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Capítulo 25 dos Atos dos Apóstolos
Entendo o Capítulo. Neste Capítulo, encontramos apenas dois julgamentos de Paulo: um perante Festo; e a apelação à César, perante Herodes Agripa II e Berenice. Em ambos, Paulo afirma ser um judeu piedoso, mas que acredita na ressurreição dos mortos, por ter encontrado, vivo, Jesus Cristo, que fora morto pelos judeus. Paulo, vendo que não conseguirá fugir do favoritismo dos administradores romanos pelos judeus, apela para César. Contudo, ele vê, em tudo isso, muito mais do que uma estratégia humana à ação de Deus para conduzi-lo à Roma, para que anuncie o Evangelho da graça.
25 Paulo apela para César — 1Três dias depois de sua chegada à província[1], Festo subiu de Cesareia a Jerusalém. 2Logo os chefes dos sacerdotes e os mais notáveis dentre os judeus se constituíram, diante dele, acusadores de Paulo[2]. E ao mesmo tempo solicitaram-lhe, 3pedindo como especial favor, mas em detrimento de Paulo, que o transferisse para Jerusalém: é que preparavam uma emboscada para o matarem durante o trajeto. 4Mas Festo respondeu que Paulo encontrava-se preso em Cesareia, e que ele mesmo partiria muito em breve para lá. 5E completou: “Aqueles dentre vós que detêm o poder desçam comigo. E se há algo de irregular nesse homem, apresentem acusação contra ele”.
6Tendo, pois, passado entre eles não mais de oito ou dez dias, desceu a Cesareia. No dia seguinte, sentando-se no tribunal, mandou trazer Paulo. 7Quando este compareceu, os judeus que haviam descido de Jerusalém o rodearam, aduzindo muitas e graves acusações, as quais, porém, não podiam provar. 8Paulo, defendendo-se, dizia: “Não cometi falta alguma contra a Lei dos judeus, nem contra o Templo, nem contra César”. 9Então Festo, querendo agradar aos judeus, dirigiu-se a Paulo: “Queres subir a Jerusalém, para lá, em minha presença, seres julgado a respeito destas coisas?” 10Paulo, porém, replicou: “Estou perante o tribunal de César, e é aqui que devo ser julgado. Nenhum crime pratiquei contra os judeus, como tu perfeitamente reconheces. “Mas, se de fato cometi injustiça, ou pratiquei algo que mereça a morte, não recuso morrer. Se, ao contrário, não há nada daquilo de que me acusam, ninguém pode entregar-me a eles. Apelo para César![3]” 12Então Festo, depois de ter conferenciado com o seu conselho, respondeu: “Para César apelaste, a César irás!”
Paulo comparece perante o rei Agripa — 13Passados alguns dias, o rei Agripa e Berenice[4] vieram a Cesareia e foram saudar Festo. 14Como se demorassem ali por mais tempo, Festo expôs ao rei o caso de Paulo: “Há um homem aqui, disse ele, a quem Félix deixou detido. 15Estando eu em Jerusalém, os chefes dos sacerdotes e anciãos dos judeus apresentaram queixas contra ele, pedindo a sua condenação. 16Respondi-lhes, porém, que não é costume dos romanos entregar um homem antes que ele, quando acusado, possa confrontar seus acusadores e tenha meios de defender-se da acusação. 17Vindo eles junto comigo para cá, já no dia seguinte sentei-me no tribunal, sem dilação alguma, e mandei trazer o homem. 18Comparecendo perante ele, seus acusadores não aduziram nenhuma acusação de crimes de que eu pudesse suspeitar. 19Tinham somente certas questões sobre sua própria religião e a respeito de certo Jesus, já morto, e que Paulo afirma estar vivo. 20Estando eu perplexo quanto à investigação dessas coisas, perguntei-lhe se preferia ir a Jerusalém, para lá ser julgado. 21Mas Paulo interpôs apelação, para que sua causa fosse reservada ao juízo de Augusto[5]. Ordenei, pois, que ficasse detido, até que eu possa enviá-lo a César”. 22Disse então Agripa a Festo: “Eu também quisera ouvir este homem”[6]. E Festo: “Amanhã o ouvirás”.
23De fato, no dia seguinte, Agripa e Berenice vieram com grande pompa e foram à sala de audiências, junto com os tribunos e as personalidades importantes da cidade. A uma ordem de Festo, trouxeram Paulo. 24Festo disse então: “Rei Agripa, e vós todos conosco aqui presentes, estais vendo este homem, por causa do qual toda a comunidade dos judeus recorreu a mim tanto em Jerusalém como aqui, clamando que ele não deve continuar a viver. 25Eu, porém, averiguei que nada fez que mereça a morte. Contudo, como ele mesmo apelou para o Imperador Augusto, decidi enviá-lo. 26Acontece que nada tenho de concreto, sobre ele, para escrever ao Soberano[7]. Por isso, faço-o comparecer diante de vós, sobretudo diante de ti, rei Agripa, a fim de que, feita a arguição, eu tenha o que escrever. 27Pois me parece absurdo enviar um detido sem também notificar as acusações movidas contra ele”.
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Medito o Capítulo. Descobrir a vontade de Deus, em meio aos acontecimentos do cotidiano, consiste na maior graça da vida de um cristão. Ao contrário, quando não conseguimos, nos sentimos perdidos e os sofrimentos tornam-se mais pesados e doloridos. A busca da vontade de Deus naquilo que nos acontece consiste no foco do viver cristão. O cristão encontra sentido na vida a partir da vontade de Deus, é ela que o faz vislumbrar o futuro que ele busca e que realiza as promessas de Deus. Essa visualização faz nascer a esperança de um novo amanhã no coração do cristão, pois os sofrimentos da vida presente não podem diminuir e nem mesmo arrancar de nosso coração.
Vivo o Capítulo. Para descobrir a vontade de Deus, necessitamos investir em algumas coisas: A primeira delas é na oração, quer seja comunitária ou pessoal e, ainda, silenciosa ou vocal. Rezar sempre nos aproxima de Deus; rezar fortifica e faz crescer a nossa intimidade com ele. Em seguida, a meditação da palavra de deus, quer seja na leitura do Capítulo Diário ou na meditação das leituras da Santa Missa. E, finalmente, ao receber os sacramentos e no serviço ao próximo: encontramos Jesus na Hóstia Sagrada e no irmão necessitado. Para conhecer a vontade de Deus, necessitamos de intimidade divina, que é fruto de uma intensa vida interior. Hoje poderíamos, a cada momento, repetir de maneira silenciosa: Faço isso, Jesus só para dizer que te amo.
[1] “depois de assumir sua função”.
[2] Mesmo procedimento jurídico que em 24,1 (cf. 25,15).
[3] Paulo quer subtrair-se de uma jurisdição local que já tomou partido contra ele, reclamando audiência imparcial diante do tribunal imperial em Roma.
[4] Agripa, Berenice e Drusila (cf. 24,24) eram três filhos de Agripa I (cf. 12,1+). Agripa II, o mais velho, nascera em 27. Sua irmã Berenice vivia então com ele, o que era causa de comentários; ela se encontrará mais tarde ao lado de Tito. Quanto aos territórios governados por Agripa II, ver o Quadro cronológico, no fim do volume (a partir do ano 48).
[5] Como “César”, “Augusto” (também no v. 25) era um título do imperador reinante (na ocasião, Nero: 54-68).
[6] Lit. “o Senhor”, designação do Imperador, considerado como o detentor de poder real absolto e universal, e que gozava, assim, de prerrogativa mais ou menos divina.
[7] Lit. “o Senhor”, designação do Imperador, considerado como o detentor de poder real absoluto e universal, e que gozava, assim, de prerrogativa mais ou menos divina.
Capítulo 26 dos Atos dos Apóstolos
Entendo o Capítulo. Agora Paulo se encontra na iminência de cumprir a vontade de Deus, indo para Roma. Para isso, ele terá, ainda, de defender-se perante Agripa e Festo. O conteúdo do discurso de Paulo consiste no mesmo dos discursos anteriores, ou seja: Paulo afirma estar cumprindo uma ordem de Deus, recebida numa visão, acontecida na estrada de Damasco. Nesse contexto, ele não deixa de afirmar que permanece um judeu fiel aos ensinamentos do judaísmo, mas que cumpre uma ordem de Deus, que lhe manda anunciar a ressurreição dos mortos. Naturalmente, os administradores romanos não se sentem competentes para julgar uma causa religiosa e consentem em atender o pedido de Paulo, de ser julgado pelo imperador. Assim, o enviam para Roma.
26 1Dirigindo-se a Paulo, disse Agripa: “Tens permissão de falar em teu favor”. Então, estendendo a mão, começou Paulo a sua defesa:
Discurso de Paulo perante o rei Agripa[1] — 2“Considero-me feliz, ó rei Agripa, por poder hoje, diante de ti, defender-me de todas as coisas de que pelos judeus sou acusado. 3Tanto mais porque[2] estás ao corrente de todos os costumes e controvérsias dos judeus, razão também pela qual te peço que me escutes com paciência.
4O que foi o meu modo de viver, desde a mocidade, como transcorreu desde o início, no meio do meu povo e em Jerusalém, sabem-no todos os judeus. 5Eles me conhecem de longa data e podem atestar, se quiserem, que tenho vivido segundo a seita mais severa de nossa religião, como fariseu. 6E agora, estou sendo aqui julgado por causa da esperança na promessa feita por Deus aos nossos pais, 7à qual esperam chegar as nossas doze tribos, que servem a Deus noite e dia, com todo ardor[3]. É por causa dessa esperança, ó rei, que pelos judeus sou acusado. 8Entretanto, por que se julga incrível, entre vós, que Deus ressuscite os mortos[4]?
9Quanto a mim, parecia-me necessário fazer muitas coisas contra o nome de Jesus, o Nazareu. 10Foi o que fiz em Jerusalém: a muitos dentre os santos eu mesmo encerrei nas prisões, recebida a autorização dos chefes dos sacerdotes; e, quando eram mortos, eu contribuía com o meu voto. 11Muitas vezes, percorrendo todas as sinagogas, por meio de torturas quis forçá-los a blasfemar; e, no excesso do meu furor, cheguei a persegui-los até em cidades estrangeiras.
12Com este intuito encaminhei-me a Damasco, com a autoridade e a permissão dos chefes dos sacerdotes. 13No caminho, pelo meio-dia, eu vi, ó rei, vinda do céu e mais brilhante que o sol, uma luz que circundou a mim e aos que me acompanhavam. 14Caímos todos por terra, e ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: ‘Saul, Saul, por que me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão[5].’15Perguntei: ‘Quem és, Senhor?’ E o Senhor respondeu: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. 16Mas levanta-te e fica firme em pé, pois, este é o motivo por que te apareci: para constituir-te servo e testemunha da visão na qual me viste e daquelas nas quais ainda te aparecerei. 17Eu te livrarei do povo e das nações gentias, às quais te envio 18para lhes abrires os olhos e assim se converterem das trevas à luz[6], e da autoridade de Satanás para Deus. De tal modo receberão, pela fé em mim, a remissão dos pecados[7] e a herança entre os santificados’.
19Quanto a mim, rei Agripa, não me mostrei rebelde à visão celeste. 20Ao contrário, primeiro aos habitantes de Damasco, aos de Jerusalém e em toda a região da Judeia, e depois aos gentios, anunciei o arrependimento e a conversão a Deus, com a prática de obras dignas desse arrependimento. 21É por causa disso que os judeus, tendo-se apoderado de mim no Templo tentaram matar-me. 22Tendo alcançado, porém, o auxílio que vem de Deus, até o presente dia continuo a dar o meu testemunho diante de pequenos e de grandes, nada mais dizendo senão o que os Profetas e Moisés disseram que havia de acontecer: 23que o Cristo devia sofrer e que, sendo o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, anunciaria a luz ao povo e aos pagãos”.
Reações do auditório — 24Dizendo ele estas coisas em sua defesa, Festo o interrompeu em alta voz: “Estás louco, Paulo: teu enorme saber te levou à loucura[8]”. 25Paulo, porém, retrucou: “Não estou louco, excelentíssimo Festo, mas são palavras de verdade e de bom senso que profiro. 26Pois destas coisas tem conhecimento o rei, ao qual me dirijo com toda a audácia, persuadido de que nada disto lhe é estranho. Aliás, não foi num recanto remoto que isto aconteceu[9]. 27Crês nos profetas, rei Agripa? Eu sei que tu crês”. 28Agripa então retorquiu a Paulo: “Ainda um pouco e, por teus raciocínios, fazes de mim um cristão[10]!” 29E Paulo: “Eu pediria a Deus que, por pouco ou por muito[11], não só tu, mas todos os que me escutam hoje, vos tornásseis tais como eu sou, com exceção destas correntes!”
30Levantou-se o rei, assim como o governador, Berenice e os que estavam sentados com eles. 31Ao se retirarem, falavam entre si: “Um homem como este nada pode ter feito que mereça a morte ou a prisão”. 32E Agripa concluiu, dizendo a Festo: “Este homem bem poderia ser solto, se não tivesse apelado para César”.
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Medito o Capítulo. A incapacidade humana é a oportunidade para que a graça de Deus possa agir em nossa vida. Quando os limites humanos se apresentam, abre-se o espaço para que a ação de Deus atue de forma clara e invencível. Na história, aqueles que vivem da fé, na presença de Deus, devem saber que a incapacidade humana não é um obstáculo para Deus, mas uma oportunidade para que Deus demonstre sua misericórdia para com a humanidade. Sem a fé, que ilumina as trevas da vida, as incapacidades humanas são vistas como obstáculos intransponíveis e que dificultam a ação divina. Somente com a fé podemos tocar a vontade de Deus e compreendê-la como fonte de salvação para todos.
Vivo o Capítulo. A visão é fruto do amor. Quanto mais se ama a Deus, mais se consegue enxergar os seus propósitos. O contrário também é verdade: quanto menos se ama a Deus menos ainda se deseja conhecer os seus desígnios. O amor possui uma das mais fascinantes capacidades das virtudes, a de nos fazer entregar à causa ou à pessoa amada. Se amamos a Deus, logo sentimos em nosso interior o desejo de nos entregar à sua vontade. Para o amante do desejo do amado, consiste numa ordem. Por isso, ele vive buscando fazer a vontade do amado, pois a sua felicidade consiste em ver o amado feliz. Para amar a Deus necessitamos apenas cumprir os seus mandamentos e isso será o suficiente para que Deus nos revele o seu plano de amor. Por isso, dedicamos a nossa vida em fazer o que Jesus faria, para conhecer a vontade de Deus e colaborar com ela para que o Reino aconteça.
[1] Após exórdio lisonjeiro (vv. 2-3, cf. 24,2-3.10), Paulo proclama a perfeita conformidade da sua fé cristã com a crença farisaica na ressurreição (vv. 4-8, cf. 23,6+); narra, em seguida, as circunstâncias de sua conversão (vv. 9-18, cf. 9,1-18; 22,3-16); termina com resumo de sua pregação, que anuncia o cristianismo apenas como cumprimento das Escrituras (vv. 19-23; cf. 13,15-47). Nas entrelinhas da disputa em ato, transparece toda a questão das relações entre judaísmo e cristianismo (cf. 24,14+).
[2] Outra tradução: “E isto porque, mais do que ninguém”.
[3] A esperança messiânica se concretiza na crença na ressurreição dos justos, destinados a tomarem parte no Reino do fim dos tempos (cf. Dn 12,1-3; 2Mc 7,9+). Esta esperança começou a realizar-se com a ressurreição de Cristo, que se torna assim o fundamento da esperança cristã (1Cor 15,15-22; Cl 1,18).
[4] Var.: dos vv. 7-8: “esta promessa, pela qual as nossas doze tribos prestam a Deus, dia e noite, um culto perseverante, com a esperança de ver a sua realização; é por ela que sou agora acusado pelos judeus, isto é, que Deus ressuscita os mortos”.
[5] Expressão proverbial entre os gregos para indicar resistência inútil, como a do boi que, recalcitrando contra o aguilhão, não consegue senão ferir-se.
[6] A missão de Paulo é aqui descrita por meio de traços bíblicos que caracterizam as grandes missões proféticas: a de Jeremias e a do Servo de Iahweh.
[7] Em 9,17-18, Paulo passa das trevas à luz, ao recobrar a vista. Em 22,16 (cf. 9,18), Paulo deve purificar-se de seus pecados, recebendo o batismo. Assim, o que ele experimentou, em si mesmo, torna-se símbolo de sua missão para com os outros.
[8] Festo fica aturdido com a erudição bíblica de Paulo e também, sem dúvida, com a maneira judaica de argumentar. Agripa, por sua vez, cala-se, perceptivelmente abalado. Ver sua resposta evasiva no v. 28.
[9] Trata-se dos fatos pelos quais se cumprem as Escrituras (v. 23): a paixão e a ressurreição de Jesus, e a extensão da pregação apostólica. Tudo isto é de notoriedade pública.
[10] A palavra tem ainda valor de alcunha (cf. 11,26+). – Var.: “Ainda um pouco, e tu te persuades de ter-me feito cristão!”
[11] Jogo de palavras sobre o “ainda um pouco” de Agripa.
Capítulo 27 dos Atos dos Apóstolos
Entendo o Capítulo. Com esse Capítulo iniciamos a última etapa do livro dos atos, denominada por “A necessidade do testemunho de Paulo em Roma”. O seu conteúdo consiste na viagem marítima de Paulo e sua equipe à Roma. O autor narra as dificuldades encontradas pelos viajantes nos mares e, ao mesmo tempo, a sua fé e confiança em Deus. Os relatos deixam antever a liderança de Paulo entre os marinheiros e os soldados. Sua fé, iluminada pela vontade de Deus, o leva a revelar que nada iria acontecer aos integrantes do navio, pois Deus o queria em Roma.
27 Partida para Roma — 1Ao ser decidido o nosso[1] embarque para a Itália, entregaram Paulo e alguns outros presos a um centurião chamado Júlio, da coorte Augusta. 2Subimos a bordo de um navio de Adramítio que ia partir para as costas da Ásia, e zarpamos. Estava conosco Aristarco, macedônio de Tessalônica. 3No dia seguinte, aportamos em Sidônia. Tratando Paulo com humanidade, Júlio permitiu-lhe ver os amigos e receber deles assistência. 4Partindo dali, navegamos rente à ilha de Chipre, por serem contrários os ventos. 5A seguir, tendo atravessado o mar ao longo da Cilícia e da Panfília, desembarcamos em Mira, na Lícia, ao fim de quinze dias[2]. 6Ali encontrou o centurião um navio alexandrino de partida para a Itália, e para ele nos transferiu.
7Durante vários dias navegamos lentamente, chegando com dificuldade à altura de Cnido. O vento, porém, não nos permitiu aportar. Velejamos rente a Creta, junto ao cabo Salmone 8e, costeando-a com dificuldade, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual está a cidade de Lasaia.
A tempestade e o naufrágio — 9Tendo transcorrido muito tempo, a navegação já se tornava perigosa, também porque já tinha passado o Jejum[3]. Paulo, então, tentou adverti-los: 10“Amigos, vejo que a viagem está em vias de consumar-se com muito dano e prejuízo, não só da carga e do navio, mas também de nossas vidas”. 11O centurião, porém, deu mais crédito ao piloto e ao armador do que ao que Paulo dizia. 12O porto, aliás, não era próprio para se invernar. A maioria, pois, foi de opinião que se devia zarpar dali, para ver se poderiam chegar à Fênix. Este é um porto de Creta, ao abrigo dos ventos sudoeste e noroeste. Ali poderiam passar o inverno.
13Tendo soprado brandamente o vento sul, pensaram ter alcançado o que pretendiam: levantaram âncora e puseram-se a costear Creta mais de perto. 14Não muito depois, desencadeou-se do lado da ilha um vento em turbilhão, chamado Euroaquilão. 15O navio foi arrastado violentamente, incapaz de resistir ao vento: deixamo-nos, então, derivar. 16Passando rente a uma ilhota, chamada Cauda, com dificuldade conseguimos recolher o escaler. 17Após tê-lo içado, os tripulantes usaram de recursos de emergência, cingindo o navio com cabos. Contudo, temendo encalhar na Sirte, soltaram a âncora flutuante, e assim deixaram-se derivar. 18No dia seguinte, como fôssemos furiosamente batidos pela tempestade, começaram a alijar a carga. 19No terceiro dia, com as próprias mãos, lançaram ao mar até os apetrechos do navio. 20Nem sol nem estrelas haviam aparecido por vários dias, e a tempestade mantinha sua violência não pequena: afinal, dissipava-se toda a esperança de nos salvarmos.
21Havia muito tempo não tomávamos alimento[4]. Então Paulo, de pé, no meio deles, assim falou: “Amigos, teria sido melhor terem-me escutado e não sair de Creta, para sermos poupados deste perigo e prejuízo. 22Apesar de tudo, porém, exorto-vos a que tenhais ânimo: não haverá perda de vida alguma dentre vós, a não ser a perda do navio. 23Pois esta noite apareceu-me um anjo do Deus ao qual pertenço e a quem adoro, 24o qual me disse: ‘Não temas, Paulo. Tu deves comparecer perante César[5], e Deus te concede a vida de todos os que navegam contigo’. 25Por isso, reanimai-vos, amigos! Confio em Deus que as coisas ocorrerão segundo me foi dito. 26É preciso, porém, que sejamos arremessados a uma ilha”.
27Quando chegou a décima quarta noite, continuando nós a sermos batidos de um lado para outro no Adriático[6], pela meia-noite os marinheiros perceberam que se aproximava alguma terra. 28Lançaram então a sonda e deu vinte braças; avançando mais um pouco, lançaram novamente a sonda e deu quinze braças. 29Receosos de que fôssemos dar em escolhos[7], soltaram da popa quatro âncoras, anelando[8] porque rompesse o dia. 30Entretanto, os marinheiros tentaram fugir do navio: desceram, pois, o escaler ao mar, a pretexto de irem largar as âncoras da proa. 31Mas Paulo disse ao centurião e aos soldados: “Se eles não permanecerem a bordo, não podereis salvar-vos!” 32Então os soldados cortaram as cordas do escaler e deixaram-no cair.
33À espera de que o dia raiasse, Paulo insistia com todos para que tomassem alimento. E dizia: “Hoje é o décimo quarto dia em que, na expectativa, ficais em jejum, sem nada comer. 34Por isso, peço que vos alimenteis, pois é necessário para a vossa saúde. Ora, não se perderá um só cabelo da cabeça de nenhum de vós!” 35Tendo dito isto, tomou o pão, deu graças a Deus diante de todos, partiu-o e pôs-se a comer[9]. 36Então, reanimando-se todos, também eles tomaram alimento. 37Éramos no navio, ao todo, duzentas e setenta e seis pessoas. 38Tendo-se alimentado fartamente, puseram-se a aliviar o navio, atirando o trigo ao mar.
39Quando amanheceu, os tripulantes não reconheceram a terra. Divisando, porém, uma enseada com uma praia, consultaram entre si, a ver se poderiam impelir o navio para lá. 40Desprenderam então as âncoras, abandonando-as ao mar. Ao mesmo tempo soltaram as amarras dos lemes e, içando ao vento a vela da proa, dirigiram o navio para a praia. 41Mas, tendo-se embatido num banco de areia, entre duas correntes de água, o navio encalhou. A proa, encravada, ficou imóvel, enquanto a popa começou a desconjuntar-se pela violência das ondas.
42Veio, então, aos soldados o pensamento de matar os prisioneiros, para evitar que algum deles, a nado, escapasse. 43Mas o centurião, querendo preservar Paulo, opôs-se a este desígnio. E mandou, aos que sabiam nadar, que saltassem primeiro e alcançassem terra. 44Quanto aos outros, que os seguissem agarrados a pranchas, ou sobre quaisquer destroços do navio. Foi assim que todos chegaram, sãos e salvos, em terra.
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Medito o Capítulo. As tempestades são uma constante em nossa vida. O que devemos fazer quando nos deparamos em meio a elas? No Capítulo encontramos a receita para o comportamento cristão em meio às tempestades: Devemos nos recordar das promessas de Deus para nós. Dentre elas, podemos iniciar com aquela feita por Jesus: “Eu estarei sempre convosco” (Mt 17,17; Mc 9,19; Lc 9,41); “No mundo tereis tribulações, mas coragem eu venci o mundo” (Jo 16,33) e, ainda, as palavras do salmo: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” (Sl 23,1), e assim por diante. Finalmente, também devemos nos alimentar da Santíssima Eucaristia, porque ela nos dá coragem nas tribulações da vida.
Vivo o Capítulo. O conhecimento das promessas de Deus para os seus filhos muito ajudará a enfrentar as tempestades do dia a dia. Por isso, urge uma leitura atenta da Sagrada Escritura, para descobrir e gravar em nosso coração as promessas de Deus. Pois é a partir das promessas de Deus, que nasce a esperança em nosso interior. A missão da esperança é fortificar a nossa perseverança na labuta, para alcançar os bens prometidos por Deus. Contudo, a força que alimenta a nossa capacidade de luta vem da Santíssima Eucaristia. Por isso, sempre aconselhei as famílias, se possível, a comungarem todos os dias. Pois na Comunhão encontramos a força necessária para enfrentar as tempestades, para chegarmos ao porto com segurança.
[1] A exatidão da narrativa dá a impressão de minucioso diário de viagem.
[2] “ao fim de quinze dias”, texto oc.
[3] Outro nome da festa da Expiação, único dia de jejum prescrito pela Lei (Lv 16,29-31). Celebrava-se em setembro, perto do equinócio do outono europeu. A estação aberta para a navegação mediterrânea durava do fim de maio até a metade de setembro; da metade de setembro até a metade de novembro, a navegação era possível, mas perigosa.
[4] Só a segunda intervenção de Paulo (vv. 33s) responderá a esta observação. O teor da primeira (vv. 21.26) parece mal adaptado ao contexto e antecipa em parte a segunda.
[5] Diante do tribunal imperial, não diante do próprio Nero.
[6] Assim era designada toda a parte do Mediterrâneo situada entre a Grécia, a Itália e a África.
[7] es·co·lho |ô| substantivo masculino 1. Penhasco que está de todo escondido ou só à superfície do mar. 2. [Figurado] Perigo; obstáculo. “escolhos”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/escolhos [consultado em 05-08-2020].
[8] a·ne·lar 1 – (latim anhelo, -are) verbo transitivo 1. Respirar com dificuldade. 2. [Figurado] Desejar ardentemente. = ALMEJAR, ANSIAR, ASPIRAR “anelando”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/anelando [consultado em 14-08-2019].
[9] Ad. oc.: “dando-o também a nós”. – Todo judeu, no momento de tomar uma refeição, pronunciava uma bênção. Mas os termos empregados por Lucas parecem evocar o rito eucarístico (cf. 2,42+).
Capítulo 28 dos Atos dos Apóstolos
Entendo o Capítulo. O último Capítulo do Livro dos Atos contém a chegada de Paulo à Roma e o seu ministério nessa cidade. Ao relatar que os cristãos foram acolher Paulo no porto, o autor do livro deixa claro que Paulo gozava de boa fama entre os cristãos e judeus da cidade eterna. Ainda, fica explícito que a igreja formada por Paulo é, em sua maioria, formada por não judeus, não porque Paulo havia deixado o judaísmo, mas porque os judeus que vivem na Palestina recusaram a mensagem do Evangelho, forçando a Paulo a pregar aos não judeus. Lucas termina o seu escrito deixando claro o cumprimento das promessas de Deus ou seja: a universalização da pregação do Evangelho.
28 Permanência em Malta — 1Estando já a salvo, soubemos que a ilha se chamava Malta. 2Os nativos trataram-nos com extraordinária humanidade, acolhendo a todos nós junto a uma fogueira que tinham acendido. Isto, por causa da chuva que caía, e do frio. 3Tendo Paulo ajuntado uma braçada de gravetos e atirando-os à fogueira, uma víbora, fugindo ao calor, prendeu-se à sua mão. 4Quando os nativos viram o animal pendente de sua mão, disseram uns aos outros: “Certamente este homem é um assassino; pois acaba de escapar ao mar, mas a vingança divina[1] não o deixa viver”. 5Ele, porém, sacudindo o animal ao fogo, não sofreu mal algum. 6Quanto a eles, esperavam que Paulo viesse a inchar, ou caísse morto de repente. Mas, depois de muito esperar, ao verem que não lhe acontecia nada de anormal, mudando de parecer puseram-se a dizer que ele era um deus.
7Nas vizinhanças daquele local estava a propriedade do Primeiro da ilha, chamado Públio. Este nos recebeu e nos hospedou benignamente durante três dias. 8Acontece que o pai de Públio estava acamado, ardendo em febre e com disenteria. Paulo foi vê-lo, orou e impôs-lhe as mãos, e o curou. 9Diante disso, também os outros doentes que se encontravam na ilha vieram ter com Paulo e foram curados. 10Cumularam-nos, então, com muitos sinais de estima; e, quando estávamos para partir, nos proveram de tudo o que nos era necessário.
De Malta a Roma — 11Ao fim de três meses, embarcamos num navio que havia passado o inverno na ilha; era de Alexandria, e tinha como insígnia os Dióscuros[2]. 12Tendo aportado em Siracusa, aí ficamos três dias. 13De lá, seguindo a costa, chegamos a Régio. No dia seguinte, soprou o vento do Sul, e em dois dias chegamos a Putéoli[3]. 14Encontrando ali alguns irmãos, tivemos o consolo de ficar com eles sete dias. E assim foi que chegamos a Roma.
15Os irmãos desta cidade, tendo ouvido falar a nosso respeito, vieram ao nosso encontro até o Foro de Ápio e Três Tabernas. Ao vê-los, Paulo deu graças a Deus e sentiu-se encorajado. 16Depois de chegarmos a Roma, foi permitido a Paulo morar em casa particular, junto com o soldado que o vigiava[4].
Tomada de contato com os judeus de Roma[5] — 17Três dias após, convocou os principais dentre os judeus. Tendo eles comparecido, assim falou-lhes: “Meus irmãos, embora nada tenha feito contra nosso povo, nem contra os costumes dos nossos pais, desde Jerusalém vim preso e como tal fui entregue às mãos dos romanos. 18Tendo-me interrogado judicialmente, eles quiseram soltar-me, porque nada havia em mim que merecesse a morte. 19Como, porém, os judeus se opunham, fui constrangido a apelar para César, não porém como se tivesse algo de que acusar minha nação[6]. 20Por esse motivo é que pedi para ver-vos e falar-vos, pois é por causa da esperança de Israel que estou carregado com esta corrente”.
21Eles então disseram-lhe[7]: “Quanto a nós, não recebemos a teu respeito carta alguma da Judeia, e nenhum dos irmãos que aqui chegaram comunicou ou relatou algo de mal acerca de ti. 22Desejamos, porém, ouvir de tua boca o que pensas; por que, relativamente a esta seita, é de nosso conhecimento que ela encontra em toda parte contradição”.
Declaração de Paulo aos judeus de Roma[8] — 23Marcaram um dia, pois, com ele, e vieram em maior número encontrá-lo em seu alojamento. Ele lhes fez uma exposição, dando testemunho do Reino de Deus e procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela Lei de Moisés quanto pelos Profetas. Isto, desde a manhã até a tarde. 24Uns se deixaram persuadir pelo que ele dizia; outros, porém, recusavam-se a crer. 25Estando assim discordantes entre si, eles se despediram, enquanto Paulo dizia uma só palavra[9]: “Bem falou o Espírito Santo a vossos pais, por meio do profeta Isaías, quando disse: 26Vai ter com este povo e dize-lhe: em vão escutareis, pois não compreendereis; em vão olhareis, pois não vereis. 27É que o coração deste povo se endureceu: eles taparam os ouvidos e vendaram os olhos, para não verem com os olhos, nem ouvirem com os ouvidos, nem entenderem com o coração, para que não se convertam, e eu não os cure!
28Ficai, pois, cientes: aos gentios é enviada esta salvação de Deus. E eles a ouvirão[10]”.
Epílogo[11]— 30Paulo ficou dois anos[12] inteiros na moradia que havia alugado. Recebia todos aqueles que vinham visitá-lo, 31proclamando o Reino de Deus e ensinando o que se refere ao Senhor Jesus Cristo com toda a intrepidez e sem impedimento[13].
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Medito o Capítulo. O cristão é chamado a reconhecer a presença da graça, que faz acontecer a promessa de Deus em sua vida. Deus o chamou e o capacitou para uma missão, mesmo que essa aconteça em meio a tribulações. Contudo o que deve impressionar o cristão não são as tribulações, mas a obstinação de Deus em realizar o seu projeto. O que conta é a realização e não a tribulação, o que conta é que a graça de Deus não falta naquele que decide fazer a sua vontade com retidão. A disposição interior de ser obediente ao chamado de Deus faz com que o cristão enfrente a tribulação com serenidade, pois já sabe que a vitória será de Deus.
Vivo o Capítulo. O passar dos dias nos faz ver a realização da vontade de Deus. Ela nunca é vista no momento em que se dá a conhecer. Muitas das vezes o Senhor nos mostra o seu desejo, mas não diz como aquilo se dará. Muitos são aqueles que desanimam e acabam acreditando que tudo aquilo não passou de uma fantasia. O ânimo deve estimular a materialização da nossa confiança na providência divina, que faz acontecer o seu projeto sem ferir os corações, sem perder uma alma se quer e, muito menos, deixando uma impressão equivocada de Deus. Hoje, quando se fala tanto sobre a autonomia humana, os cristãos são chamados a darem o testemunho de submissão a Deus, manifestando, com plena confiança, que a vontade de Deus é soberana e, por isso, encontra-se engajado nessa missão.
[1] Díkê, a justiça divina personificada.
[2] Castor e Pollux ou Polideuces eram dois irmãos gêmeos da mitologia grega e romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente, irmãos de Helena de Troia e Clitemnestra, e meio-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe. Eram conhecidos coletivamente em grego como Dióscuros e em latim como os Gêmeos ou Castores. Por vezes também são referidos como Tindáridas, uma referência ao pai de Castor e pai adotivo de Pólux.
No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes – o que significa que Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor não o era. Com a morte deste, Pólux pediu a seu pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade, e assim teriam sido transformados na constelação de Gêmeos. Os dois são tidos como padroeiros dos navegantes, para quem aparecem na forma do fogo de Santelmo. Em algumas versões Pólux era mortal, mas sendo filho de Zeus recebeu o dom da divinidade (imortalidade).
Pólux/Pollux é a estrela mais brilhante da constelação de Gemini e a 17ª mais brilhante de todo o céu. Alfa Germinorum, conhecida como Castor, é a segunda estrela mais brilhante da constelação de Gemini.
Também citada na bíblia «E três meses depois partimos num navio de Alexandria que invernara na ilha, o qual tinha por insígnia Castor e Pólux.» (Atos dos Apóstolos 28:11). https://pt.wikipedia.org/wiki/Castor_e_P%C3%B3lux [consultado em 14/8/2019].
[3] Pozzuoli, no golfo de Nápoles. Neste importante porto já havia uma comunidade cristã.
[4] Texto oc. (adotado pela recensão antioquena): “Quando entramos em Roma, o centurião entregou os prisioneiros ao prefeito do pretório. Paulo recebeu a permissão de se alojar fora do campo (pretoriano)”. Estas informações complementares correspondem ao que, efetivamente, deve ter acontecido. É o regime especial da custodia militaris: o prisioneiro arranja um alojamento por conta própria, mas deve ter o braço direito sempre ligado, por uma corrente, ao braço esquerdo do soldado que o vigia.
[5] Paulo quis regularizar a sua situação o mais depressa possível, diante dos judeus de Roma. Faz um resumo do seu processo e protesta pela última vez sua fidelidade ao judaísmo.
[6] Ad. Oc.: “mas somente com o desejo de escapar da morte.
[7] Resposta bastante prudente e ponderada.
[8] Em Roma ainda, Paulo dirige a mensagem evangélica primeiro aos judeus (cf. 13,5+). Compare-se o sumário de sua pregação aos judeus de Roma com o discurso inaugural de Antioquia da Pisídia (13,15-41).
[9] Esta declaração, paralela à que segue o discurso de Antioquia (13,46-47), constitui a conclusão dos Atos e lhes dá o fio condutor (cf. 13,41+). Evoca também as perspectivas abertas no fim do discurso de Jesus em Nazaré (Lc 4,23-27) e pelas últimas palavras aos apóstolos (Lc 24,47). O texto de Is 6,9-10 (LXX) aparece igualmente em Mt 13,14-15 (cf. Mc 4,12p) e parcialmente em Jo 12,40. O tema e o texto são muito familiares ao cristianismo primitivo.
[10] O texto oc. (seguido pela recessão antioquena) acrescenta o v. 29: “Tendo ele dito isto, os judeus foram-se, discutindo vivamente entre si”.
[11] Assim, a chegada de Paulo a Roma, que consuma um programa de evangelização (cf. Lc 24,47; At 1,8+), revela-se como o ponto de partida de uma nova expansão do cristianismo. Lucas terminara seu evangelho abrindo-o para a perspectiva da missão dos apóstolos; termia igualmente o livro dos Atos abrindo-o para o futuro.
[12] O NT não indica de modo claro o que aconteceu depois deste período. É geralmente suposto que Paulo foi libertado, talvez devido a um dos atos de clemência aos quais Nero não era estranho. Neste caso ele teria podido realizar seu desejo de ir até a Espanha (cf. Rm 15,24). Uma boa tradição afirma que teve seu martírio em Roma sob Nero, em 64 ou 67.
[13] Ad. oc.: “dizendo que ele, Jesus, é o Filho de Deus, pelo qual o mundo inteiro deve ser julgado” (cf. 17,31).
Introdução
(Extratos das notas do editor da Bíblia de Jerusalém, Ed 2006)
As epístolas aos Gálatas e aos Romanos devem ser tratadas juntamente, pois tratam do mesmo problema, aquela como primeira reação provocada pela situação concreta, esta como exposição mais calma e mais completa, que põe em ordem as ideias suscitadas pela polêmica. …
A epístola aos Romanos deve tê-la seguido de perto. Paulo está em Corinto (inverno de 55-56), prestes a partir para Jerusalém, de onde espera dirigir-se a Roma e de lá à Espanha (Rm 15,22-32; cf. 1Cor 16,3-6; At 19,21; 20,3). Mas não foi ele quem fundou a Igreja de Roma e não recebera mais que parcas informações sobre a situação local, talvez por meio de pessoas como Áquila (At 18,2); as raras alusões de sua epístola deixam apenas vislumbrar uma comunidade em que os convertidos do judaísmo e do paganismo correm o perigo de se desentenderem. Assim, para preparar sua chegada, acha útil enviar por sua patrona Febe (Rm 16,1) uma carta em que expõe sua solução do problema judaísmo-cristianismo, tal como acaba de amadurecer devido à crise gálata. Para isso, retoma as ideias de Gl, mas de modo mais ordenado e matizado. Se Gl representa um grito que parte do coração, no qual a apologia pessoal (1,11-21) se justapõe à argumentação doutrinal (3,1-4,31) e às advertências veementes (5,1-6,18), Rm oferece explanação continuada, em que algumas grandes seções se concatenam harmoniosamente com o auxílio de temas que primeiro se anunciam e depois são tomadas.
Capítulo 1 da carta aos Romanos
Entendo o Capítulo. O primeiro Capítulo está dividido em duas pequenas partes: Saudação e Introdução; e o sumário do Evangelho, pregado por Paulo. No Capítulo, propriamente dito, encontramos a saudação de Paulo aos cristãos romanos; a oração de ação de graça; o tema principal da carta; e a condição humana sem Cristo. Paulo se apresenta à comunidade de Roma como pregador do Evangelho, visando a obediência da fé em Jesus Cristo. Prossegue com sua oração de ação de graças, na qual agradece a Deus o crescimento na fé, realizado pelos cristãos de Roma. Já no item seguinte, ele declara a intenção de sua carta: o fomento da fé, pois sem ela, Deus não pode exercer o seu poder em plenitude na vida dos crentes e os crentes não viverão seu destino iluminados pela fé. Termina o Capítulo apresentando a vida de uma sociedade que não fez de Cristo o centro inspirador de sua vida.
EPÍSTOLA AOS ROMANOS
1 Endereço[1] — 1Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo[2], escolhido para anunciar o evangelho de Deus, 2que ele já tinha prometido por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, 3e que diz respeito a seu Filho, nascido da estirpe de Davi segundo a carne, 4estabelecido[3] Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos mortos[4], segundo o Espírito de santidade, Jesus Cristo nosso Senhor, 5por quem recebemos a graça e a missão de pregar, para louvor do seu nome, a obediência da fé[5] entre todas as nações[6], 6das quais fazeis parte também vós, chamados de Jesus Cristo, 7a vós todos que estais em Roma, amados de Deus e chamados à santidade, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.
Ação de graças e oração — 8Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque vossa fé é celebrada em todo o mundo. 9Deus é testemunha, a quem presto um culto[7] espiritual[8], anunciando o evangelho de seu Filho, de como me lembro de vós. 10E peço continuamente em minhas orações que, de algum modo, com o beneplácito de Deus, se me apresente uma oportunidade de ir ter convosco. Realmente, desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, que vos possa confirmar, 12ou melhor, para nos confortar convosco pela fé que nos é comum a vós e a mim. 13E não escondo, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco — e fui impedido até agora — para colher algum fruto também entre vós, como entre as outras nações. 14Pois eu me sinto devedor a gregos e a bárbaros[9], a sábios e a ignorantes. 15Daí meu propósito[10] de levar o evangelho também a vós que estais em Roma.
A tese da Epístola — 16Na verdade, eu não me envergonho do evangelho: ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que crê[11], em primeiro lugar do judeu[12], mas também do grego. 17Porque nele a justiça de Deus[13] se revela da fé para a fé[14], conforme está escrito: O justo viverá da fé.[15]
A salvação pela fé
- COMO O HOMEM É JUSTIFICADO?
- TODOS OS HOMENS SEM EXCEÇÃO SOB O JULGAMENTO DE DEUS[16]
O julgamento já realizado — 18Manifesta-se, com efeito, a ira de Deus[17], do alto do céu, contra toda impiedade e injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça. 19Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho revelou. 20Sua realidade invisível — seu eterno poder e sua divindade — tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. 21Pois, tendo conhecido a Deus[18], não o honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados, e seu coração insensato ficou nas trevas. 22Jactando-se de possuir a sabedoria, tornaram-se tolos e 23trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis[19].
24Por isso Deus os entregou[20], segundo o desejo dos seus corações, à impureza em que eles mesmos desonraram seus corpos. 25Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém[21].
26Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; 27igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração.
28E como não julgaram bom ter o conhecimento de Deus, Deus os entregou à sua mente incapaz de julgar[22], para fazerem o que não convém: 29repletos de toda sorte de[23] injustiça, perversidade, avidez e malícia[24]; cheios de inveja, assassínios, rixas, fraudes e malvadezas; detratores, 30caluniadores, inimigos de Deus[25], insolentes, arrogantes, fanfarrões, engenhosos no mal, rebeldes para com os pais, 31insensatos, desleais, sem coração[26] nem piedade. 32Apesar de conhecerem a sentença de Deus que declara dignos de morte os que praticam semelhantes ações, eles não só as fazem, mas ainda aprovam os que as praticam[27].
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Medito o Capítulo. A sociedade, na qual o centro inspirador de sua vida não consiste em Cristo, mas apenas no raciocínio humano, perde o objetivo principal da existência humana: a santidade. Santidade é aqui entendida como semelhança com Deus, que é o Santo por excelência. Santidade significa inteireza de vida, bem-estar, integridade pessoal. A diferença existente entre um cristão e um incrédulo consiste apenas na opção realizada; enquanto o cristão opta por buscar a semelhança com Deus totalmente santo, o incrédulo busca justamente o contrário, menosprezando a inteireza e a perfeição de Deus. Mas o que o ser humano pode esperar sem Jesus? O que a nossa sociedade pode esperar sem pessoas cristificadas?
Vivo o Capítulo. Frente ao exposto, o principal trabalho apostólico que a sociedade de hoje nos pede é que cuidemos da socialização e humanização das crianças, a partir da fonte inspiradora que é Jesus Cristo, nosso Senhor. Para que isso seja uma realidade, necessitamos de pais cristificados, ou seja: pais para os quais a fonte inspiradora de suas vidas seja Jesus Cristo. Ainda necessitamos que os lares sejam escola do mais belo amor, ou seja onde se pratica a caridade e se vive as virtudes evangélicas. Neste trabalho, os cônjuges desempenham um papel essencial de mestres na fé, pedagogos da esperança e doutores na arte de amar. Contudo não posso deixar de alertar que o papel principal compete à mulher, devido aos laços existentes entre mãe e filhos. A presença de Cristo como centro inspirador da vida social começa em casa e tem seu centro de divulgação na família, por meio dos círculos de relacionamentos. O Capítulo de hoje questiona a evangelização doméstica, que ocorre da porta da sala até a porta da cozinha de nossas casas. E a família, como vai?
[1] De acordo com o formulário usado na época, Paulo inicia suas cartas com endereço (nome do remetente dos destinatários, saudações em forma de votos), seguida por ação de graças e por oração. Mas ele dá a essas fórmulas tonalidade cristã que lhe é própria e as prolonga ajuntando-lhes um pensamento teológico que, na maioria das vezes, anuncia os temas maiores de cada carta. – Aqui temos os seguintes temas: a gratuidade da eleição divina, o papel da fé na justificação, a salvação pela morte e ressurreição de Cristo, a harmonia dos dois Testamentos.
[2] Este título, de origem judaica, que significa “enviado” (cf. Jo 13,16; 2Cor 8,23; Fl 2,25), no NT é aplicado ora aos Doze discípulos escolhidos por Cristo (Mt 10,2; At 1,26; 2,37 etc; 1Cor 15,7; Ap 21,14) para serem testemunhas (At 1,8+), ora, em sentido mais lato, aos missionários do Evangelho (Rm 16,7; 1Cor 12,28; Ef 2,20; 3,5; 4,11). Não obstante Paulo não tenha sido incorporado ao grupo dos Doze, é apóstolo singular porque Cristo ressuscitado o enviou aos pagãos (At 26,17; Rm 11,13; 1Cor 1,1 etc), que em nada fica devendo aos Doze, pois como eles (At 10,40-41) também ele viu a Cristo ressuscitado (1Cor 9,1) e recebeu dele (Rm 1,5; Gl 1,16) a missão de ser sua testemunha (At 26,16). Embora reconhecendo-se o último dos apóstolos (1Cor 9,5; Gl 2,6-9), e não deve a eles seu evangelho (Gl 1,1.17.19).
[3] Vulg.: “predestinado”.
[4] Paulo atribui sempre a ressurreição de Cristo à ação de Deus (1Ts 1,10; 1Cor 6,14; 15,15; 2Cor 4,14; Gl 1,1; Rm 4,24; 10,9; At 2,24+; 1Pd 1,21), que nela manifestou seu “poder” (2Cor 13,4; Rm 6,4; Fl 3,10; Cl 2,12; Ef 1,19s; Hb 7,16). É pelo Espírito Santo que foi reconduzido à vida (Rm 8,11) e colocado no seu estado glorioso de Kyrios (Fl 2,9-11+; At 2,36+; Rm 14,9), no qual merece por novo título, messiânico, seu nome eterno de “Filho de Deus” (At 13,33; Hb 1,1-5; 5,5. Cf. Rm 8,11+; 9,5+).
[5] Sem dúvida, menos a obediência devida à mensagem evangélica do que aquela que se identifica com a adesão de fé (cf. At 6,7; Rm 6,16-17; 10,16; 15,18; 16,19.26; 2Cor 10,5-6; 2Ts 1,8; 1Pd 1,22; Hb 5,9; 11,8).
[6] O termo grego “ethene” pode ter conotação negativa (pagãos, aqueles que adoram os ídolos) ou conotação neutra; designa, portanto, povos diferentes do povo judaico, também ditos não-judeus. Em Rm, deve ser traduzido por “nações”, e não por “pagãos”, à medida que Paulo aplica o termo aos fiéis, certamente vindos do paganismo, mas que não são mais pagãos, adoradores de divindades pagãs as únicas passagens em que o termo foi traduzido por “pagãos” são 2,14-24.
[7] Lit.: “presto um culto em meu espírito”. O ministério apostólico é ato de culto prestado a Deus (cf. 15,16), assim como toda a vida cristã animada pela caridade (12,1; Fl 5,17+; 3,3; 4,18; At 13,2; 2Tm 1,3; 4,6; Hb 9,14; 12,28; 13,15; 1Pd 2,5).
[8] Em Paulo, o espírito (pneuma) designa, por vezes, a parte superior do homem (Rm 1,9; 8,16; 1Cor 2,11; 16,8; 2Cor 2,13; 7,13; Gl 6,18; Fl 4,23; Fm 25; 2Tm 4,22; cf. Mt 5,3; 27,50; Mc 2,8; 8,12; Lc 1,47.80; 8,55; 23,46; Jo 4,23s; 11,33; 13,21; 19,30; At 7,59; 17,16; 18,25; 19,21), que se distingue da sua parte inferior: a carne (1Cor 5,5; 2Cor 7,1; Cl 2,5; cf. Mt 26,41p; 1Pd 4,6; Rm 7,5), o corpo (1Cor 5,3s; 7,34; cf. Tg 2,26; Rm 7,24), ou mesmo a que (1Ts 5,23+; cf. Hb 4,12; Jd 19), e que, de certa forma, corresponde ao noûs (Rm 7,25+; Ef 4,23). Compare o sentido análogo de “disposição de espírito” (1Cor 4,21; 2Cor 12,18; Gl 6,1; Fl 1,27). Adotando esse termo, de preferência ao noûs da filosofia grega (cf. Gn 6,17+; Is 11,2+), a tradição bíblica deixa perceber a correspondência profunda entre o espírito do homem e o Espírito de Deus, que o suscita e o dirige (Rm 5,5+; At 1,8+). Esta correspondência é tal que em diversos textos citados e noutros mais (cf. Rm 12,11; 2Cor 6,6; Ef 4,3.23; 6,18; Fl 3,3 var.: Cl 1,8; Jd 19 etc) é difícil dizer de que espírito se trata, se do natural ou do sobrenatural, do pessoal ou do participado.
[9] A expressão “gregos”, contraposta a “bárbaros”, designa as pessoas cultas, inclusive os romanos (que tinham adotado a cultura grega); contraposta a “judeus”, designa os gentios (1,16; 2,9-10; 3,9; 10,12; 1Cor 1,22-24 etc).
[10] Pode-se traduzir também: “por isso, enquanto depende de mim, estou pronto a”.
[11] A fé é o ato pelo qual o homem se entrega a Deus, que é ao mesmo tempo verdade e bondade, como à fonte única da salvação. Ela se apoia sobre sua verdade e sua fidelidade a suas promessas (Rm 3,3s; 1Ts 5,24; 2Tm 2,13; Hb 10,23; 11,11) e sobre seu poder para realizá-las (Rm 4,17-21; Hb 11,19). Após a longa preparação do AT (Hb 11), tendo Deus falado através do seu Filho (Hb 1,1), é em seu Filho que doravante é preciso crer (cf. Mt 8,10+; Jo 3,11+), e depois dele no “querigma” (Rm 10,8-17; 1Cor 1,21; 15,11.14; cf. At 2,22+) do evangelho (Rm 1,16; 1Cor 15,1-2; Fl 1,27; Ef 1,13) anunciado pelos apóstolos (Rm 1,5; 1Cor 3,5; cf. Jo 17,20), segundo o qual Deus ressuscitou Jesus dos mortos e o fez Kyrios (Rm 4,24s; 10,9; At 17,31; 1Pd 1,21; cf. 1Cor 14,14.17), oferecendo por meio dele a vida a todos os que nele crerem (Rm 6,8-11; 2Cor 4,13s; Ef 1,19s; Cl 2,12; 1Ts 4,14). A fé no nome de Jesus (Rm 3,26; 10,13; cf. Jo 1,12; At 3,16; 1 Jo 3,23), Cristo (Gl 2,16; cf. At 24,24; 1Jo 5,1), Senhor (Rm 10,9; 1Cor 12,3; Fl 2,11; cf. At 16,31) e Filho de Deus (Gl 2,20; cf. Jo 2031; 1Jo 5,5; At 8,37; 9,20) é a condição indispensável da salvação (Rm 10,9-13; 1Cor 1,21; Gl 3,22; Is 7,9+; At 4,12; 16,31; Hb 11,6; Jo 3,15-18). A fé não é mera adesão intelectual, mas confiança e obediência (Rm 1,5; 6,17; 10,16; 16,26; cf. At 6,7) a uma verdade de vida (2Ts 2,12s) que engaja todo o ser na união com Cristo (2Cor 13,5; Gl 2,16.20; Ef 3,17) e lhe dá o Espírito (Gl 3,2.5.14; cf. Jo 7,38s; At 11,16-17) dos filhos de Deus (Gl 3,26; cf. Jo 1,12). Visto que a fé conta só com Deus, exclui toda autossuficiência (Rm 3,27; Ef 2,9) e se opõe ao regime da Lei (Rm 7,7+) e à sua busca vã (Rm 10,3; Fl 3,9) de uma justiça merecida pelas obras (Rm 3,20.28; 9,31s; Gl 2,16; 3,11s): a verdadeira justiça, que só ela obtém, é a justiça salvífica de Deus (Rm aqui; 3,21-26), recebida como dom gratuito (Rm 3,24; 4,16; 5,17; Ef 2,8; cf. At 15,11). Assim ela corresponde à promessa feita a Abraão (Rm 4; Gl 3,6-18) e abre a salvação a todos, também aos gentios (Rm 1,5.16; 3,29s; 9,30; 10,11s; 16,26; Gl 3,8). Ela é acompanhada pelo batismo (Rm 6,4+), exprime-se por uma profissão aberta (Rm 10,10; 1Tm 6,12) e frutifica pelo amor (Gl 5,6; cf. Tg 2,14+). Ainda obscura (2Cor 5,7; Hb 11,1; cf. Jo 20,29) e acompanhada pela esperança (Rm 5,2+), ela deve crescer (2Cor 10,15; 1Ts 3,10; 2Ts 1,3) na luta e nos sofrimentos (Fl 1,29; Ef 6,16; 1Ts 3,2-8; 2Ts 1,4; Hb 12,2; 1Pd 5,9), na firmeza (1Cor 16,13; Cl 1,23; 2,5.7) e na fidelidade (2Tm 4,7; cf. 1,14; 1Tm 6,20) até o dia da visão e da posse (1Cor 13,12; cf. 1Jo 3,2).
[12] Os judeus são os primeiros na economia histórica da salvação (cf. Rm 2,9-10; Mt 10,5s; 15,24; Mc 7,27; At 13,5+; Jo 4,22).
[13] Em Rm, Paulo não define o que entende por “justiça de Deus”, mas os onze primeiros capítulos apresentam progressivamente as componentes: de retributiva (punição e recompensa conforme as obras, imparcialmente etc), ela em seguida se manifesta como justificadora, isto é que torna justo, transformando todo aquele que aceita crer.
[14] A expressão obscura será determinada a partir de 3,21.
[15] Os vv. 16-17 formam o que a retórica da época chamava de Prothesis, isto é, tese que a argumentação subsequente deve provar e explicar. Num primeiro tempo, Paulo mostrará que a justiça de Deus opera unicamente pela fé para todos, sem exceção nem privilégio, judeus e não-judeus (1,18-4,25). Em seguida ele insiste sobre a graça superabundante concedida a todos aqueles que estão em Cristo (5-8), o que trará uma nova dificuldade: se ninguém (tanto judeu com não-judeu) está excluído da eleição e da filiação divina, por que Deus escolheu o povo de Israel e por que este último parece ter sido excluído das graças concedidas em Cristo (9-11)?
[16] Podemos ficar espantados de que, após ter apresentado o Evangelho como força salvífica de Deus e manifestação última de sua justiça, Paulo, sem transição, fala da ira divina. Na realidade, esta seção da epístola é essencial para a demonstração, pois ela permite a Paulo começar com as categorias e esperanças dos judeus fiéis, que esperavam a manifestação final da justiça divina – castigo dos ímpios e libertação de Israel. Mas em Rm 2, o Apóstolo progressivamente distancia-se das posições adquiridas, para mostrar que as diferenças entre circunciso e incircunciso, judeu e não-judeu, não estão onde se pensava. Toda a sua argumentação visa a nivelar os estatutos, para insistir sobre a situação igual, sem nenhum privilégio, na qual todos se encontram, incapazes de justiça e, portanto, objetos da ira divina.
[17] Já no AT, diz-se que Deus reage pela ira contra a injustiça humana. Mesmo se esta ira seja explicitamente qualificada como justa, ela não é, todavia, oposta à justiça divina, e certos textos parecem indicar que ela é componente necessária; cf. Sl 7,7-12. Por “ira divina”, os escritores sagrados designam a punição infligida para a injustiça grave. Tal reação não reflete a natureza divina irascível, mas uma incompatibilidade total entre Deus e a injustiça, que só pode terminar pela destruição do mal.
[18] Conhecimento de um Deus único e pessoal, implicando a consciência de uma obrigação de oração e de adoração.
[19] Este versículo, que retoma a crítica bíblica e judaica da idolatria, alude ao episódio do bezerro de ouro e à idolatria passada de Israel (Sl 106,20; cf. Ex 32); Paulo assim indica implicitamente que suas reflexões atingem não só os pagãos, mas uma tendência constante da humanidade.
[20] Até o fim do cap. 1, Paulo apenas retoma as críticas pouca fazia dos pagãos e de seus costumes. Cf. Sb 11-12.
[21] O termo hebraico “Amém”, herdado do AT (cf. Sl 41,14+), passou para o uso da Igreja cristã (9,5; 11,36; 1Cor 14,16; Ap 1,6-7; 22,20-21 etc). Usado também por Jesus (Mt 5,18+), tornou-se em seguida uma espécie de nome próprio, enquanto é testemunha verdadeira das promessas de Deus (2Cor 1,20. Ap 1,2.5+; 3,14).
[22] Jogo de palavras: por não ter sido exercido como devia (não o apreciaram), o julgamento moral, incluído no conhecimento de Deus (v. 21), ficou ou abolido, ou falseado (v. 32).
[23] Aqui, como frequentemente alhures, Paulo se inspira nas listas de vícios que circulavam na literatura contemporânea pagã e sobretudo judaica (13,13; 1Cor 5,10-11; 6,9-10; 2Cor 12,20; Gl 5,19-21; Ef 4,31; 5,3-5; Cl 3,5-8; 1Tm 1,9-10; 6,4; 2Tm 3,2-5; Tt 3,3; cf. também Mt 15,19p; 1Pd 4,3; Ap 21,8; 22,15).
[24] Ad.: “fornicação”.
[25] Outra tradução: “odiados por Deus”, mas cf. 5,10; 8,7.
[26] Ad. (Vulg.): “implacáveis” (cf. 2Tm 3,3).
[27] A tradição latina interpretou: “conhecendo bem que Deus é justo, eles não compreenderam que os autores de semelhantes ações são dignos de morte; e não somente seus autores, mas também aqueles que os aprovam”.
Capítulo 1 da carta aos Romanos
Entendo o Capítulo. O primeiro Capítulo está dividido em duas pequenas partes: Saudação e Introdução; e o sumário do Evangelho, pregado por Paulo. No Capítulo, propriamente dito, encontramos a saudação de Paulo aos cristãos romanos; a oração de ação de graça; o tema principal da carta; e a condição humana sem Cristo. Paulo se apresenta à comunidade de Roma como pregador do Evangelho, visando a obediência da fé em Jesus Cristo. Prossegue com sua oração de ação de graças, na qual agradece a Deus o crescimento na fé, realizado pelos cristãos de Roma. Já no item seguinte, ele declara a intenção de sua carta: o fomento da fé, pois sem ela, Deus não pode exercer o seu poder em plenitude na vida dos crentes e os crentes não viverão seu destino iluminados pela fé. Termina o Capítulo apresentando a vida de uma sociedade que não fez de Cristo o centro inspirador de sua vida.
EPÍSTOLA AOS ROMANOS
1 Endereço[1] — 1Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo[2], escolhido para anunciar o evangelho de Deus, 2que ele já tinha prometido por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, 3e que diz respeito a seu Filho, nascido da estirpe de Davi segundo a carne, 4estabelecido[3] Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos mortos[4], segundo o Espírito de santidade, Jesus Cristo nosso Senhor, 5por quem recebemos a graça e a missão de pregar, para louvor do seu nome, a obediência da fé[5] entre todas as nações[6], 6das quais fazeis parte também vós, chamados de Jesus Cristo, 7a vós todos que estais em Roma, amados de Deus e chamados à santidade, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.
Ação de graças e oração — 8Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque vossa fé é celebrada em todo o mundo. 9Deus é testemunha, a quem presto um culto[7] espiritual[8], anunciando o evangelho de seu Filho, de como me lembro de vós. 10E peço continuamente em minhas orações que, de algum modo, com o beneplácito de Deus, se me apresente uma oportunidade de ir ter convosco. Realmente, desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, que vos possa confirmar, 12ou melhor, para nos confortar convosco pela fé que nos é comum a vós e a mim. 13E não escondo, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco — e fui impedido até agora — para colher algum fruto também entre vós, como entre as outras nações. 14Pois eu me sinto devedor a gregos e a bárbaros[9], a sábios e a ignorantes. 15Daí meu propósito[10] de levar o evangelho também a vós que estais em Roma.
A tese da Epístola — 16Na verdade, eu não me envergonho do evangelho: ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que crê[11], em primeiro lugar do judeu[12], mas também do grego. 17Porque nele a justiça de Deus[13] se revela da fé para a fé[14], conforme está escrito: O justo viverá da fé.[15]
A salvação pela fé
- COMO O HOMEM É JUSTIFICADO?
- TODOS OS HOMENS SEM EXCEÇÃO SOB O JULGAMENTO DE DEUS[16]
O julgamento já realizado — 18Manifesta-se, com efeito, a ira de Deus[17], do alto do céu, contra toda impiedade e injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça. 19Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho revelou. 20Sua realidade invisível — seu eterno poder e sua divindade — tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. 21Pois, tendo conhecido a Deus[18], não o honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados, e seu coração insensato ficou nas trevas. 22Jactando-se de possuir a sabedoria, tornaram-se tolos e 23trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis[19].
24Por isso Deus os entregou[20], segundo o desejo dos seus corações, à impureza em que eles mesmos desonraram seus corpos. 25Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém[21].
26Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; 27igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração.
28E como não julgaram bom ter o conhecimento de Deus, Deus os entregou à sua mente incapaz de julgar[22], para fazerem o que não convém: 29repletos de toda sorte de[23] injustiça, perversidade, avidez e malícia[24]; cheios de inveja, assassínios, rixas, fraudes e malvadezas; detratores, 30caluniadores, inimigos de Deus[25], insolentes, arrogantes, fanfarrões, engenhosos no mal, rebeldes para com os pais, 31insensatos, desleais, sem coração[26] nem piedade. 32Apesar de conhecerem a sentença de Deus que declara dignos de morte os que praticam semelhantes ações, eles não só as fazem, mas ainda aprovam os que as praticam[27].
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Medito o Capítulo. A sociedade, na qual o centro inspirador de sua vida não consiste em Cristo, mas apenas no raciocínio humano, perde o objetivo principal da existência humana: a santidade. Santidade é aqui entendida como semelhança com Deus, que é o Santo por excelência. Santidade significa inteireza de vida, bem-estar, integridade pessoal. A diferença existente entre um cristão e um incrédulo consiste apenas na opção realizada; enquanto o cristão opta por buscar a semelhança com Deus totalmente santo, o incrédulo busca justamente o contrário, menosprezando a inteireza e a perfeição de Deus. Mas o que o ser humano pode esperar sem Jesus? O que a nossa sociedade pode esperar sem pessoas cristificadas?
Vivo o Capítulo. Frente ao exposto, o principal trabalho apostólico que a sociedade de hoje nos pede é que cuidemos da socialização e humanização das crianças, a partir da fonte inspiradora que é Jesus Cristo, nosso Senhor. Para que isso seja uma realidade, necessitamos de pais cristificados, ou seja: pais para os quais a fonte inspiradora de suas vidas seja Jesus Cristo. Ainda necessitamos que os lares sejam escola do mais belo amor, ou seja onde se pratica a caridade e se vive as virtudes evangélicas. Neste trabalho, os cônjuges desempenham um papel essencial de mestres na fé, pedagogos da esperança e doutores na arte de amar. Contudo não posso deixar de alertar que o papel principal compete à mulher, devido aos laços existentes entre mãe e filhos. A presença de Cristo como centro inspirador da vida social começa em casa e tem seu centro de divulgação na família, por meio dos círculos de relacionamentos. O Capítulo de hoje questiona a evangelização doméstica, que ocorre da porta da sala até a porta da cozinha de nossas casas. E a família, como vai?
[1] De acordo com o formulário usado na época, Paulo inicia suas cartas com endereço (nome do remetente dos destinatários, saudações em forma de votos), seguida por ação de graças e por oração. Mas ele dá a essas fórmulas tonalidade cristã que lhe é própria e as prolonga ajuntando-lhes um pensamento teológico que, na maioria das vezes, anuncia os temas maiores de cada carta. – Aqui temos os seguintes temas: a gratuidade da eleição divina, o papel da fé na justificação, a salvação pela morte e ressurreição de Cristo, a harmonia dos dois Testamentos.
[2] Este título, de origem judaica, que significa “enviado” (cf. Jo 13,16; 2Cor 8,23; Fl 2,25), no NT é aplicado ora aos Doze discípulos escolhidos por Cristo (Mt 10,2; At 1,26; 2,37 etc; 1Cor 15,7; Ap 21,14) para serem testemunhas (At 1,8+), ora, em sentido mais lato, aos missionários do Evangelho (Rm 16,7; 1Cor 12,28; Ef 2,20; 3,5; 4,11). Não obstante Paulo não tenha sido incorporado ao grupo dos Doze, é apóstolo singular porque Cristo ressuscitado o enviou aos pagãos (At 26,17; Rm 11,13; 1Cor 1,1 etc), que em nada fica devendo aos Doze, pois como eles (At 10,40-41) também ele viu a Cristo ressuscitado (1Cor 9,1) e recebeu dele (Rm 1,5; Gl 1,16) a missão de ser sua testemunha (At 26,16). Embora reconhecendo-se o último dos apóstolos (1Cor 9,5; Gl 2,6-9), e não deve a eles seu evangelho (Gl 1,1.17.19).
[3] Vulg.: “predestinado”.
[4] Paulo atribui sempre a ressurreição de Cristo à ação de Deus (1Ts 1,10; 1Cor 6,14; 15,15; 2Cor 4,14; Gl 1,1; Rm 4,24; 10,9; At 2,24+; 1Pd 1,21), que nela manifestou seu “poder” (2Cor 13,4; Rm 6,4; Fl 3,10; Cl 2,12; Ef 1,19s; Hb 7,16). É pelo Espírito Santo que foi reconduzido à vida (Rm 8,11) e colocado no seu estado glorioso de Kyrios (Fl 2,9-11+; At 2,36+; Rm 14,9), no qual merece por novo título, messiânico, seu nome eterno de “Filho de Deus” (At 13,33; Hb 1,1-5; 5,5. Cf. Rm 8,11+; 9,5+).
[5] Sem dúvida, menos a obediência devida à mensagem evangélica do que aquela que se identifica com a adesão de fé (cf. At 6,7; Rm 6,16-17; 10,16; 15,18; 16,19.26; 2Cor 10,5-6; 2Ts 1,8; 1Pd 1,22; Hb 5,9; 11,8).
[6] O termo grego “ethene” pode ter conotação negativa (pagãos, aqueles que adoram os ídolos) ou conotação neutra; designa, portanto, povos diferentes do povo judaico, também ditos não-judeus. Em Rm, deve ser traduzido por “nações”, e não por “pagãos”, à medida que Paulo aplica o termo aos fiéis, certamente vindos do paganismo, mas que não são mais pagãos, adoradores de divindades pagãs as únicas passagens em que o termo foi traduzido por “pagãos” são 2,14-24.
[7] Lit.: “presto um culto em meu espírito”. O ministério apostólico é ato de culto prestado a Deus (cf. 15,16), assim como toda a vida cristã animada pela caridade (12,1; Fl 5,17+; 3,3; 4,18; At 13,2; 2Tm 1,3; 4,6; Hb 9,14; 12,28; 13,15; 1Pd 2,5).
[8] Em Paulo, o espírito (pneuma) designa, por vezes, a parte superior do homem (Rm 1,9; 8,16; 1Cor 2,11; 16,8; 2Cor 2,13; 7,13; Gl 6,18; Fl 4,23; Fm 25; 2Tm 4,22; cf. Mt 5,3; 27,50; Mc 2,8; 8,12; Lc 1,47.80; 8,55; 23,46; Jo 4,23s; 11,33; 13,21; 19,30; At 7,59; 17,16; 18,25; 19,21), que se distingue da sua parte inferior: a carne (1Cor 5,5; 2Cor 7,1; Cl 2,5; cf. Mt 26,41p; 1Pd 4,6; Rm 7,5), o corpo (1Cor 5,3s; 7,34; cf. Tg 2,26; Rm 7,24), ou mesmo a que (1Ts 5,23+; cf. Hb 4,12; Jd 19), e que, de certa forma, corresponde ao noûs (Rm 7,25+; Ef 4,23). Compare o sentido análogo de “disposição de espírito” (1Cor 4,21; 2Cor 12,18; Gl 6,1; Fl 1,27). Adotando esse termo, de preferência ao noûs da filosofia grega (cf. Gn 6,17+; Is 11,2+), a tradição bíblica deixa perceber a correspondência profunda entre o espírito do homem e o Espírito de Deus, que o suscita e o dirige (Rm 5,5+; At 1,8+). Esta correspondência é tal que em diversos textos citados e noutros mais (cf. Rm 12,11; 2Cor 6,6; Ef 4,3.23; 6,18; Fl 3,3 var.: Cl 1,8; Jd 19 etc) é difícil dizer de que espírito se trata, se do natural ou do sobrenatural, do pessoal ou do participado.
[9] A expressão “gregos”, contraposta a “bárbaros”, designa as pessoas cultas, inclusive os romanos (que tinham adotado a cultura grega); contraposta a “judeus”, designa os gentios (1,16; 2,9-10; 3,9; 10,12; 1Cor 1,22-24 etc).
[10] Pode-se traduzir também: “por isso, enquanto depende de mim, estou pronto a”.
[11] A fé é o ato pelo qual o homem se entrega a Deus, que é ao mesmo tempo verdade e bondade, como à fonte única da salvação. Ela se apoia sobre sua verdade e sua fidelidade a suas promessas (Rm 3,3s; 1Ts 5,24; 2Tm 2,13; Hb 10,23; 11,11) e sobre seu poder para realizá-las (Rm 4,17-21; Hb 11,19). Após a longa preparação do AT (Hb 11), tendo Deus falado através do seu Filho (Hb 1,1), é em seu Filho que doravante é preciso crer (cf. Mt 8,10+; Jo 3,11+), e depois dele no “querigma” (Rm 10,8-17; 1Cor 1,21; 15,11.14; cf. At 2,22+) do evangelho (Rm 1,16; 1Cor 15,1-2; Fl 1,27; Ef 1,13) anunciado pelos apóstolos (Rm 1,5; 1Cor 3,5; cf. Jo 17,20), segundo o qual Deus ressuscitou Jesus dos mortos e o fez Kyrios (Rm 4,24s; 10,9; At 17,31; 1Pd 1,21; cf. 1Cor 14,14.17), oferecendo por meio dele a vida a todos os que nele crerem (Rm 6,8-11; 2Cor 4,13s; Ef 1,19s; Cl 2,12; 1Ts 4,14). A fé no nome de Jesus (Rm 3,26; 10,13; cf. Jo 1,12; At 3,16; 1 Jo 3,23), Cristo (Gl 2,16; cf. At 24,24; 1Jo 5,1), Senhor (Rm 10,9; 1Cor 12,3; Fl 2,11; cf. At 16,31) e Filho de Deus (Gl 2,20; cf. Jo 2031; 1Jo 5,5; At 8,37; 9,20) é a condição indispensável da salvação (Rm 10,9-13; 1Cor 1,21; Gl 3,22; Is 7,9+; At 4,12; 16,31; Hb 11,6; Jo 3,15-18). A fé não é mera adesão intelectual, mas confiança e obediência (Rm 1,5; 6,17; 10,16; 16,26; cf. At 6,7) a uma verdade de vida (2Ts 2,12s) que engaja todo o ser na união com Cristo (2Cor 13,5; Gl 2,16.20; Ef 3,17) e lhe dá o Espírito (Gl 3,2.5.14; cf. Jo 7,38s; At 11,16-17) dos filhos de Deus (Gl 3,26; cf. Jo 1,12). Visto que a fé conta só com Deus, exclui toda autossuficiência (Rm 3,27; Ef 2,9) e se opõe ao regime da Lei (Rm 7,7+) e à sua busca vã (Rm 10,3; Fl 3,9) de uma justiça merecida pelas obras (Rm 3,20.28; 9,31s; Gl 2,16; 3,11s): a verdadeira justiça, que só ela obtém, é a justiça salvífica de Deus (Rm aqui; 3,21-26), recebida como dom gratuito (Rm 3,24; 4,16; 5,17; Ef 2,8; cf. At 15,11). Assim ela corresponde à promessa feita a Abraão (Rm 4; Gl 3,6-18) e abre a salvação a todos, também aos gentios (Rm 1,5.16; 3,29s; 9,30; 10,11s; 16,26; Gl 3,8). Ela é acompanhada pelo batismo (Rm 6,4+), exprime-se por uma profissão aberta (Rm 10,10; 1Tm 6,12) e frutifica pelo amor (Gl 5,6; cf. Tg 2,14+). Ainda obscura (2Cor 5,7; Hb 11,1; cf. Jo 20,29) e acompanhada pela esperança (Rm 5,2+), ela deve crescer (2Cor 10,15; 1Ts 3,10; 2Ts 1,3) na luta e nos sofrimentos (Fl 1,29; Ef 6,16; 1Ts 3,2-8; 2Ts 1,4; Hb 12,2; 1Pd 5,9), na firmeza (1Cor 16,13; Cl 1,23; 2,5.7) e na fidelidade (2Tm 4,7; cf. 1,14; 1Tm 6,20) até o dia da visão e da posse (1Cor 13,12; cf. 1Jo 3,2).
[12] Os judeus são os primeiros na economia histórica da salvação (cf. Rm 2,9-10; Mt 10,5s; 15,24; Mc 7,27; At 13,5+; Jo 4,22).
[13] Em Rm, Paulo não define o que entende por “justiça de Deus”, mas os onze primeiros capítulos apresentam progressivamente as componentes: de retributiva (punição e recompensa conforme as obras, imparcialmente etc), ela em seguida se manifesta como justificadora, isto é que torna justo, transformando todo aquele que aceita crer.
[14] A expressão obscura será determinada a partir de 3,21.
[15] Os vv. 16-17 formam o que a retórica da época chamava de Prothesis, isto é, tese que a argumentação subsequente deve provar e explicar. Num primeiro tempo, Paulo mostrará que a justiça de Deus opera unicamente pela fé para todos, sem exceção nem privilégio, judeus e não-judeus (1,18-4,25). Em seguida ele insiste sobre a graça superabundante concedida a todos aqueles que estão em Cristo (5-8), o que trará uma nova dificuldade: se ninguém (tanto judeu com não-judeu) está excluído da eleição e da filiação divina, por que Deus escolheu o povo de Israel e por que este último parece ter sido excluído das graças concedidas em Cristo (9-11)?
[16] Podemos ficar espantados de que, após ter apresentado o Evangelho como força salvífica de Deus e manifestação última de sua justiça, Paulo, sem transição, fala da ira divina. Na realidade, esta seção da epístola é essencial para a demonstração, pois ela permite a Paulo começar com as categorias e esperanças dos judeus fiéis, que esperavam a manifestação final da justiça divina – castigo dos ímpios e libertação de Israel. Mas em Rm 2, o Apóstolo progressivamente distancia-se das posições adquiridas, para mostrar que as diferenças entre circunciso e incircunciso, judeu e não-judeu, não estão onde se pensava. Toda a sua argumentação visa a nivelar os estatutos, para insistir sobre a situação igual, sem nenhum privilégio, na qual todos se encontram, incapazes de justiça e, portanto, objetos da ira divina.
[17] Já no AT, diz-se que Deus reage pela ira contra a injustiça humana. Mesmo se esta ira seja explicitamente qualificada como justa, ela não é, todavia, oposta à justiça divina, e certos textos parecem indicar que ela é componente necessária; cf. Sl 7,7-12. Por “ira divina”, os escritores sagrados designam a punição infligida para a injustiça grave. Tal reação não reflete a natureza divina irascível, mas uma incompatibilidade total entre Deus e a injustiça, que só pode terminar pela destruição do mal.
[18] Conhecimento de um Deus único e pessoal, implicando a consciência de uma obrigação de oração e de adoração.
[19] Este versículo, que retoma a crítica bíblica e judaica da idolatria, alude ao episódio do bezerro de ouro e à idolatria passada de Israel (Sl 106,20; cf. Ex 32); Paulo assim indica implicitamente que suas reflexões atingem não só os pagãos, mas uma tendência constante da humanidade.
[20] Até o fim do cap. 1, Paulo apenas retoma as críticas pouca fazia dos pagãos e de seus costumes. Cf. Sb 11-12.
[21] O termo hebraico “Amém”, herdado do AT (cf. Sl 41,14+), passou para o uso da Igreja cristã (9,5; 11,36; 1Cor 14,16; Ap 1,6-7; 22,20-21 etc). Usado também por Jesus (Mt 5,18+), tornou-se em seguida uma espécie de nome próprio, enquanto é testemunha verdadeira das promessas de Deus (2Cor 1,20. Ap 1,2.5+; 3,14).
[22] Jogo de palavras: por não ter sido exercido como devia (não o apreciaram), o julgamento moral, incluído no conhecimento de Deus (v. 21), ficou ou abolido, ou falseado (v. 32).
[23] Aqui, como frequentemente alhures, Paulo se inspira nas listas de vícios que circulavam na literatura contemporânea pagã e sobretudo judaica (13,13; 1Cor 5,10-11; 6,9-10; 2Cor 12,20; Gl 5,19-21; Ef 4,31; 5,3-5; Cl 3,5-8; 1Tm 1,9-10; 6,4; 2Tm 3,2-5; Tt 3,3; cf. também Mt 15,19p; 1Pd 4,3; Ap 21,8; 22,15).
[24] Ad.: “fornicação”.
[25] Outra tradução: “odiados por Deus”, mas cf. 5,10; 8,7.
[26] Ad. (Vulg.): “implacáveis” (cf. 2Tm 3,3).
[27] A tradição latina interpretou: “conhecendo bem que Deus é justo, eles não compreenderam que os autores de semelhantes ações são dignos de morte; e não somente seus autores, mas também aqueles que os aprovam”.