ao ver os ricos dando esmolas no Templo (grandes quantias), mas não lhes fazia falta; quando viu os pobres alegres, pela beleza do templo. Jesus Cristo não deixa por menos e começa a ensinar sobre o verdadeiro motivo da felicidade. Ora, sabemos que felicidade é a posse do objeto amado, logo, tanto os ricos quanto os pobres, que se alegravam com os bens materiais, se contentavam com esses bens, ou seja, o ter em abundância. O contentamento de nosso coração é questionado neste Capítulo.

 

21 A oferta da viúva 1Levantando os olhos, ele viu os ricos lançando ofertas no Tesouro do Templo. 2Viu também uma viúva indigente, que lançava duas moedinhas, 3e disse: “De fato, eu vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos, 4pois todos aqueles deram do que lhes sobrava para as ofertas; esta, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que possuía para viver”.

Discurso sobre a ruína de Jerusalém[1]. Introdução 5Como alguns diziam a respeito do Templo que era ornado de belas pedras e de ofertas votivas, ele disse: 6“Contemplais essas coisas… Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida!” 7Perguntaram-lhe então: “Quando será isso, Mestre, e qual o sinal de que essas coisas estarão para acontecer?”

Os sinais precursores 8Respondeu: “Atenção para não serdes enganados, pois muitos virão em meu nome, dizendo ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo!’ Não os sigais! 9Quando ouvirdes falar de guerras e subversões, não vos atemorizeis; pois é preciso que primeiro aconteça isso, mas não será logo o fim”. 10Disse-lhes então: “Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. 11E haverá grandes terremotos e pestes e fome em todos os lugares; aparecerão fenômenos pavorosos e grandes sinais vindos do céu.

12Antes de tudo isso, porém, hão de vos prender, de vos perseguir, de vos entregar às sinagogas e às prisões, de vos conduzir a reis e governadores por causa do meu nome, 13e isso vos será ocasião de testemunho. 14Tende presente em vossos corações não premeditar vossa defesa; 15pois eu[2] vos darei eloquência e sabedoria, às quais nenhum de vossos adversários poderá resistir, nem contradizer. 16Sereis traídos até por vosso pai e mãe, irmãos, parentes, amigos, e farão morrer pessoas do vosso meio, 17e sereis odiados de todos por causa de meu nome. 18Mas nem um só cabelo de vossa cabeça se perderá. 19É pela perseverança que mantereis vossas vidas!

O cerco 20Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos[3], sabei que está próxima a sua devastação. 21Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes, os que estiverem dentro da cidade saiam e os que estiverem nos campos não entrem nela, 22porque serão dias de punição, nos quais deverá cumprir-se tudo o que foi escrito[4]. 23Ai daquelas que estiverem grávidas e estiverem amamentando naqueles dias!

A catástrofe e os tempos dos pagãos — Com efeito, haverá uma grande angústia na terra e cólera contra este povo. 24E cairão ao fio da espada, levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada por nações até que se cumpram os tempos das nações[5].

As catástrofes cósmicas e a manifestação gloriosa do Filho do Homem 25Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e na terra, as nações estarão em angústia, inquietas pelo bramido do mar e das ondas; 26os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que ameaçará o mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados. 27E, então verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poder e grande glória. 28Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação[6]”.

Parábola da figueira 29Em seguida contou-lhes uma parábola: “Vede a figueira e as árvores todas. 30Quando brotam, olhando-as, sabeis que o verão já está próximo. 31Da mesma forma também vós, quando virdes essas coisas acontecerem, sabei que o Reino de Deus está próximo[7]. 32Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que tudo aconteça. 33O céu e a terra passarão; minhas palavras, porém, não passarão.

Vigiar para não ser surpreendido 34Cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida, e não se abata repentinamente sobre vós aquele Dia, 35como um laço; pois ele sobrevirá[8] a todos os habitantes da face de toda a terra. 36Ficai acordados, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem”.

Os últimos dias de Jesus 37Durante o dia ele ensinava no Templo, mas passava as noites ao relento, no monte chamado das Oliveiras. 38E todo o povo madrugava junto com ele no Templo, para ouvi-lo.[9]

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Hoje podemos meditar sobre a causa da nossa felicidade ou da nossa alegria. Se não estivermos atentos, poderemos ter como causa de nosso contentamento a posse dos bens materiais ou a conquista dos outros, mas sempre material. Como as pessoas ficam contentes com a vitória de seu time, com uma conquista de um primeiro lugar em qualquer jogo? Como vivem se gabando da beleza alheia que não lhes pertencem. Jesus Cristo lembra que devemos nos contentar com a beleza e a riqueza de Deus, pois o contentamento com estas qualidades de Deus são características de um grande amor ao Pai. É um amor capaz de dar tudo, até mesmo o que é necessário para viver. Penso que aquele dito popular Mais tem Deus para dar do que o Diabo para tirar, é uma grande verdade, conhecida apenas daqueles que nutrem um profundo amor por Deus. Muito mais do que qualquer beleza é a beleza de Deus, muito mais prazer, que o possuir algo que possa nos proporcionar, encontra-se a posse de Deus. Penso que a perfeita alegria se encontra quando o nosso contentamento se deriva apenas da posse de Deus.

Vivo o Capítulo. Para viver este Capítulo de hoje devemos refletir sobre a causa das nossas tristezas e alegrias. Se aprofundarmos este tema, com certeza chegaremos à conclusão de que aquilo que nos contenta – ou buscamos para que nos contente – encontra-se sob a ação inexorável do tempo. Conhece início, meio e fim. Por isso, ficamos sempre com as mãos vazias ou inseguros, pois aquilo que nos contenta pode nos ser tirado a qualquer momento. Santo Agostinho expressa a realidade humana com as seguintes palavras: “Inquieto está o meu coração enquanto não repousar em ti. Oh beleza infinita,  tarde demais te amei.” Ou recordemos de outro ensinamento de Jesus Cristo: “Buscai o Reino do Céu e tudo mais vos será acrescentado” (Mt 6,33; Lc 12,31) e ainda: “Olhai os lírios dos campos eles não tecem…” (Mt 6,25-34). O encontro com a beleza de Deus nos faz viver a perfeita alegria e a santa indiferença. Dediquemos a esta procura para conhecer aquilo que o Senhor nos propõe.

[1] Em 17,22-37, Lc, utilizando uma das suas fontes, havia tratado da volta gloriosa de Jesus no fim dos tempos. Aqui, como Mc que ele segue e combina com outra fonte, trata da ruína de Jerusalém, sem confundi-la com o fim do mundo, conforme faz Mt (cf. Mt 24,1+; Lc 19,44+).

[2] Lc atribui aqui a Jesus a iniciativa que Mt 10,20; Mc 13,11; Lc 12,12 reservam ao Espírito do Pai (Mt) ou ao Espírito Santo (Mc e Lc; cf. At 6,10; Jo 16,13-15).

[3] Como em 19,43-44, as expressões são bíblicas e nada têm de uma descrição feita depois do acontecimento.

[4] Talvez alusão a Dn 9,26s.

[5] Ver os setenta anos de Jr 25,11; 29,10; 2Cr 36,20-21; Dn 9,1-2, retomados na profecia das setenta semanas de anos de Dn 9,24-27: cifras simbólicas e misteriosas do tempo concedido por Deus às nações pagãs para castigar Israel culpado, depois do que este receberá a libertação.

[6] Ou “redenção”, termo paulino (cf. Rm 3,24+).

[7] Não na fase inicial, já inaugurada (17,21), mas na fase de desenvolvimento e de conquista, iniciada com a ruína de Jerusalém (cf. 9,27p).

[8] Var.: “pois ele sobrevirá como um laço”.

[9] O contato literário com Jo 8,1-2 é evidente. A perícope da mulher adúltera (Jo 7,53-8,11), que tantas razões convidam a atribuir a Lc, encontraria aqui excelente contexto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 22 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. Com este Capítulo, segundo os biblistas, o autor inicia o quadro da paixão de Jesus Cristo. Nele encontraremos os seguintes episódios: a conjuração contra Jesus Cristo e a traição de Judas; os preparativos para a ceia pascal; os discursos durante a ceia; a oração no Monte das Oliveiras; a prisão de Jesus Cristo; a negação de Pedro; os primeiros ultrajes; e Jesus Cristo diante do Sinédrio[1]. Os relatos da paixão demonstram que o Senhor é justo, mas sofre o martírio por proceder conforme a vontade de Deus. Grandioso é perceber que Jesus Cristo suporta todo o sofrimento com paz interior, que cresce na medida em que o sofrimento aumenta e, ainda, é capaz de consolar aqueles que sofrem menos do que ele.

 

  1. A paixão[2]

22 Conspiração contra Jesus e traição de Judas 1Aproximava-se a festa dos Ázimos[3], chamada Páscoa[4]. 2E os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam de que modo eliminá-lo, pois temiam o povo[5].”

3Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, do número dos Doze. 4Ele foi conferenciar com os chefes dos sacerdotes e com os chefes da guarda[6] sobre o modo de lho entregar. 5Alegraram-se e combinaram dar-lhe dinheiro. 6Ele aceitou, e procurava uma oportunidade para entregá-lo a eles, escondido da multidão.

Preparativos da ceia pascal 7Veio o dia dos Ázimos, quando devia ser imolada[7] a páscoa. 8Jesus então enviou Pedro e João, dizendo: “Ide preparar-nos a páscoa para comermos”. 9Perguntaram-lhe: “Onde queres que a preparemos?” 10Respondeu-lhes: “Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segui-o até a casa em que ele entrar. 11Direis ao dono da casa: ‘O Mestre te pergunta: onde está a sala em que comerei a páscoa com os meus discípulos?’ 12E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala, provida de almofadas; preparai ali”. 13Eles foram, acharam tudo como dissera Jesus, e prepararam a páscoa.

A ceia pascal 14Quando chegou a hora, ele se pôs à mesa com seus apóstolos 15e disse-lhes[8]: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; 16pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra[9] no Reino de Deus”.

17Então, tomando uma taça[10], deu graças e disse: “Tomai isto e reparti entre vós; 18pois eu vos digo que doravante não beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”.

Instituição da eucaristia[11]19E tomou um pão, deu graças, partiu e deu-o a eles, dizendo. “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória”. 20E, depois de comer, fez o mesmo com a taça, dizendo: “Essa taça é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós[12].

Anúncio da traição de Judas 21Eis, porém, que a mão do que me trai está comigo, sobre a mesa. 22O Filho do Homem vai, segundo o que foi determinado, mas ai daquele homem por quem ele for entregue!” 23Começaram então a indagar entre si qual deles faria tal coisa.

Quem é o maior?[13]24Houve também uma discussão entre eles: qual seria o maior? 25Jesus lhes disse: “Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são chamados Benfeitores. 26Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve. 27Pois, qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve!

Recompensa prometida aos apóstolos 28Vós sois os que permanecestes constantemente comigo em minhas tentações; 29também eu disponho para vós o Reino, como meu Pai o dispôs para mim, 30a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel.

Anúncio da negação e da conversão de Pedro 31Simão, Simão[14], eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; 32eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos”[15]. 33Disse ele: “Senhor, estou pronto a ir contigo à prisão e à morte”. 34Ele, porém, replicou: “Pedro, eu te digo: o galo não cantará hoje sem que por três vezes tenhas negado conhecer-me”.

A hora do combate decisivo 35E disse-lhes: “Quando eu vos enviei sem bolsa, nem alforje, nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?” — “Nada”, responderam. 36Ele continuou: “Agora, porém, aquele que tem uma bolsa tome-a, como também aquele que tem um alforje; e quem não tiver uma espada, venda seu manto para comprar uma[16]. 37Pois eu vos digo, é preciso que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado entre os iníquos[17]. Pois também o que me diz respeito tem um fim”. 38Disseram eles: “Senhor, eis aqui duas espadas”. Ele respondeu. “É suficiente!”

No monte das Oliveiras 39Ele saiu e, como de costume, dirigiu-se ao monte das Oliveiras. Os discípulos o acompanharam. 40Chegando ao lugar, disse-lhes: “Orai para não entrardes em tentação”.

41E afastou-se deles mais ou menos a um tiro de pedra, e, dobrando os joelhos[18], orava: 42“Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” 43Apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. 44E, cheio de angústia, orava com mais insistência ainda, e o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caíam por terra[19].

45Erguendo-se após a oração, veio para junto dos discípulos e encontrou-os adormecidos de tristeza. 46E disse-lhes: “Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação!”

Prisão de Jesus 47Enquanto ainda falava, eis que chegou uma multidão. À frente estava o chamado Judas, um dos Doze, que se aproximou de Jesus para beijá-lo. 48Jesus lhe disse: “Judas, com um beijo entregas o Filho do Homem?” 49Vendo o que estava para acontecer, os que se achavam com ele disseram-lhe: “Senhor, e se ferirmos à espada?” 50E um deles feriu o servo do Sumo Sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. 51Jesus, porém, tomou a palavra e disse: “Deixai! Basta!” E tocando-lhe a orelha, curou-o.

52Depois, Jesus dirigiu-se àqueles que vieram de encontro a ele, chefes dos sacerdotes, chefes da guarda do Templo e anciãos: “Como a um ladrão saístes com espadas e paus? 53Eu estava convosco no Templo todos os dias e não pusestes a mão sobre mim. Mas é a vossa hora, e o poder das Trevas”.

Negações de Pedro 54Prenderam-no[20] e levaram-no, introduzindo-o na casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia de longe. 55Tendo eles acendido uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se ao redor, e Pedro sentou-se no meio deles. 56Ora, uma criada viu-o sentado perto do fogo e, encarando-o, disse: “Este também estava em companhia dele!” 57Ele, porém, negou: “Mulher, eu não o conheço”. 58Pouco depois, outro, tendo-o visto, afirmou: “Tu também és um deles!” Mas Pedro declarou: “Homem, não sou”. 59Decorrida mais ou menos uma hora, outro insistia: “Certamente, este também estava com ele, pois é galileu!” 60Pedro disse: “Homem, não sei o que dizes”. Imediatamente, enquanto ele ainda falava, o galo cantou, 61e o Senhor, voltando-se, fixou o olhar em Pedro. Pedro então lembrou-se da palavra que o Senhor lhe dissera: “Antes que o galo cante hoje, tu me terás negado três vezes”. 62E saindo para fora, chorou amargamente.

Primeiros ultrajes[21]63Os guardas caçoavam de Jesus, espancavam-no, 64cobriam-lhe o rosto e o interrogavam: “Faz uma profecia: quem é que te bateu?” 65E proferiam contra ele muitos outros insultos.

Jesus diante do Sinédrio[22]66Quando se fez dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo[23], chefes dos sacerdotes e escribas, e levaram-no para o Sinédrio[24], 67dizendo: “Se tu és o Cristo, dize-nos!” Ele respondeu: “Se eu vos disser, não acreditareis, 68e se eu vos interrogar, não respondereis. 69Mas, doravante, o Filho do Homem estará sentado à direita[25] do Poder de Deus!” 70Todos então disseram: “És, portanto, o Filho de Deus[26]?” Ele lhes declarou: “Vós dizeis: eu sou!” 71Replicaram: “Que necessidade temos ainda de testemunho? Nós o ouvimos de sua própria boca![27]

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Aos meus olhos, o Senhor realiza um grande ensinamento a seus discípulos: a arte de saber sofrer, como disse no Entendendo o Capítulo, com paz interior e com capacidade de consolar os demais. A mim parece que, para muitos batizados, a base de sua fé encontra-se na ausência de sofrimentos ou que, seguindo a Jesus Cristo, serão poupados de todos os sofrimentos. O quadro meditado nos deixa afirmar que estas pessoas se encontram equivocadas. Jesus Cristo não nos fez esta promessa, mas apenas nos ensinou o caminho de sofrer com paz interior. Se aprofundarmos mais um pouco a nossa meditação, veremos que nos deparamos com um problema relativo à esperança. Se a esperança de seguir Jesus Cristo está firmada em ser livre do sofrimento, com certeza esta pessoa não irá perseverar e será tentada a negar e trair ou, o que é pior: perseguir, como fizeram as autoridades judaicas. Mas se a esperança dos fiéis de Jesus Cristo encontra-se na certeza do triunfo sobre a morte, com certeza ele passará pelo sofrimento com paz interior. Por pior que seja a nossa Sexta-Feira Santa, nós a enfrentamos com a certeza de que a vigília pascal já se desponta na aurora de nossas vidas.

Vivo o Capítulo. Hoje, nos momentos livres, rezemos a oração do Quem me dera. O que me levou a escolher esta oração como oração que finaliza as nossas atividades, foi justamente a sua profissão de fé e de esperança num futuro em que a dor, o sofrimento e a morte não existem mais. A fé e a esperança de que a Sexta-Feira Santa é um momento e a Páscoa é a eternidade. Esta oração nutre a nossa convicção de que o Senhor nos fará ultrapassar os sofrimentos sem perder a fé, a esperança e o amor para com Deus e para com o próximo, materializados na oração e na compaixão. O texto oferecido à nossa meditação deixa uma grande interrogação para todos: como enfrentamos os sofrimentos, quer sejam eles físicos, morais, psíquicos e espirituais? É com aquela certeza moral inabalável de que o meu Redentor vive e, por isso, também eu viverei e não morrerei? Ou como me fazendo de vítima e aprontando os maiores escândalos? O testemunho de serenidade no sofrer talvez seja o mais convincente de todos. Rezamos esta breve jaculatória: Creio na ressurreição da carne.

[1] si·né·dri·o (grego sunédrion, -ou, conselho, assembleia) substantivo masculino 1. Supremo conselho, entre os hebreus. 2. Assembleia. “Sinédrio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/Sin%C3%A9drio [consultado em 19-02-2019]

[2] Em toda a narrativa da paixão, Lc depende muito menos que anteriormente de Mc. Em compensação, há numerosos pontos de contato com Jo; sem dúvida, dispõem de uma fonte comum.

[3] á·zi·mo (latim azymus, -a, um, do grego ázumos, os, -on) adjetivo 1. Que não fermentou. 2. Que não teve fermento. 3. [Figurado] Simples, puro. substantivo masculino 4. Pão que não fermentou. “Ázimos”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/Ázimos [consultado em 10-03-2015].

[4] pás·co·a (latim Pascha, -ae, do hebraico pasach) substantivo feminino 1. [Religião] Festa solene dos hebreus, celebrada no 14.º dia da lua de março, em memória da sua saída do Egito. (Geralmente com inicial maiúscula.) 2. [Religião] Festa dos cristãos em memória da ressurreição de Cristo. (Geralmente com inicial maiúscula.) 3. Época em que se comemora essa festa (ex.: férias de Páscoa). (Geralmente com inicial maiúscula.) “páscoa”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/páscoa [consultado em 10-03-2015].

[5] Lc não narra a unção de Betânia; em 7,36-50 já apresentou um fato do mesmo gênero.

[6] Oficiais da polícia do Templo. Eram recrutados entre os levitas (cf. At 4,1).

[7] i·mo·lar – (latim immolo, -are) verbo transitivo 1. Oferecer em sacrifício, matando. = SACRIFICAR 2. Assassinar, massacrar, matar. 3. [Figurado] Prescindir de algo. = SACRIFICAR verbo transitivo e pronominal 4. Prejudicar(-se), arruinar(-se). verbo pronominal 5. Sacrificar(-se), tirando a própria vida, geralmente por meio do fogo. Confrontar: emular. “imolada”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/imolada [consultado em 10-03-2015].

[8] Lc adota a convenção helenística da refeição de despedida do Mestre com seus discípulos. As palavras pronunciadas por Jesus na ceia têm em Lc lugar mais importante do que em Mt e Mc; os discursos de Jo 13,31-17,26 serão ainda mais desenvolvidos. Lc parece ter concebido esses discursos à luz das primitivas assembleias eucarísiticas.

[9] Cumprir-se-á de maneira inicial pela instituição da Eucaristia, centro da vida espiritual do Reino fundado por Jesus, porém de maneira total, e sem véus, no fim dos tempos.

[10] Lc distingue a páscoa e a taça dos vv. 15-18 do pão e da taça dos vv. 19-20, para pôr em paralelo o rito antigo da páscoa judaica e o rito novo da Eucaristia cristã. Sem comprometer esta construção teológica e admirados de encontrar duas taças, documentos antigos omitem o v. 20, ou mesmo o fim do v. 19 (a partir de “que será dado por vós”).

[11] Observar a afinidade do texto de Lc com o de Paulo.

[12] Poder-se-á compreender: “que vai ser dado/ derramado” ou “que deve ser dado/ derramado”.

[13] Lucas transpõe aqui, aliás sob forma bastante diferente, palavras que Mt-Mc situam após a pergunta dos filhos de Zebedeu (Mt 20,25-28; Mc 10,42-45). No novo contexto, esses ensinamentos de Jesus esclarecem as questões acerca da precedência e do serviço às mesas, que certamente se apresentavam nas primitivas assembleias litúrgicas (cf. At 6,1; 1Cor 11,17-19; Tg 2,2-4).

[14] Ad.: “E o Senhor disse”.

[15] Essa palavra confere a Pedro, em relação aos outros apóstolos, um papel de direção na fé. Seu primado no próprio seio do colégio apostólico afirma-se aqui e mais claramente do que em Mt 16, 17-19, onde poderia passar simplesmente por porta-voz e representante dos Doze. Ver também Jo 21, 15-17, onde os “cordeiros” e as “ovelhas” que ele deve apascentar parecem incluir “estes”, seus companheiros apostólicos, os quais ele supera no amor.

[16] Uma bolsa para comprar e um alforje para guardar víveres, que doravante não mais serão dados livremente aos discípulos; uma espada para se proteger num mundo que se tornou hostil.

[17] i·ní·quo (latim iniquus, -a, -um, desigual, acidentado, desfavorável) adjetivo 1. Contrário à equidade. = INJUSTO ≠ JUSTO 2. Mal julgado. 3. Que tem mau caráter ou revela crueldade. = MALÉVOLO, MALVADO, PERVERSO ≠ BENÉVOLO “iníquos”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/iníquos [consultado em 10-03-2015].

[18] A oração se fazia normalmente de pé (cf. 1 Rs 8,22; Mt 6,5; Lc 18,11); mas também de joelhos, quando se tornava mais intensa ou mais humilde

[19] Embora omitidos por alguns bons documentos, os vv. 43-44 devem ser mantidos. Atestados no séc. II por numerosos documentos, eles têm o estilo e o cunho de Lc. Sua omissão se explica pelo cuidado de evitar um rebaixamento de Jesus, julgado demasiadamente humano.

[20] Em Mt, a tropa prende Jesus logo que Judas o beija; segue o episódio da orelha decepada; o discurso de Jesus vem em último lugar. Igualmente em Mc. A ordem que Lc adota, fazendo a prisão seguir o discurso de Jesus, sublinha como Jesus domina o acontecimento (cf., nesse sentido, Jo 10,18+; 18,4-6).

[21] Os ultrajes, colocados durante a espera da noite antes da sessão do Sinédrio, e não depois dela, como em Mt-Mc, não provêm, em Lc, dos sinedritas, mas da criadagem. Além disso, ao contrário ainda de Mt 26,68; Mc 14,65 (ver as notas), Jesus tem o rosto coberto, de modo que em Lc os ultrajes tornam-se um jogo de adivinhação, bem conhecido no mundo antigo e mesmo em todos os tempos. Sobre esses pontos, o relato de Lc tem sem dúvida mais verossimilhança que os de Mt e Mc.

[22] Em vez de dois comparecimentos de Mt e Mc, Lc refere um só, na manhã, e sem dúvida no edifício do “Tribunal”, perto do Templo (cf. Mt 26,57+).

[23] “Anciãos” não designa aqui um dos três elementos do Sinédrio (os anciãos), mas o Sinédrio inteiro, do qual Lc indica os dois elementos mais importantes (chefes dos sacerdotes e escribas).          

[24] O termo deve designar aqui, mais do que as pessoas que compõem o Sinédrio, o local oficial de suas reuniões. Esse local encontrava-se, ao menos em parte, na esplanada do Templo, na região sudoeste. As portas abriam-se somente de manhã cedo, como o supõe o v. 66.

[25] Lc omite o “vereis” de Mt e de Mc, bem como a alusão a Dn. Talvez tenha querido evitar a expectativa de Parusia próxima, à qual poderia se prestar essa palavra, se fosse mal-entendida.

[26] Lc distingue melhor do que Mt-Mc os dois títulos, “Cristo” (v. 67) e “Filho de Deus” (v. 70); comparar Jo 10,24-39.

[27] Lc não fala de falsas testemunhas (mas cf. At 6,11-14), nem de explícita sentença de morte. Parece depender de outra fonte além de Mc-Mt.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 23 do Evangelho de São Lucas

Entendo o Capítulo. No vigésimo terceiro Capítulo encontramos o ápice do sofrimento de Jesus Cristo, sua serenidade interior e sua capacidade de amar a Deus e ao próximo. Nele, diante de nossos olhos se apresentam os dois grandes horrores de nossa vida: o sofrimento, em suas diversas dimensões, e a morte. Uma pergunta nasce em nosso coração: Onde o Senhor encontrou forças para se portar dessa maneira? O Capítulo descreve esse ensinamento de Jesus Cristo por meio das seguintes cenas: Jesus Cristo, perante as autoridades romanas; a Via Sacra; a crucifixão; o bom ladrão; a morte de Jesus Cristo; e seu sepultamento. Todavia, fica mais claro quando separamos as cenas: Jesus Cristo e o sofrimento (diante das autoridades romanas); a Via Sacra (a zombaria e os ultrajes dos soldados e judeus); Jesus Cristo, Deus e o próximo (Jesus Cristo e as filhas de Sião, o pedido de perdão, o atendimento do pedido do bom ladrão e a sua oração ao Pai na hora da morte).

 

23 1Toda a multidão se levantou; e conduziram-no a Pilatos.

Jesus perante Pilatos[1]2Começaram então a acusá-lo, dizendo: “Encontramos este homem subvertendo nossa nação, impedindo que se paguem os impostos a César e pretendendo ser Cristo Rei”. 3Pilatos o interrogou: “És tu o rei dos judeus?” Respondendo, ele declarou: “Tu o dizes”. 4Pilatos disse, então, aos chefes dos sacerdotes e às multidões: “Não encontro nesse homem motivo algum de condenação”. 5Eles, porém, insistiam: “Ele subleva o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui”. 6A essas palavras, Pilatos perguntou se ele era galileu. 7E certificando-se de que pertencia à jurisdição de Herodes, transferiu-o a Herodes que, naqueles dias, também se encontrava em Jerusalém.

Jesus perante Herodes[2]8Vendo a Jesus, Herodes ficou muito contente; havia muito tempo que queria vê-lo, pelo que ouvia dizer dele; e esperava ver algum milagre feito por ele. 9Interrogou-o com muitas perguntas; ele, porém, nada lhe respondeu. 10Entretanto, os chefes dos sacerdotes e os escribas lá se achavam, e acusavam-no com veemência. 11Herodes, juntamente com a sua escolta, tratou-o com desprezo e escárnio; e, vestindo-o com uma veste brilhante[3], mandou-o novamente a Pilatos. 12E nesse mesmo dia Herodes e Pilatos ficaram amigos entre si, pois antes eram inimigos.

Jesus novamente diante de Pilatos 13Depois de convocar os chefes dos sacerdotes, os chefes e o povo, Pilatos 14disse-lhes: “Vós me apresentastes este homem como agitador do povo; ora, eu o interroguei diante de vós e não encontrei neste homem motivo algum de condenação, como o acusais. 15Tampouco Herodes, uma vez que ele o enviou novamente a nós. Como vedes, este homem nada fez que mereça a morte. 16Por isso eu o soltarei, depois de o castigar”. [17[4]] 18Eles, porém, vociferaram todos juntos: “Morra esse homem! Solta-nos Barrabás!” 19Este último havia sido preso por um motim na cidade e por homicídio.

20Pilatos, querendo soltar Jesus, dirigiu-lhes de novo a palavra. 21Mas eles gritavam: “Crucifica-o! Crucifica-o!” 22Pela terceira vez[5], disse-lhes: “Que mal fez este homem? Nenhum motivo de morte encontrei nele! Por isso o solto depois de o castigar”[6]. 23Eles, porém, insistiam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado; e seus clamores aumentavam.

24Então Pilatos sentenciou que se atendesse ao pedido deles. 25Soltou aquele que fora posto na prisão por motim e homicídio, e que eles reclamavam. Quanto a Jesus, entregou-o ao arbítrio deles.

A caminho do Calvário 26Enquanto o levavam, tomaram certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e impuseram-lhe a cruz para levá-la atrás de Jesus. 27Grande multidão do povo o seguia, como também mulheres[7] que batiam no peito e se lamentavam por causa dele. 28Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! 29Pois, eis que virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, as entranhas que não conceberam e os seios que não amamentaram! 30Então começarão a dizer às montanhas: Caí sobre nós! e às colinas: Cobri-nos! 31Porque se fazem assim com o lenho verde, o que acontecerá com o seco?”[8] 32Eram conduzidos também dois malfeitores para serem executados com ele.

A crucifixão[9]33Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. 34Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem”[10]. Depois, repartindo suas vestes, sorteavam-nas.

Jesus na cruz, sujeito à zombaria e ultrajes 35O povo permanecia lá, olhando. Os chefes, porém, zombavam e diziam: “A outros salvou, que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito!” 36Os soldados também caçoavam dele; aproximando-se, traziam-lhe vinagre, 37e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo”. 38E havia uma inscrição acima dele: “Este é o Rei dos judeus”.

O “bom ladrão” 39Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: “Não és tu o Cristo?[11] Salva-te a ti mesmo e a nós”. 40Mas o outro, tomando a palavra, o repreendia: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? 41Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal”. 42E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”[12]. 43Ele respondeu: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso”.

A morte de Jesus 44Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona[13], 45tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, 46e Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Dizendo isso, expirou.

Após a morte de Jesus 47O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: “Realmente, este homem era justo!” 48E toda a multidão que havia acorrido para o espetáculo, vendo o que havia acontecido, voltou, batendo no peito.

49Todos os seus amigos, bem como as mulheres que o haviam acompanhado desde a Galileia, permaneciam à distância, observando essas coisas.

O sepultamento 50Eis que havia um homem chamado José, membro do Conselho, homem bom e justo, 51que não concordara nem com o desígnio, nem com a ação deles. Era de Arimateia, cidade dos judeus, e esperava o Reino de Deus. 52Indo procurar Pilatos, pediu o corpo de Jesus. 53E, descendo-o, envolveu-o num lençol e colocou-o numa tumba talhada na pedra, onde ninguém ainda havia sido posto. 54Era o dia da Preparação, e o sábado começava a luzir[14].

55As mulheres, porém, que vieram da Galileia com Jesus, haviam seguido a José; observaram o túmulo e como o corpo de Jesus fora ali depositado.

56Em seguida, voltaram e prepararam aromas e perfumes. E, no sábado, observaram o repouso prescrito.

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. Aprendi uma coisa: os momentos extremos revelam a beleza interior de cada pessoa. O Capítulo, que acabamos de ler, revela a beleza interior de Jesus Cristo através de sua serenidade e de sua capacidade de se ocupar com os demais e não consigo mesmo, em meio à tamanha dor. Recordo aqui as palavras do salmo 23 (22) e das palavras do Mestre: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Em minha vida demorei muito para compreender a Oração de São Francisco, quando diz: “Senhor fazei com que eu procure mais compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado…”. São Francisco viu a beleza contida na paixão de Cristo. Refiro-me à beleza de sua alma, de seus sentimentos, de seu ideal, de sua confiança em Deus e de sua esperança nos seres humanos. Muitas vezes, diante dos textos da paixão do Senhor, entramos em pânico por não conseguir ultrapassar a materialidade do sofrimento que lhe foi imposto, pois não temos fé, esperança e caridade amadurecidas. Temos apenas um segmento infantil, pois corremos atrás dos bombons que nos são ofertados e, por isso, não somos capazes de ver a verdadeira beleza escondida em meio a tanta dor.

Vivo o Capítulo. Para viver o Capítulo de hoje, necessitamos compreender bem que o amor vence na vida e vence na morte. Compreender bem aquilo que trazemos escrito no brasão da Obra: vivendo como ele, ressuscitaremos como ele. Todas as vezes que devo aconselhar ou consolar uma pessoa que sofre, procuro fazer com que ela veja este quadro. Sempre lhe digo: Agora é momento de você consolar mais do que ser consolado. Agora é o momento de você testemunhar que a sua esperança em Jesus Cristo não é só para essa vida. Se você tem necessidade de chorar, pois chore, mas console os demais. Se as lágrimas se vertem sem o teu consentimento, que pelo menos suas palavras e os seus lábios sejam confortadores para os presentes. Se o seu coração está ferido, use as suas mãos para amparar, acariciar, servir aos demais. E se as suas palavras não atingem, se os teus gestos são débeis, que pelo menos o seu olhar penetre as almas dos demais e lhes faça entender a sua fé, a sua esperança e o amor que vive em seu coração. Hoje, busque sorrir, mesmo que o seu coração esteja chorando; procure consolar, mesmo que você necessite de consolo; procure servir, mesmo que esteja sem forças; procure fazer com que o seu olhar transmita a beleza divina presente nos corações que gozam de intimidade com ele.

[1] A narração de Lc, mais circunstanciada, mais dramática que a de Mc e Mt, preludia a longa cena de Jo.

[2] Trata-se, bem entendido, de Antipas, filho de Herodes, o Grande, e tetrarca da Galileia; cf. 3,1+. Tal consulta a terceira pessoa, por parte de magistrado romano, nada tem de verossímil. A cena não pode ter sido inventada, como o pretendem certos críticos, de acordo com o Sl 2,1-2, texto vago demais; antes, é sua aplicação acomodatícia, em At 4,27, que exige fato real.

[3] Veste de gala, como usavam os príncipes. Herodes quis zombar das pretensões de Jesus à realeza (v. 3).

[4] Ad. v. 17: “Mas devia, por ocasião da festa, soltar-lhes alguém”, parece glosa explicativa (cf. Mt 27,15p).

[5] Lc insiste, como Jo, no “desejo (de Pilatos) de libertar Jesus” e menciona três vezes a declaração da inocência de Jesus feita pelo procurador (cf. Jo 18,38; 19,4.6).

[6] Cf. v. 16. Lc não descreve esse castigo, que corresponde à flagelação de Mt 27,27-31p. Ao contrário de Mt e de Mc, vê nele, como Jo, um castigo preventivo, anterior à sentença e tendo por finalidade evitá-la.

[7] Segundo uso mencionado no Talmud, mulheres distintas, de Jerusalém, preparavam bebidas sedativas para levá-las aos condenados.

[8] Se é queimado o lenho verde, que não deveria ser queimado (alusão ao suplício de Jesus), o que não se fará ao lenho seco (os verdadeiros culpados)?

[9] A comparação com Mc e Mt mostra como Lc soube fazer passar pelo Calvário uma brisa de doçura: a multidão (vv. 27.35.48) é mais curiosa que hostil, e no final se arrepende (v. 48); Jesus não pronuncia as palavras de aparente desespero: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”; continua até o fim a exercer o ministério do perdão (vv. 34.39-43); expira, “entregando o espírito nas mãos” do “Pai”.

[10] Essas palavras de Jesus relembram Is 53,12. A mesma apreciação das causas da morte reaparece em At 3,17; 13,27; 1Cor 2,8. Estêvão orará no mesmo espírito (At 7,60), segundo o exemplo deixado pelo Mestre a todos os discípulos (1 Pd 2,23; cf. Mt 18,21-22+).

[11] O “mau ladrão” interpela a Jesus como “Cristo” (v. 39); o “bom ladrão” o reconhece como “Rei” (v. 42): são dois títulos, religioso e político, em redor dos quais girou todo o processo de Jesus, primeiro perante os judeus, depois diante de Pilatos.

[12] “Com (isto é, de posse de) teu reino”. – Var.: “quando vieres em teu reino”, isto é, para inaugurá-lo.

[13] Prodígios cósmicos, característicos do “Dia de Iahweh” (cf. 27,51+).

[14] “começava a luzir”: provável alusão ao costume judaico de acender as lâmpadas no começo do sábado (ao anoitecer). Outra tradução: “o sábado já despontava”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 24 do Evangelho de São Lucas

[1]Entendo o Capítulo. Chegamos ao último quadro do Evangelho: a Ressurreição. Nele, a ressurreição é demonstrada em pequenas cenas: no sepulcro vazio; na recusa de crer no testemunho das mulheres; quando Pedro vai ao sepulcro; com os discípulos de Emaús; na aparição aos apóstolos; nas últimas instruções; e na ascensão. Todo o percurso realizado, desde o primeiro Capítulo do Evangelho até o final, tem por objetivo anunciar a ressurreição. Se observarmos bem, o autor não descreve a ressurreição, apenas diz que ela ocorreu. E como o faz? Através dos fatos narrados por testemunhas confiáveis – testemunhas oculares e não testemunhas que ouviram dizer. Nas entrelinhas, São Lucas quer oferecer aos leitores de todos os tempos a certeza moral de que o núcleo da pregação não é uma fantasia, mas uma realidade segura e objetiva, que responde a todos os questionamentos humanos sobre a arte de ultrapassar, da temporalidade para a eternidade, do imanente[2] para o transcendente[3], do efêmero[4] para o definitivo.

 

VII. Após a ressurreição

24 O sepulcro vazio. Mensagem dos anjos 1No primeiro dia da semana, muito cedo ainda, elas foram ao sepulcro, levando os aromas que tinham preparado. 2Encontraram a pedra do túmulo removida, 3mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus. 4E aconteceu que, estando perplexas com isso, dois homens se postaram diante delas, com veste fulgurante. 5Cheias de medo, inclinaram o rosto para o chão; eles, porém, disseram: “Por que procurais entre os mortos aquele que vive? 6Ele não está aqui; ressuscitou. Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia:[5] 7‘É preciso que o Filho do Homem seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia’”. 8E elas se lembraram de suas palavras.

Os apóstolos recusam o testemunho das mulheres 9Ao voltarem do túmulo, anunciaram tudo isso aos Onze, bem como a todos os outros. 10Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. As outras mulheres que estavam com elas disseram-no também aos apóstolos; 11essas palavras, porém, lhes pareceram desvario, e não lhes deram crédito.

Pedro junto ao túmulo 12Pedro, contudo, levantou-se e correu ao túmulo. Inclinando-se, porém, viu apenas os lençóis. E voltou para casa, muito surpreso com o que acontecera.

Os dois discípulos de Emaús 13Eis que dois deles viajavam nesse mesmo dia para um povoado chamado Emaús, a sessenta estádios[6] de Jerusalém; 14e conversavam sobre todos esses acontecimentos. 15Ora, enquanto conversavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; 16seus olhos, porém, estavam impedidos de reconhecê-lo[7]. 17Ele lhes disse: “Que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando?” E eles pararam, com o rosto sombrio[8].

18Um deles, chamado Cléofas, lhe perguntou: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram nestes dias?” — 19“Quais?”, disse-lhes ele. Responderam: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno[9], que foi profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o povo: 20como nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel; mas, com tudo isso, faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo 23e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que haviam tido uma visão de anjos a declararem que ele está vivo. 24Alguns dos nossos[10] foram ao túmulo e encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não o viram!”

25Ele, então, lhes disse: “Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! 26Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” 27E, começando por Moisés e percorrendo todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.

28Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram, dizendo: “Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”. Entrou então para ficar com eles. 30E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e deu-o a eles. 31Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém, ficou invisível diante deles. 32E disseram um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?”

33Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros, 34que disseram: “É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35E eles narraram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na fração do pão[11].

Jesus aparece aos apóstolos 36Falavam ainda, quando ele próprio se apresentou no meio deles e disse: “A paz esteja convosco!” 37Tomados de espanto e temor, imaginavam ver um espírito. 38Mas ele disse: “Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas em vossos corações? 39Vede minhas mãos e meus pés: sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. 40Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés.[12] 41E como, por causa da alegria, não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos, disse-lhes: “Tendes o que comer?” 42Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. 43Tomou-o, então, e comeu-o diante deles.

Últimas instruções aos apóstolos 44Depois[13] disse-lhes: “São estas as palavras que eu vos falei, quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. 45Então abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras, 46e disse-lhes: “Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, 47e que, em seu Nome, fosse proclamado o arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. 48Vós sois testemunhas disso.

49Eis que eu enviarei sobre vós o que meu Pai prometeu[14]. Por isso, permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto”.

A ascensão 50Depois, levou-os até Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. 51E enquanto os abençoava, distanciou-se deles e era elevado ao céu[15]. 52Eles ficaram prostrados diante dele[16], e depois voltaram a Jerusalém com grande alegria, 53e estavam continuamente no Templo, louvando a Deus[17].

Bíblia de Jerusalém – Todos os direitos reservados.

Medito o Capítulo. O grande grito deste Capítulo é: Deus é fiel! E, nas nossas assembleias, este é o grito que deve ecoar: Deus é fiel! Por mais que possa parecer que o sofrimento e a morte são vitoriosos, devemos fazer ecoar o nosso grito: Deus é fiel! Pois a convicção de que Deus é fiel nos fará caminhar na direção do Mar Vermelho, na direção da dor, do sofrimento e da morte, com serenidade e sem perder a capacidade de ajudar os demais; tudo isso, sem perder os valores universais que habitam o coração de um cristão. Este grito é transcrito por outro: Ressuscitar é obra de cada dia! Sim. A certeza da ressurreição de Jesus Cristo faz com que possamos enfrentar aquilo que aparentemente nos destrói, nos fere e nos arranca a alegria de viver. A ressurreição de Jesus Cristo é, portanto, a lâmpada que faz com que prossigamos a marcha na direção acordada, mesmo com os pés vacilantes. A ressurreição é a força que capacita a nossa vontade, que dá ânimo ao nosso querer, que concretiza a nossa esperança e que viabiliza a ação da caridade em qualquer situação.

Vivo o Capítulo. O Capítulo de hoje nos convida a um testemunho de alegria – não porque em nossas vidas tudo está dando certo, mas porque Deus é fiel! – É uma alegria que nasce da certeza da fidelidade de Deus às suas promessas. Alegria, que brota da consciência de pertencer ao grupo dos filhos amados de Deus. Alegria que é capaz de durar, mesmo em meio às tristezas desta vida. Uma alegria vivida de uma forma singela, em meio às tribulações. É testemunho da força curativa da ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição de Jesus Cristo provoca em todos os seus discípulos uma alegria incomensurável, pois a vida não conhece mais fim e a história não é um absurdo, mas a estrada que conduz à plena realização humana. Assim sendo, a alegria dos discípulos consiste num verdadeiro testemunho de Jesus Cristo ressuscitado. Ser mensageiro desta alegria é dar aos outros um sinal inequívoco do Reino de Deus presente e atuante na história. Sim, ser hoje testemunhas alegres da doutrina de Jesus Cristo é ser mensageiros da Boa Nova!

[1]

[2] i·ma·nen·te (latim immanens, -entis, particípio presente de immaneo, -ere, ficar, parar em) adjetivo de dois gêneros 1. Inseparável do sujeito. = INERENTE 2. Que tem motivação ou efeito interior. 3. Que não desaparece ou não se vai. = CONSTANTE, PERDURÁVEL, PERMANENTE 4. [Filologia] Que é relativo ao concreto, ao material ou ao domínio da experiência possível, por oposição a transcendente. “imanente”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/imanente [consultado em 26-06-2014].

[3] trans·cen·den·te adjetivo de dois gêneros 1. Sublime. 2. Superior que está acima das ideias e conhecimentos ordinários. 3. Que excede os limites ordinários. 4. Que se ocupa das questões mais elevadas. “transcendente”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/transcendente [consultado em 26-06-2014].

[4] e·fê·me·ro (grego efêmeros, -os, -on, que dura um dia) adjetivo 1. Que dura só um dia. 2. [Figurado] De curta duração. = BREVE, PASSAGEIRO, TEMPORÁRIO, TRANSITÓRIO ≠ DURADOURO, PERMANENTE substantivo masculino 3. [Botânica] Planta da família das primuláceas. 4. [Entomologia] Inseto nevróptero cuja vida em estado completo é de curta duração. “efêmero”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/ef%C3%AAmero [consultado em 26-06-2014].

[5] Lc, não querendo falar das aparições na Galileia, modifica Mc 16,7, como omitira Mc 14,28.

[6] Var. menos garantida: “cento e sessenta”. – A identificação deste povoado é discutida. O relato que segue distingue-se de outros que contam as aparições do Ressuscitado, e se assemelha à história de Filipe e do eunuco, At 8,26-40: nos dois casos, a perplexidade inicial é resolvida pela instrução, e cada relato termina com ação sacramental.

[7] Nas aparições narradas por Lc e Jo, os discípulos não reconhecem o Senhor no primeiro instante, mas somente após uma palavra ou um sinal (cf. Lc 24,30s.35.37.39-43; Jo 20,14.16.20; 21,4.6-7; comparar Mt 28,17). A razão disso é que, permanecendo inteiramente idêntico a si mesmo, o corpo do Ressuscitado encontra-se num estado novo, que modifica sua forma exterior (Mc 16,12) e o liberta das condições sensíveis deste mundo (Jo 20,19). Quanto ao estado dos corpos gloriosos, cf. 1Cor 15,44+.

[8] Var.: “A respeito de que conversais assim pelo caminho, que tendes o rosto sombrio?”

[9] Var.: “o Nazareu”.

[10] Ou plural de generalização (v. 12), ou alusão à visita feita por Pedro e João juntos, narrada por Jo 20,3-10.

[11] Ao empregar aqui o termo técnico que retomará nos Atos (At 2,42+), Lc pensa sem dúvida na eucaristia.

[12] Lc, escrevendo para os gregos, que consideravam absurda a ideia da ressurreição, insiste na realidade física do corpo de Jesus ressuscitado (cf. v. 43).

[13] Tudo parece acontecer no mesmo dia, o da ressurreição. At 1,1-8, ao contrário, supõe um período de quarenta dias.

[14] Isto é, o Espírito Santo (cf. At 1,4s; 2,33.39; Gl 3,14.22; 4,6; Ef 1,13; Jo 1,33+).

[15] Om: “e era elevado ao céu”. Essa omissão evita mencionar uma ascensão no próprio dia da ressurreição, que parece contradizer At 1,3.9; que a situa quarenta dias mais tarde.

[16] Om: “se prostraram diante dele”.

[17] O evangelho de Lc termina no Templo onde começara, com a alegria e com o louvor divinos.